
05/07/2008
Ano 11 -
Número 588

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
|
Marcelo
Sguassábia
ENFIM SEU
|
|

O tempo, esse escasso recurso não
renovável, abriu um precedente em sua pressa e escorreu naquele dia
lentamente entre seus dedos. E que delícia esse vagar liquefeito, que
deslumbre nesse poderio. Viu que ele, o sisudo regente dos ponteiros,
era melado e viscoso, descobriu nele a saliva doce das virgens que
deixara de beijar por achar que a elas devia compostura em seu cheiro
de recato e em suas roupas de muitos botões. Qual o quê.
O tempo tomou forma de nuvens, tantas e de sortidos contornos, aquelas
que deixou de apreciar por justamente não ter tempo. Foi quando
decidiu encaixotá-lo, em forte compartimento – com cadeado, segredo e
tudo, a fim de que doravante fosse o tempo estacionado, sem razão de
ir-se esgotando. E que não prosseguisse em slow-motion, e sim pausado
ficasse, suspenso pelo cansaço de não passar mais e gritasse revolto,
de dentro da caixa, para voltar a correr. Mas agora ele era o amo do
ingrato ir-se das horas, manteria-o criança e seu refém até segunda
ordem, e estaria em suas mãos deixar ou não o tempo tornar a marcar o
tempo, criar as rugas, delimitar começos e finitudes dos amores dos
homens, das estações do ano, dos trabalhos enfadonhos e das esperas
nas filas. O tempo seqüestrado guardaria forçosamente o frescor da
pétala em viço pleno, a tez de pêssego das moças não mais desembocaria
na aridez das velhas. Era dele, enfim, a caixa do bem e do mal, o
termo de toda vã filosofia, o relógio que ao adiantar-se ou
atrasar-se, da forma que bem entendesse, iria do nascimento ao velório
e do velório ao nascimento. Divertia-se, ria o riso destravado ao
viver o que não fora. Agora era brincar de vice-versa, no cerne do
inesgotar-se.
(05 de julho/2008)
CooJornal no 588
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
Direitos Reservados
|
|