
28/01/2006
Número - 461
Arquivo
- Natal genérico |
Marco
Antonio Azevedo
LEI
SECA NA PRAIA DO FLAMENGO |
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A gente aprende no cinema que só os americanos fazem descobertas
arqueológicas. É assim com o Indiana Jones, a Múmia, o Retorno da Múmia,
etc. Por isso estranhei quando em pleno domingo, dia primeiro de janeiro
de 2006, os arqueólogos da prefeitura, ou melhor, a Guarda Municipal
tenha detectado algo estranho enterrado, no sítio da Freguesia da Praia
do Flamengo.
A cidade do Rio de Janeiro amanhecia, sonolenta e de ressaca, por conta
do réveillon recente e ainda ganhava fôlego para encarar 2006. E eis
que, já de manhã, a guarda municipal trabalhando com afinco paulistano,
percebe um artefato soterrado nas areias da praia. Fico feliz e me sinto
até mais seguro, ao saber que existe mais uma força policial para nos
resguardar nesta cidade maravilhosa.
A praia por sua vez, ainda estava cheia de velas, flores, farofa, roupas
sem dono, latas de cerveja e refrigerantes vazias. Os garis trabalhavam
desanimados diante da montanha de lixo que se formava.
Os guardas municipais então abandonaram seus olhares desconfiados e os
clássicos cassetetes e munidos de pás e picaretas partiram para
desenterrar o achado histórico. Seria o sítio um antigo cemitério dos
índios tupinambás cheios de ossadas? Ou nestes tempos violentos, uma
tonelada de maconha, quilos de comprimidos de êxtase? Ou até fuzis AR 15
e granadas?
A escavação começa. Alguns ginastas matutinos, gente de pileque e
desocupados em geral, começam a se juntar curiosos. Depois de meia hora
de trabalho em grupo, sob um “um sol de rachar catedrais”, os dedicados
funcionários do município descobrem estupefatos o produto da escavação
histórica: no buraco estavam depositados centenas de cervejas, latas de
guaraná, coca-cola, fanta uva, guará vita, convenção, doly.
Os guardas e os curiosos perceberam de imediato, através da estatística
que saltava aos olhos, a preferência do carioca. Das milhares de bebidas
desenterradas, perto de 1980 eram latas de cerveja, e o resto se dividia
modestamente em 77 Cocas, 50 guaranás Antártica, meia dúzia de Convenção
etc. E notava-se logo o gosto democrático do carioca. O povo sem o menor
preconceito bebe cerveja de qualquer marca. E conforme foram sendo
resgatadas do buraco, formaram um tremenda mistura. Eram Antárticas,
Skols, Bhramas, Itaipavas, Boêmias...
Passado o espanto inicial, o material é apreendido pelas autoridades,
isto debaixo de uma chuva de protestos e palavrões por parte de uma
pequena multidão que se formou.
Em 2006 o carioca já pode andar pela Praia e pelo Aterro sabendo que tem
a zelosa guarda de olha na sua segurança.
Agora, no próximo final de semana, por conta da eficiência da Guarda
Municipal, certamente a lei seca estará imperando na Praia do Flamengo.
E só vai dar pra beber água de coco e mineral sem gás.
(28 de janeiro/2006)
CooJornal
no 461
MARCO ANTONIO DE AZEVEDO,
Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@ccard.com.br
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