15/04/2018
Ano 21 - Número 1.073


 

Seja um
"Amigo da Cultura"


 

ARQUIVO
MARCO ANTONIO


 

Venha nos
visitar no Facebook

 




Follow RevistaRIOTOTAL on Twitter

Marcos Antonio de Azevedo


 

Rio vai lançar revolucionário projeto “Minha calçada, minha vida”
 

Marcos Antonio de Azevedo, colunista - CooJornal



A prefeitura resolveu catalogar os moradores de rua da cidade do Rio de Janeiro: 15 mil. Os jornais surpresos apuram de onde veio tanta gente. Os telejornais alertam para evitar sair à rua para não esbarrar com essa gente suja e mal vestida. Já os internautas trocam mensagens alertando para esconder os celulares da plebe perigosa.

Deu-se então uma reação envolvendo parceria inédita entre Governo do Estado, Prefeitura e Governo Federal. As três forças irmanadas decidiram intervir de forma coesa e criar um projeto diferenciado para sanar o problema de moradia para os desassistidos da cidade.

A tríade do poder bolou um plano bom, barato e rápido, levando em conta que os moradores de rua são nômades e estão sempre correndo de um lado para o outro, acossados pela guarda municipal, gangues, justiceiros, guarda-presente etc. O projeto é denominado “minha calçada, minha vida”. O sem-teto chega, arria as tralhas, e a calçada é o seu latifúndio. Pode dormir, tomar cachacinha, fumar crak ou nada fazer. O domicílio é a rua.

Assim o Rio, cidade-feliz, será o maior abrigo oficial ao ar livre do mundo. Isto é cidadania patriótica, bradaram alguns defensores das minorias. E é qualidade de vida, berraram outros partidários da vida ao ar livre, sob o céu e as estrelas. A Secretaria de Turismo já tem projeto de visitação a mendigos e moradores em geral. A ideia é mostrar que a sujeira e a pobreza existem. O plano-piloto acontecerá no Largo do Machado. As centenas de turistas que se aglomeram para pegar transporte até o bondinho, que leva ao Corcovado, serão orientadas a registrar com selfies as dezenas de moradores que se revezam sob a marquise da drogaria Pacheco, no Largo. Antes do Redentor os turistas poderão ver a miséria ao vivo. Sem fotoshope. A Secretaria já criou até um slogan: “a miséria não é fake”.

O projeto quer atingir todos os bairros democraticamente. Além de Copacabana, o preferido dos mendigos, a ação se estenderá ao Méier, Campo Grande, Bonsucesso, Centro, Praça Sans Pena, Madureira e Ipanema. Não importa o local. Chegou, arriou as tralhas, é morador. E aí, leitor, você pode perguntar: e o banheiro? Ora, vai ao botequim, vai no poste. Já tem moradia e ainda quer banheiro? E se chover? Ora, aproveita para tomar banho de chuva.

A prefeitura não precisa mais gastar com água, luz, roupas, alimentação, segurança, médicos e enfermeiros nos abrigos. O ex-governador Sérgio, aquele da Copa de 2014, que queria sair demolindo escolas, adorou a ideia e queria dar uma conferida. Pena. Ele está impedido de sair da casa de detenção onde cumpre 100 anos de prisão. O ex-presidente do COB, Artur, aquele que discursou na abertura da Olimpíada, dizem, elogiou o projeto, mas pode não ver ao vivo e a cores, porque também está preso.

O ex-secretário de saúde, também Sérgio, numa cela coletiva em presídio carioca elogiou este estilo de vida. Destacou os benefícios dos banhos de sol e de chuva para a saúde, o vento batendo no rosto, o tempo livre com lazer de 24 horas. E os moradores de rua ainda podem se exercitar correndo dos porretes e balas patrocinados pelas gangues. Os cariocas Já estão chamando o projeto de “O Legado”.

Ah, mas é bom saber, a prefeitura vai baixar portaria proibindo os novos proprietários de parar nas calçadas de bancos, shoppings, academias, prédios, lojas, supermercados, lanchonetes e restaurantes, centros culturais, Igrejas, delegacias, botequins, escolas ...

 



Comentários podem ser escritos diretamente ao autor no email mrazevedo95@gmail.com



Marco Antonio de Azevedo,
Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário
Rio de Janeiro, RJ



Direitos Reservados