
10/05/2008
Ano 11 -
Número 580

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
|
Marcelo
Sguassábia
GELO
|
|
 Preso no ímã da porta
da geladeira estava um bilhete de Maria Carolina, um pouco mais
extenso e muito menos inocente que a média dos bilhetes
domésticos.
“Sempre a mesma carne, todo dia, cansa. Precisa dar aquela
variadinha básica no cardápio, e foi isso o que fiz, amor. Te traí
porque sou humana, seria mais fria que esta geladeira se ficasse
só ao teu lado e fizesse vista grossa à grande oferta de outros
homens. Sendo a vida uma só, me parece muito pouco pretensioso
conformar-me ao convívio de tuas manias mesquinhas, tua escova de
dentes em péssimo estado, teu ar de cardíaco no pós-operatório e
tua barriga de cerveja que cresce junto com a minha repulsa. Eu
fiz o que tinha que ser feito em hotéis vagabundos, nas festas da
firma – da firma em que você trabalha, diga-se de passagem, e até
em mictório de metrô. Eu fiz com quem se habilitasse e tivesse
aquele negócio em razoável estado de funcionamento. Eu fazia onde
desse, e confesso que afoitamente e no improviso era melhor. Nos
carros pequenos e grandes, muros, quitinetes emprestados e na roda
gigante de um parque de diversões, com um sujeito barbudo que
puxava uma perna, coitado. Teve um dia, amor, que foi na escada de
incêndio, aqui mesmo em nosso prédio, com três vizinhos de uma vez
e mais aquela morena de cabelo liso do 121. E quando disse que ia
ao cabeleireiro, na terça passada, estava era tirando um filho de
nem sei quem. Eu te sacaneei demais, se tem outra vida além dessa
miséria em que a gente se arrasta, minha luxúria já cavou lugar
cativo no fundo do inferno, à direita do coisa-ruim. E quanto mais
eu fazia de dia, mais eu gostava de ir contigo à noite, pela
cosquinha de saber que você nada sabia, pelo gosto de enganar
mesmo. Dava uma pena danada ver você ali, arfando com uma pontinha
de orgulho, achando que a minha fome era sinal de que eu me
guardava pra ti. Se serve de consolo, fica sabendo que a
dependência em fornicação variada é de família. Tua sogra nunca
prestou, desde a menarca até hoje, e a mãe dela quase foi presa,
tamanho o fogo e a devassidão. Quanto aos nossos filhos, nem
precisa ficar na dúvida. Já de cara eu te garanto que não são
teus, mas não exija de mim um prognóstico de possíveis pais. Seria
leviana em arriscar um short-list, e dentre os inúmeros suspeitos
está o teu irmão, Lúcio, pedaço de mau caminho que me levou às
nuvens na piscina da casa de praia, no réveillon de 2002, enquanto
você roncava entupido de vinho. Se depois de tudo isso ainda tiver
fome, tem carne de panela no potinho atrás da gelatina. É só
esquentar. Até um dia, amor.”
(10 de maio/2008)
CooJornal no 580
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
|
|