
07/06/2008
Ano 11 -
Número 584

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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Marcelo
Sguassábia
HÓSPEDE À REVELIA
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Como se guarda uma relíquia de família:
é dessa forma que forçosamente te hospedo, profana no sacrário dos
sacrários. Não te dei nome nem finalidade, não te vi na Globo nem ali
na esquina, nem famosa nem desconhecida tampouco alguém dirá que és.
Também, para ser sincero, não sei nem de lourice nem morenidade que
doure ou alveje tua pele, nem de cabelos lisos ou cacheados, nem de
palavra tua que tenha ficado, ressoando, em meus ouvidos. Te conservo
em silhueta indefinida, até que venha a hecatombe que dizime a raça
humana, e tudo indica que não tarda esse momento. Marmórea e absoluta
nunca te apresentaste. Não, não é materialmente organizada que fazes
parte de meus móveis e utensílios, que surges pelos quadros nas
paredes e impregnas com teu cheiro até os vapores das panelas. Existes
enquanto ser que não há de ser, e fora da abstração jamais terás
sobrevida, até porque perderias fatalmente teu encanto. És o ingresso
para a ópera de encenação incerta e final arrebatador, sabes disso e
tiras partido dessa opacidade para manter-me em labirinto,
venerando-te sem nada que justifique a adoração. Estavas na Pedra de
Roseta e estarás entre os eleitos no juízo final, permaneceste fóssil
na noite paleozóica e talvez ganhem teu útero as ogivas nucleares. De
tua boca saem o sânscrito e a gíria dos internautas, numa babel que
nada diz e a nada leva. Estudaste em colégio interno e queimaste
sutiãs, sei que fizeste amor com quem quer que te olhasse
demoradamente. E é dona das atenções no baile que te vejo agora, manipuladora e egocêntrica, consciente dos teus dotes e tirana,
atemporal Cleópatra de caprichos tantos. Trato-te no feminino mas
escapaste para aquém ou além do gênero, pois podes muito bem ser duna
ou vulcão, montanha ou penhasco, primavera ou verão, como melhor te
aprouver. Há os que te chamam musa, há os que te chamam deusa, e assim
vais roubando o sono com tua indefinição. Pois seja como quiseres. Só
te peço que me alivies um pouco o peso de te levar.
(07 de junho/2008)
CooJornal no 584
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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