
26/07/2008
Ano 11 - Número 591

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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Marcelo
Sguassábia
BÁRBARA TARDIA
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Assim seja. Sob a névoa da alfazema e a
providencial intercessão dos santos, amém a tudo e a todos - aflições,
alívios, destemperos, calmarias. Haveria mesmo de chegar a hora e a
idade em que o melhor era aceitar tudo. Desse jeito tinha de ser um
dia.
Fechou a porta do oratório, caminhou até a sala e tirou da estante um
livro que nada tinha a ver com o seu estado. Acendeu a lareira, abriu
um vinho, sentou-se. O coração quieto, o ouvido atento ao crepitar da
lenha, nunca esteve tão disposto a colocar alinhadinhos cada um dos
pensamentos. Gostava do domínio linear das coisas, de dar ordenamento
e organização a tudo. Tentou ler. Via as palavras sem captar direito
seu sentido. Poderia ligar o aparelho e ouvir alguma música, mas não
se atrevia a pôr de pé seu ser plasmado na poltrona. Era a isso que se
reduzia, uma vida fossilizada naquele ermo pastoril. O vento
chicoteando a vidraça, as xícaras tremulando, o pó se acumulando sobre
a farta biblioteca que seu pai deixou. Do Pequeno Príncipe a Sófocles.
O cachorro se achega e se amontoa aos seus pés, aproveitando uma
beirinha de manta. O vinho ia aos poucos laceando o raciocínio, dando
corda aos devaneios. Viu o seu reflexo, distorcido, na prataria de
família. Parecia uma figura de Modigliani. Acima da lareira jazia o
retrato do avô com seu olhar de Torquemada, a ditar cânones e a citar
genealogias.
Bárbara devia estar a caminho, disse que vinha sem falta. No oco
daquele silêncio, escutaria de longe o carro quando estivesse
chegando. Era uma doida, mesmo. Ria e falava alto pelos corredores
longos e ecoantes do hotel onde tantas vezes se encontraram. Gostava
dos escândalos, não tinha meias medidas, tudo precisava ser muito,
intensamente e quando bem entendesse. Sempre foi assim, aprendeu a
aceitá-la e a desejá-la sobretudo por aqueles seus defeitos. Ele
próprio talvez fosse o maior defeito dela. Daqui a pouco o cachorro
sairia dos seus pés e correria até a porteira, fazendo festa para a
velha conhecida. Ela viria fresca, como se tivesse acabado de sair do
banho. Mesmo depois das seis horas de viagem. Mesmo com as rugas
vincando e o estrógeno já escasso. Mesmo com o bom senso dos parentes
e amigos dizendo que não, que era loucura.
Segunda taça, já pela metade. Roía as unhas, Bárbara não chegava.
Puxou o cordão, deixou semi-aberta a persiana. E pelas frestas iam
passando novelos de muitas meadas, a se perderem em labirintos de
hera. Sentia o ranger de uma roldana enferrujada em sua cabeça, que ia
tirando devagar as querenças e desafetos do seu poço. Matar a sede não
matava, mas revolvia a água parada - o que já era alguma coisa. Que
pensamentos alinhadinhos, que nada. Ao olhar para as estrelas, deu um
giro e perdeu o eixo. Só não caiu pois se agarrou com toda força num
poema de Pessoa. Olhou o relógio: dez para as oito nos algarismos
romanos dos cebolões, dos carrilhões dos mosteiros, dos cucos das tias
velhas, dos digitais made in China. É isso, pensava ele, a única
maneira da passagem do tempo ser de alguma forma bela: através dos
lindos mostradores de relógio.
Bárbara sofreu, sim. Teve que se virar como pôde depois da morte do
marido. Foi de repente, um assalto no semáforo. Nunca desconfiou de
nada, o coitado. Acreditava que as saídas dela eram mesmo a trabalho.
Crédulo demais. Imagina se ela, bibliotecária de órgão público,
precisava viajar tanto. Nas tardes vazias do ofício foi que cismou de
escrever. E escrevia escorreitamente, deitava no papel o que vinha à
cabeça, sem caprichos de coesão, estilo ou nexo. Prosa desordenada,
sempre em primeira pessoa. Às vezes mostrava a ele o que fazia. Não
gostava nem desgostava. Sorria, de vez em quando elogiava, logo mudava
de assunto, sugeria a volta pra cama.
Ele nunca quis escrever. Passava muito bem sem nenhuma idéia em mente.
Durante alguns anos teve um diário. Cadernos que mantinha escondidos,
depois relidos e prudentemente queimados. Pensava naqueles sujeitos
todos, escritores que às vezes via em entrevistas na televisão,
falando de inspiração e compulsão pela escrita, em anotar idéias nos
guardanapos de restaurante, em ter insights fazendo a barba e outros
clichês.
Elcius latiu e abanou o rabo. Era Bárbara que chegava, junto com
Veridiana. Da cozinha, um cheiro bom de bolinho de chuva. Foram
entrando sem bater à porta, Elcius se enfiando entre suas pernas. As
botas de salto altíssimo batendo nos lajotões. A Bárbara de sempre,
imperativa e dominadora, dando ordens aos criados. Há muito não via Veridiana. Uns quatro anos mais nova que eles, observava com atenção
cada detalhe da sala, pondo e tirando compulsivamente os óculos ovais.
Enfim cedia aos insistentes convites de conhecer a estância.
Passava de meia-noite quando se recolheram. No leito, virando de um
lado para o outro, a roldana enferrujada não parava de ranger. O
barulho acordou as duas, no quarto ao lado. Não, não estava
acontecendo. Bárbara e Veridiana, diáfanas e seminuas à sua frente. E
não era sonho, tampouco efeito do vinho. Na manhã seguinte, contritos,
foram os três ao oratório.
(26 de julho/2008)
CooJornal no 591
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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