
29/08/2008
Ano 12 - Número 596

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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| Marcelo
Sguassábia
BREVÍSSIMAS OLÍMPICAS
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Notas do nosso
correspondente enviado a Pequim
Meu leal e benevolente leitor, posso até vê-lo daqui, do outro lado do
mundo, à frente da sua TV adquirida em suaves parcelas nas Casas
Bahia, acompanhando os certames de Pequim e detonando sua porção de
pipoca de microondas com a voracidade de um leão a destroçar o alce.
Adivinho também que o amigo deva estar no momento com ambas as mãos
ocupadas, uma pilotando o controle remoto e outra segurando o copão de
coca ou cerveja, o que me faz supor que se encontre com a cara enfiada
nos piruás que ficaram lá no fundinho da tigela, tal qual ruminante no
cocho.
Pois não seja eu a perturbar o seu televisivo espírito olímpico com
minhas dispensáveis notas, tão sem encanto e interesse. Contudo, aí
vão algumas delas, que sou forçado a parir por estar sendo (mal) pago
para isso.
No cálculo em altura, deu a lógica: dona Oberici Guedes da Costa,
angolana naturalizada portuguesa, que o Guiness Book of Records aponta
como o ser humano do sexo feminino com maior quantidade de sardas por
centímetro de pele, ficou com a medalha de ouro em conta de dividir
com três casas decimais depois da vírgula – a sua especialidade,
juntamente com a recitação de cor e salteada dos números primos até
859.663.002.984.351.935. Tal feito deixou boquiaberta toda a platéia
do Ninho de Pássaro, naquela altura do campeonato já totalmente
salpicado por cacas de pombas de variadas nacionalidades.
Grande expectativa marcava a final dos bocejos de praia, masculino e
feminino. O público que lotava as arquibancadas ia ao delírio frente
ao hipopotâmico esgarçar de mandíbulas dos moços e moças de Gana, que
em espetaculares jogadas ensaiadas deixava os adversários
desconcertados. Causou consternação geral o momento em que os
medalhistas de prata deixaram a quadra de bocejos aos soluços,
enxugando as lágrimas com a bandeira de seu país (que a bem da verdade
não me lembro exatamente qual era).
Seria este repórter um relapso se deixasse de registrar a zebra por
excelência destes jogos, no revezamento 4 x 400 sem barreiras. Como é
do conhecimento de todos, essa prova consiste na participação de 400
atletas a percorrerem uma distância de 4 metros cada um, passando o
bastão para o próximo, que corre seus 4 metros e assim sucessivamente.
Os fundistas do Cazaquistão, favoritos pelo exímio preparo físico,
foram vencidos pela equipe da Guiné Bissau, que no entanto teve que
devolver as medalhas duas horas depois por dopping. Resultado: a China
sagrou-se vencedora, sendo esta a única láurea conquistada pelo país
anfitrião.
Last but not least, o nada sincronizado foi a modalidade de maior
audiência do evento, calculada na fase eliminatória em 6,5 bilhões de
pessoas ao redor do globo. Tivemos uma final arrebatadora, onde, em
impecável sincronismo, 87 atletas nada faziam durante as cinco horas e
trinta e cinco minutos de duração da prova. Um acontecimento que
ficará gravado para sempre nos anais da história e que honrou
sobejamente o ideal olímpico do Barão de Coubertin. Agora, é aguardar
Londres 2012, onde juntos estaremos mais uma vez – se a sua paciência
suportar e se de novo cometerem a imprudência de me enviar para a
cobertura.
(29 de agosto/2008)
CooJornal no 596
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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