
21/01/2006
Número - 460
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Marco
Antonio Azevedo
NATAL GENÉRICO |
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Para
cumprir minha obrigação natalina, corri para a livraria Dazibao pra
comprar um livro de presente. A famosa livraria é aquela ali mesmo do
Largo do Machado. Entrei distraído, preocupado com o livro que tinha que
escolher. Olhei pra frente e pros lados. Surpresa total. A livraria
tinha sumido.
Nas prateleiras em vez de Machado de Assis, Murilo Mendes ou Paulo
Coelho; sabonetes, preservativos, lâminas de barbear, chupetas,
desodorantes. Apavorado ainda insisti em achar Saramago, Augusto dos
Anjos ou até Sidney Sheldon. Nada, só shampoos, escovas-de-dentes,
álcool e todo o tipo de remédios genéricos. Um rapaz devidamente
uniformizado me perguntou com voz solene:
- O senhor já escolheu?
Voltei para a rua. Olhei para cima. O letreiro do estabelecimento tinha
o singelo nome de “Drogasmil”. Onde já se viu vender drogas nas barbas
de todo mundo e ninguém fazer nada. Cadê a polícia?
Decepcionado caminhei uns dez metros. Precisava comprar o livro. Mas,
achei outra farmácia, ou melhor drogaria Pacheco. Esta ocupava toda a
esquina do Largo do Machado. Resolvi desbravar a rua do Catete e
continuei a empreitada caminhando. Em frente ao Ponto Frio, outra
drogaria Pacheco e mais outra Max. E mais outra. Nada de livraria.
Na esquina da Benjamim Constant com rua da Glória outra Pacheco.
Incansável continuei. Na esquina da Candido Mendes, já na Glória, outra
de Nome BemStar. Nesta altura já tinha esquecido o livro e obcecado
percebi que estava procurando farmácias.
Alcancei a rua da Lapa, depois da esquina com a rua Taylor e mais uma.
Na rua Riachuelo andando na contra-mão garimpei mais outra, acho que
Cityfarma. Na esquina da rua Nossa Senhora de Fátima várias outras.
Passei em frente ao jornal O Dia e cheguei na esquina com a Frei Caneca,
ultrapassei O Globo, mais farmácias. Paranóico cheguei na Praça Onze em
frente ao Balança-Mas-não-Cai. Foram mais de dez.
O Rio está mudado pensei. Primeiro os grandes cinemas foram
desaparecendo, dando lugar as igrejas. Agora essa nova mania do carioca:
acabar com livrarias e se encher de remédios.
Imagina um cara chegar num destes bares da moda como o Belmonte ou o
Devassa e pedir ao garçom:
- Traz um chope na pressão e uma porção de aspirinas.
Ou até:
- Vê um chope na caldereta e pra tirar gosto um tylenol.
Tava imaginando o gosto de uma skol bem gelada acompanhada com uma
porção de pastilhas Valda. Quando de repente lembrei do livro de natal.
Voltei correndo para o Largo do Machado. Poderia comprá-lo, claro, na
Livraria Entrelivros. Parei em frente a dita, procurei, procurei. Nada.
Tinha virado uma sapataria.
Entrei na primeira farmácia que avistei e pedi um genérico forte para
dor de cabeça.
(21 de janeiro/2006)
CooJornal
no 460
MARCO ANTONIO DE AZEVEDO,
Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@ccard.com.br
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