
21/06/2008
Ano 11 -
Número 586

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
|
Marcelo
Sguassábia
SCANNING LISPECTOR
|
|
Era a sangria desatada, e se esvaía em
tinto vinho a coitadinha sem consolo e sem abraços de ninguém. Restava
só resgatar o seqüestrado, o pouco que fosse possível. Vanessa ia
digitalizando o remoto do que houvera e não passara, velhas fotos de
família já sem família nenhuma. O scanner, em vai e vem, levava e
trazia a luz cegante, que em nada clareava a treva que insistia.
Clarice Lispectorava tudo até ontem à tarde, era abrir uma página sua
ao léu e pronto, paraisava-se paralisando-se. Mais um gole, talagado.
Grande vinho. Essa escritora e sua escritura é o que coça,
incomodando. É o que arremessa cálculos, conclusões e latitudes ao
abismo irremediável, sem negociação que dê trégua e alívio. E cavuca o
saco sem fundo quem se atreve a lê-la, e lendo-a se atreva a
escaneá-la, como as fotos em farelos sobre a mesa. Mais antigo é o
mistério de Clarice, a que ficou em tomos pelas prateleiras a quem
interessar possa e queira, mesmo conhecendo os riscos de se afogar no
que deixou.
Mas nada de conseguir voltar atrás – era a sangria, que assim sendo
prosseguia. Abusada. Clarice ou ela? As duas, no abuso de libertar-se
pela fala inestancável, o verbo mudo do livro. O pretérito imperfeito
na imperfeição dos retratos: avó ensaboando, torcendo, criando a
escoliose no tanque. Mãe ralando queijo, lavando louça, os muitos
pequenos à volta. E ela escaneando agora os restos disso. Da vida nada
se leva, do dissabor se leva tudo – a herança inteira, legada em
cartório com firma reconhecida. O sem calor, cheiro ou valia.
O mundo vegeta, em moribunda indiferença a ela. Ao telefone não se dê
ouvidos, à TV ligada não se dê atenção, ao inodoro e ao insípido dos
dias, que nessa toada dão-se adeus uns aos outros, não se dê valor
algum. Reze-se, pois. Novene-se, peça-se ao Supremo.
O scanner pára. Queimou a luz. Fiquem os mortos com os mortos, hora de
Vanessa deitar-se. Não sem antes uma boa colherada do nunca
contra-indicado lenitivo, que os cartazes insistentes apregoam: “para
o peito cheio de aflições e conflitos, Lispectorante Clarice”. Ainda
que não resolva, só alivie os sintomas.
(21 de junho/2008)
CooJornal no 586
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
Direitos Reservados
|
|