Marcelo
Sguassábia
O CHAPÉU RESISTIRÁ!
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Tudo pode cair de moda na indumentária, até mesmo as
recém-inventadas ceroulas e os modernos espartilhos, mas os chapéus
hão de resistir bravamente. Isto é tão certo quanto a eleição de
Prudente de Moraes no próximo pleito.
Admito que a procura pelo artigo vem caindo nos últimos meses, fato
desolador mas inegável, na qualidade de proprietário de uma casa do
ramo. Atribuo, contudo – e o tempo me dará razão, que esta debandada
da freguesia é fenômeno isolado e momentâneo.
Não se lançam assim, no fosso do esquecimento, três gerações
dedicadas à arte e ao ofício da chapelaria. Uma dinastia que começou
com meu avô Ariovaldo, no “Palácio dos Chapéos”, continuou com o
glorioso “Ao Chapéu Elegante”, casa que marcou época sob o comando
do meu pai, Jabur, e prossegue comigo, com a afamada “Chapelândia”.
Afirmar que os chapéus cairão em desuso é o mesmo que dizer que
deixarão de ser usados os leques, as abotoaduras, os cueiros, as
anáguas e as galochas. Trata-se de sandice a que não se deve dar
crédito. Um cocuruto desprovido de chapéu é uma afronta aos bons
costumes, quase uma incivilidade no passeio público e nos
compromissos sociais. Além de ser também uma descortesia para com as
damas, que aguardam que o tirem da cabeça à sua passagem, em sinal
de respeito e galanteio.
Em suas variadas formas, eles têm lugar cativo nas ruas e na
história. Os panamá, os coco, os de abas largas e os nem tanto, os
de feltro, os de couro, os de lã e, porque não dizer, os de
palhinha. Sim, os de palhinha branca, que tanto alvoroço fazem nas
quermesses, festas do Divino e páreos do Jockey Club, engalanando os
janotas.
Mais que objeto de adorno, o chapéu tem serventia. É isolante
térmico sob o sol inclemente, protege do vento as madeixas das
melindrosas e os cachos do maganões e serve até de guarda-chuva, em
pés-d’água de menor intensidade.
Sejamos realistas, meus leitores. Com o fim do chapéu estaria
extinta toda uma cadeia produtiva que gira em torno dele,
sacrificando milhares de empregos diretos e indiretos. Seria um
desastre na pujante indústria de porta-chapéus, também chamados de
“fradinhos”, peças indispensáveis nos vestíbulos das residências e
cuja manufatura segue em franca expansão, tanto de um lado quanto de
outro do Tratado de Tordesilhas. E que dizer dos mendigos, que não
teriam onde colocar os parcos caraminguás que lhes são lançados nas
portas das igrejas? Até eles estariam em maus lençóis com a extinção
do chapéu.
Outros abalos irreparáveis, na falta desse item indispensável do
vestuário, se fariam sentir nas comissões de frente de escolas de
samba, nas festas de peão e nas romarias montadas rumo a Aparecida
do Norte e a outros santuários. Sem falar naquele famoso quadro do
Raul Gil, que obviamente deixaria de existir.
Nem todos, entretanto, têm a mesma perseverança e obstinação que eu
nos negócios. Já vejo fraquejarem alguns concorrentes de peso, o que
para mim é motivo de regozijo. É o caso do “Chapelão de Ouro”, que
desde a semana passada ostenta em sua vitrine uma faixa com os
dizeres: “Passo o ponto a quem interessar possa, com farto
sortimento de chapéus incluso. Tratar comigo no horário da sesta”.
É também do “Chapelão de Ouro” essa promoção, que consta de um
panfleto distribuído nas ruas: Na aquisição de qualquer modelo de
chapéu das afamadas marcas Ramenzoni e Cury, V.Sa. ganha um boné
para seu menino e um véu de missa para sua patroa.
Duvido que dê retorno. Há de fechar as portas, brevemente. Aí então
reinarei sozinho no mercado.