
03/10/2008
Ano 12 - Número 601

ARQUIVO
MARCELO SGUASSÁBIA
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| Marcelo
Sguassábia
NÃO SE PERCA DE MIM, NÃO DESAPAREÇA
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Naqueles idos, diziam que a cerveja
subia mais rápido se tomada no gargalo. Coisa estranha, de que jeito
se a cerveja era a mesma, no copo ou na garrafa? Gargalo não era vara
de condão. Via o baile lá de cima, no último lance da arquibancada do
ginásio. Preferia assistir, só ia pro meio da bagunça quando Momo
fazia o cerco, brandia o cetro e exigia rendição.
Te quero às pressas, mas com luz forte e quente iluminando o
espetáculo. Ver é bom, a dança a dois e às claras é bem melhor que o
baile e suas máscaras, suas mesas reservadas, seus pais zelosos com as
filhas em flor. Nada de joguinhos de sedução mal resolvidos, a vida é
curta pra ficar dando a entender. Insinuação tem hora, e a hora é de
saciedade. Reparar e curtir os defeitinhos do corpo revelados de
manso, isso sim pode ser, mulher gosta dessas coisas. Mas só se for
depois do crescei e multiplicai-vos. Saiamos do clube assim, jogando a
roupa fora, afoitos para a luta corporal. Não temos retoque, somos
tais e quais e isso é benção, a única maquiagem é um discreto contorno
de lápis deixando seus olhos mais lindos pro mundo. Como se
precisasse.
E tudo seria se você houvesse, mas você não havia. Não havia você nem
baile a dois, só aquela horda de suados se acotovelando lá embaixo.
Tão longe do ilusório onde você mandava e desmandava, tomada de
empréstimo dos seres imaginários. Eu não só te dava forma mas compunha
teu futuro. Acontecia de te fazer mãe de um monte de crianças minhas,
como se a vida conjugal fosse o destino inescapável, sepultando a
carne na rotina dos carnês. Casal de meia idade na matinê da
província, levando os meninos de pirata e colombina, você trocando
receita com a comadre Rose. Que tacanho.
O bloco dos monges sacanas, cordão berrando as marchinhas, em punho os
lenços de lança. Você entra no banheiro das damas com uma amiga, quem
sabe a futura comadre Rose. Então me enxerguei compadre do marido
dela, que nem tenho idéia de quem poderá ser. Esgano com a serpentina
essa possibilidade. Mais um trago de cerveja no gargalo.
Pode ser que você volte do banheiro, a maquiagem retocada e resolvida
a me sufocar com um beijo e me oxigenar de vida, dando corda a esse
improvável filme B de nós dois na minha cabeça. Como também pode ser
que no caminho aqui pra arquibancada já tenha flertado com outro, e
nesse outro projetado seus melhores e próximos anos, me deixando aqui
até que surja uma odalisca que ninguém quis, implorando o calor que
era pra você.
Há de sentar-se ao meu lado, o tule da fantasia roçando meu braço
esquerdo. E perguntará por que eu tomo cerveja no gargalo, se existe
copo pra isso.
Um frevo emendou na marchinha e me trouxe de volta, um pouco mais
convicto de que tem mesmo alguém na supervisão lá em cima, ainda que
manipulando a esmo as cordas dos marionetes, encontrando e
desencontrando gente do jeito que der na telha.
Não digo que seja um deus, mas alguém acima da raça dos suados que se
acotovelam. E que a uma hora dessas pode muito bem estar tomando
cerveja no gargalo e dando nós nos fios que nos governam.
(03 de outubro/2008)
CooJornal no 601
Marcelo Pirajá Sguassábia
publicitário e escritor
Campinas - SP
msguassabia@yahoo.com.br
www.consoantesreticentes.blogspot.com
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