
26/09/2008
Ano 12 - Número 600

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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| Marcelo
Sguassábia
AA - ANÔNIMOS ANÔNIMOS
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- Central de atendimento do AA –
Anônimos Anônimos, boa tarde. Com quem eu falo?
- Pergunta besta. É lógico que não vou dizer.
- Ah, é um dos nossos. Qual o problema, alguma recaída?
- Claro. Por que acha que estou ligando? Pra ficar falando de mim, que
eu sou o máximo, que eu faço e aconteço? Se telefonasse pra isso seria
um indício de cura, e conseqüentemente não precisaria ligar para o
plantão. Na verdade, não é bem uma recaída. É uma reclamação.
- Ok, senhor. Pode falar.
- Vou falar, mas o mínimo necessário. O suficiente pra que você me
entenda e aconselhe. Na última reunião do AA vocês vieram com uma
conversa que eu tinha de passar por uma prova de fogo: tirar minha
carteira de identidade. Bom, num esforço sobre-humano, saí pra
providenciar. Aí o sujeito lá do Poupatempo apareceu com um formulário
que era um verdadeiro inquérito pra cima de mim. Queria saber meu
nome, endereço, local de nascimento, disse que precisava tirar foto...
imagina o absurdo, tirar fotografia! Depois de 54 anos incógnito.
- Mas o senhor tem 54 anos e até hoje não tem identidade?
- Meu anonimatismo é severo, grau 5 – quase 6, minha filha.
- Sim... prossiga, estou anotando.
- Anotando? Anotando o quê? Exijo que rasgue imediatamente seus
apontamentos. Se alguém lê pode identificar o problema relatado com a
minha pessoa, e aí eu me torno conhecido. Respeite meu direito ao
anonimato. Não se esqueça que essa regra consta no código de ética dos
Anônimos Anônimos.
- De fato, senhor. Desculpe a indiscrição.
- É bom que me respeite mesmo. Meu avô foi um Sicrano inveterado, meu
pai foi um Beltrano de marca maior e eu sou um Fulano com F maiúsculo.
Três gerações de gente que graças a Deus passou despercebida por este
mundo de pessoas que só querem aparecer. Uma célebre dinastia de
desconhecidos, da qual nunca ninguém há de ouvir falar.
- Tudo bem, Sr. Fulano. Pode continuar contando o seu problema.
- Alto lá. Um anônimo que se preza não conta coisa nenhuma a quem quer
que seja, ainda que a senhorita seja também uma anônima para mim. Sabe
como é, as paredes têm ouvidos, os telefones têm grampos e há poucos
lugares no planeta não esquadrinhados por uma câmera de segurança.
Talvez estejamos ambos, no momento, sendo vigiados por um terceiro.
Quem sabe um quarto, quiçá um quinto... só de falar já me apavoro.
- Mas senhor, é preciso convir que anonimato tem limite.
- Limite? Só se for pra você. O anonimato é a liberdade extrema, é
justamente a ausência de limite. Ninguém me cobra nada – nem deveres,
nem favores, nem prazos, nem satisfação de coisa nenhuma.
- Mas o senhor não tem amigos, não trabalha?
- Trabalho numa Sociedade Anônima. Não tenho a menor idéia de quais
são os meus sócios e tudo vai muito bem assim, do jeito que está. Até
pouco tempo atrás só aparecia lá na empresa pra assinar o pró-labore.
Ia disfarçado de mulher, mas desconfiei que estavam me reconhecendo.
Agora arrumei um testa-de-ferro que cuida de tudo, se passando por mim
para que eu continue passando em brancas nuvens. Igualzinho o cara que
assina este texto. Pra quem não sabe, ele não existe. É pseudônimo.
(26 de setembro/2008)
CooJornal no 600
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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