
31/05/2008
Ano 11 -
Número 583

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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Marcelo
Sguassábia
RELATO DE PRISCAS ERAS
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A José Saramago, pela inspiração
Por um decreto natural, sem prévio aviso, abriu-se uma fenda de fora a
fora do mundo, que engoliu aquele tempo e aquelas coisas do jeito que
eram para continuarem indefinidamente sendo daquela forma. Das duas
margens do grande racho foram tragados homens, mulheres e crianças,
abajures, carros, telefones, estantes de livros e mesas de variados
feitios e estilos. Essas coisas e seres, eleitas ao acaso pelo
capricho do vale que se abria, permaneceram imunes ao estrago e à
velhice. O tempo deixou de exercer sua ação sobre eles e instaurou-se
o caos, embora seja sabido que chegou a existir uma constituição, um
hino e até uma bandeira da pátria atemporal - ainda que ninguém tenha
efetivamente testemunhado o hasteamento da mesma.
Multiplicavam-se os humanos entre as dois blocos rochosos, por não
terem muito o que fazer exceto procriar e observar a fenda abrir-se
mais e mais, tanto em largura quanto em profundidade. E os bebês uma
vez nascidos perpetuavam-se bebês, com a idade de um dia, já que o
passar das semanas, meses e anos havia se interrompido. Assim, os
copuladores que ali estavam não mudavam de feição nem enrugavam, não
perdiam cabelos nem a virilidade, se entretinham somente em mais e
mais copular e cuidar dos eternos bebezinhos.
Além dos limites da fenda mágica, a vida corria e as gerações se
sucediam normalmente, com a passagem do tempo seguindo seu curso
inalterado. Não demorou para que o estranho Grand Canyon virasse
atração turística, com hordas de visitantes acompanhados de seus guias
a espreitarem de binóculos e lunetas os eternamente jovens que
acenavam lá de baixo, tendo em seus colos três, quatro ou mais bebês
de um dia.
Tal quadro era a glória para as mulheres de natureza promíscua, o
alívio para aqueles que contraíram dívidas antes de serem tragados e o
refúgio perfeito para os procurados pela polícia. Mas havia os
alcoólatras que lá de baixo gritavam desesperadamente por uma garrafa
de bebida, os fumantes que clamavam por uma bituca que fosse de
cigarro, os saudosos aflitos por tornarem às suas casas e afazeres.
Organismos internacionais e ONGs envidavam todos os esforços para
manter a situação no fosso dantesco sob controle, despejando
diariamente no sulco basculantes de comida, galões de água, remédios e
carregamentos colossais de leite em pó para os bebês de um dia, que se
aglomeravam e formavam em poucos meses uma população centenas de vezes
maior que a dos seus genitores.
Até que a fenda deixou de alastrar-se, iniciando um inédito movimento
geológico de contração, que, inversamente ao fenômeno inicial, ia
expelindo os humanos de volta à terra firme. Não é difícil supor que
muitos foram os bebês de um dia e os adultos procriadores esmagados
pelo efeito morsa, formando um mar de sangue e vísceras em torno
daqueles que a custo se debatiam para alcançar a superfície e
sobreviver.
Por serem em muito maior número, foi no grupo dos bebês de um dia que
se computou a quase totalidade dos sobreviventes. E uma vez fora do
fosso passaram a sofrer os efeitos normais do tempo e se tornaram
adultos, habitando as cidades, os países e os continentes da forma
como os conhecemos hoje. Por ser verdade, eu, escrivão autorizado,
firmo o presente relato como documento fidedigno para estudos futuros.
(31 de maio/2008)
CooJornal no 583
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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