
14/06/2008
Ano 11 -
Número 585

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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Marcelo
Sguassábia
A ÚLTIMA COLUNA SOCIAL
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Sábado, 31 de Maio. As portas do
magnífico salão nobre do Nhambiqüira Social Club abriram-se para
acolher a nata da society nhambiqüirense, ali reunida para um momento
sublime: a apresentação das debutantes 2008.
Tal qual família de elegantes garças, trajando branco as meninas em
flor se empoleiravam no palco, a ostentar uma inocência que em nada
condizia com a fama coletiva de experientes biscates, apesar da pouca
idade. Incluindo a gorda e feiosinha Tércia, filha do meio do Jão da
Noca.
Das sócias do clube nesta faixa etária, só não quis debutar a Fátima
Djanira Fontes. Esta sim, inocentinha de verdade. Confessou em reserva
a uma vizinha que o namorado, após muita insistência, conseguiu que
ela pousasse a mão entre suas pernas. Fátima relatou então sentir uma
certa calosidade na região acariciada, a que ela atribuiu tratar-se de
um osso, ou massa tumoral de consistência firme e em avançado estágio
de crescimento. Assustada com o achado, ainda que a apalpadela se
desse por cima da calça, recomendou ao namorado que procurasse auxílio
médico, para investigar a anomalia na região do pipi. Vejam vocês...
Mas, voltando ao nosso baile. Após a entrada triunfal com os
papaizinhos, as meninotas foram agraciadas pela patronesse Laurinda
Chaves com o edificante livrinho “Virgem, por que não?”. Marido da
patronesse, o coronel da reserva Igor Strovsky Chaves também achou por
bem presentear as debutantes com modernos Ipods, pré-carregados com
arquivos MP3 do Hino à Bandeira e de uma seleção de modinhas do grande
Antonio Carlos Gomes. Em elegantes trajes, o virtuoso casal
contrastava com as fotos que outro dia encontrei deles num site de
swing, nus em pêlo e empunhando chicotinhos.
Às sedas, tafetás, tules e cetins da ocasião se somavam elementos
ainda mais diáfanos, para não dizer invisíveis, porém de outra
natureza e de efeito bem menos sutil entre os presentes. Como os gases
da Sra. Odila Trojan, que mesmo em ocasiões solenes dão o ar da sua
graça de forma impositiva e personalíssima. O odor nauseante virou
objeto de discussão nas mesas ao redor da flatulenta matrona, com os
convivas tentando adivinhar que estranha composição de carboidratos,
gorduras e proteínas teria formado tão explosiva bomba de metano.
Uma explicação plausível seria a péssima qualidade dos salgadinhos ali
servidos. À falta de um buffet na cidade, os mesmos foram preparados
no trailler de hot-dogs “Baitakão”, e se resumiam a uns engordurados
croquetes de batata e salsicha, sanduichinhos ressecados de patê de
presuntada, fios de ovos gorados e uma sórdida torta de pupunha e
ervilha em lata.
Abrandando a pútrida química emanada da Sra. Odila, vez por outra se
sentiam os perfumes almiscarados das meninas, suas mamães, titias e
amigas, misturados aos vapores do uísque 12 anos que generosamente
circulava nas rodinhas dos marmanjos.
Mas onde há álcool, há imprudência e desastre. E desastre houve, ainda
que não causado pelo uísque dos homens, mas sim pelo inocente ponche
de sidra vagabunda e peras servido às mulheres. Sem que se atinasse o
porquê, e ali mesmo ao redor da baciada de espumante, a cunhada de
dona Silvaninha da quitanda agarrou-se às unhadas e puxões de cabelo à
professora Anabel, tratando-a, em altos brados, por “dadeira cadeiruda”
e relembrando o que há décadas é voz corrente em toda esquina – o seu
intermunicipal furor uterino, que não encontrando vazão suficiente em
Nhambiqüira, vem sendo aplacado com garanhões das redondezas.
Com as doze badaladas vieram as danças das debutantes com seus pais e
em seguida com o famoso Flávio Júnior, um quase clone do quase
homônimo ídolo e que há anos quase faz sucesso com seu violão de doze
cordas no Muquifo da Filó, inferninho quase centenário estabelecido no
vizinho município de Seixas.
São três e meia da manhã, e estou fechando a edição desse imparcial
bissemanário. Por volta das cinco e quinze, quando os exemplares
chegarem às portas dos nossos respeitados assinantes, se Deus quiser
estarei bem longe daqui. Fora do alcance dos jagunços que certamente
serão pagos para dar cabo deste ex-colunista social.
(14 de junho/2008)
CooJornal no 585
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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