Marcelo
Sguassábia
PASTORAL
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Pasta o verde da
fazenda no amendoal dos teus olhos. Lavoro onírico, delírio que toma
corpo e afronta o cansaço-cão. O trem da Mogiana vem chegando e
descarrila ao topar com teus desvios. Bifurcadora de sinas, segues
gestando tornados. O sol a pedir licença pra se pôr em tua figura.
Não há átomo no cosmo que, ao pressentir tua passagem, não fique
tomado de espanto e seja teu servo devoto.
Corações mirins aos pulos, arranhões nos cotovelos. Tábuas toscas
que aprisionam os bezerros nos currais. Os olhares que na infância
um ao outro nos lançamos, vejo agora com clareza, é a lã da ovelha
polindo palmo a palmo esses alqueires.
Pois então me diga o que fazer com todo esse barro preso nas botas,
as farpas todas desses mil arames, as carpas todas no azulado lago?
E quanto aos vultos que se escondem nas mangueiras do pomar,
assombrações que criamos nos idos de era uma vez?
O pensamento submerso no sereno reticente, bambeio as pernas,
ferido. Ancinho gasto de recolher os escombros dos umbrais. É certo
que em algum lugar a primavera aflora solta e desavergonhada. Talvez
nós dois numa estação de águas, lívidos de cera e ávidos de ser no
meio daquilo tudo que nos aconteceria. Evoca, da tua parte, esse
tempo de contornos indecisos, sem termo e grávido da gente. Guarda
no recato do decote a lembrança do viver que não tivemos. Essa foto
aqui no colo é reles bi-dimensão no véu da tarde esquecível. Não,
não quero nunca o remorso pelo nada que ouviste, no que faltou te
dizer. Ainda mais a essa altura, reféns amorfos que somos de um
passado que não passa. Aguça o senso do sentir, e basta.
Persevero na imperícia, desembestado em mazelas, sem freios de praga
em praga. Montado nesse alazão que a nada vai me levar, além dos
parcos domínios de me saber e de te adivinhar. Resiste o nó de você
no areião dos exílios. Que carícia na penugem das espáduas, cá
dentro o vento te esculpe no mole mármore das nuvens. Marisas aos
montes entram pelos tímpanos e reverberam nas entranhas. Eis agora a
mesa posta com os frutos dessas paragens, que nascem e jazem
escondidos nos cantos da tua boca. Deita-te sobre a música, deixa-te
sonhar também.
Essa linha em branco aí em cima é a que falta ser escrita no
evangelho de nós dois. Atira a primeira sílaba, espero que seja
"sim", começa que eu acompanho.