Fui convidado para almoçar uma feijoada completíssima no Lamas.
Acompanhada de caipirinha, é claro. Todos falavam português no tradicional
restaurante e ninguém se espantava. Numa mesa, ao lado da nossa, alguém contou
uma piada de papagaio, em português. Todos rimos. Conclusão: fala-se português
no Brasil, há 500 anos. Desde que Cabral chegou a Porto Seguro e rezou a
primeira missa, lá na Bahia. Enquanto isso eu me indagava o seguinte: quando é
que foi que inventaram a feijoada, com direito a paio, carne-seca, lombinho,
couve, etc? Quem é que juntou a feijoada à caipirinha? Bem. O que importa é que ela estava ali, a língua portuguesa, viva, sendo falada enquanto se degustava aquela feijoada encantada.
Pagamos a conta. O garçom deu o tradicional boa tarde e saímos. Há quantos séculos o carioca cumprimenta seus conterrâneos desta forma: boa tarde. Como vai o prezado? Tudo bem? O carioca se cumprimenta o tempo todo. Será que a História considera isto digno de ser chamado de história. Isto é memória? Na saída, um garoto oferece o Jornal do Brasil, veículo de 106 anos. Era dia de jogo. Botafogo e Fluminense iriam jogar às cinco da tarde. Os dois clubes do tradicional futebol carioca estão aí pelos 100 anos de vida. Este clássico é chamado de vovô.
Acordei no dia seguinte com o amolador de facas, subindo a rua. Para atrair os fregueses, ele usa o rebolo como instrumento musical. Toca cirandas, canções de roda do cancioneiro popular, e outras de autores anônimos, que só existem porque estão na memória do brasileiro e são repetidas de geração a geração. Pensei no amolador de facas. Esta profissão existe desde quando o primeiro português chegou ao Brasil, na esquadra do já citado Cabral, e pegou sua espada, bem afiada, e cortou batatas, para juntar à couve e às cebolas e fazer uma excelente bacalhoada à moda. Aí está, tudo que é cozido à moda é pura memória.
Enquanto o amolador terminava a audição coletiva, resolvi comer um bolo de fubá. Tem sempre um cara que fica com uma carrocinha de doces parada em frente ao prédio. Vende cuscuz, cocada, quindim e maria-mole. Mas o que gosto mesmo é do bolo de fubá. Aí fiz uma pergunta pro vendedor que já me corroía há muito:
- É você que faz o bolo de fubá?
- É.
- Quem te ensinou? Quem te deu a receita? O teu avô?
- Que receita doutor. Que avô doutor. Fui crescendo e quando vi, já tava fazendo bolo de fubá pra vender. Acho que a receita existe desde que inventaram o fubá.
Saí pensando. Os tratores da modernidade derrubam tudo. Sim. Tudo o que é sólido pode desmanchar no ar a qualquer momento. Lembrei do Morro do Castelo, que virou brisa. O Morro que existia desde tempos do tataravô do Araribóia, foi solenemente posto abaixo por um prefeito, que só queria fazer o bem para a Cidade. Com certeza arejar a Av. Rio Branco. Um outro imitando este, derrubou o Palácio Monroe, nos anos 70, para ventilar melhor a bar Amarelinho, e não esquentar os chope dos fregueses, com certeza. O que ficou? A memória. Ou melhor, na memória do carioca os dois atentados contra a cidade. Bem. Mas a gente houve sempre o seguinte: a brasileiro não tem memória. Eu tenho uma teoria simples. Uma besteira quando começa a ser repetida não pára nunca mais.
Mas vamos ao caso. Neste mesmo dia precisei ir à Copacabana. Resolver alguma coisa ali no Posto Seis. No final da famosa praia tinha uns pescadores consertando as redes de pesca. As canoas estacionadas. É. Eles pescam ainda em canoas. Um deles, moreno queimadíssimo, forte, de estatura média, idade imprevisível, usava uma espécie de agulha, com que ia reconstruindo e rede. Há quantos anos se pesca com redes no Brasil? Quanto tempo se leva para aprender a remendar uma rede? O nome dele era Jorge. Transpirava saúde. Um cara desses nunca deve ter ido à médico, pensava. Ele começou a conversar uma conversa no mínimo curiosa com um outro pescador.
- Ô Valdemar lembra daquela adivinha?
- Qual Jorge?
- Aquela assim ó: "Você já viu mula-sem-cabeça, enterro de anão ou japonês viado?"
- Claro. Só que eu conheço diferente: "Você já viu cabeça de bacalhau, retrato de sogra na carteira ou saci de patinete"? E daí?
- É que eu me lembrei disso, pra lembrar de outra coisa.
- Não força Jorge. Tu fica o dia inteiro costurando rede, sem dar uma palavra. Quando começa a falar sai essa merda? Já bebeu quantas hoje?
- Qualé Valdemar? Fica frio. É que eu me lembrei do seguinte. Sabe quanto tempo eu não vejo um sapo de macumba. O tempo vai passando e gente pára de ver cada coisa. Aí vai esquecendo. A rapaziada de hoje, por exemplo, não deve nem saber o que é sapo, ainda mais de macumba. Só conhece sapo de novela. Sapo pós-moderno.
- É mesmo. O último que eu vi tava paradão numa encruzilhada. Era um Sábado. Juntou gente pra cacete pra ver o bicho mortão, era dos grandes, com a boca toda costurada, um tremendo sapão. Não sei se era sapo-boi ou sapo-martelo. Todo mundo lá, olhando no maior cagaço. Imagina se o teu nome, logo o teu nome, tivesse dentro da boca do batráquio?
- Pois é. Eu lembrei disso, na verdade pra me lembrar de outra coisa.
- Hoje tá foda. Porra Jorge, pára de palhaçada e diz logo o que tu quer.
- É que eu me lembrei que a última vez que eu vi um sapo de macumba, foi na Zona. É. Numa encruzilhada da Pinto de Azevedo. Perto do terreiro do samba do Estácio. Cê lembra?
- Claro que lembro.
- Da Zona ou do Sapo?
- ...........
É. Ali, ao lado direito, de quem desce a Av. presidente Vargas, existiu a maior zona de prostituição da cidade, do Estado, do país, da América latina e quiçá do universo. É assim que o carioca gosta de falar. Sempre hiperbólico. Exagerado. Faz parte da cultura, da memória. Se temos o Maracanã, o maior estádio do mundo. Tínhamos, também o maior puteiro do mundo. Muito democrático, diga-se de passagem. Era freqüentado por homens de todas as classes, cores e credos, todos eram bem vindos.
- Vamos ao mangue hoje?
- Foi ao mangue ontem?
Era assim que se referiam a ele. As meninas que trabalhavam no local eram chamadas de piranhas. Mais de mil piranhas, em turnos diferentes. Esta área do meretrício foi cantada em versos e trovas por artistas. O paulista Oswald de Andrade, por exemplo fez um belo, triste e pungente poema em homenagem ao logradouro, "O Santeiro do Mangue". Cravando para sempre na memória literária, os prazeres, alegrias e mazelas, que envolveram o Mangue. Bem. Sem querer acabei dizendo. Há memória. De várias formas. O brasileiro tem memória. Quem não tem é o noticiário. Não lembra nem do resultado do Fla x Flu de domingo passado. Alarmista e imediatista, nem lembra qual foi o café da manhã do prefeito, de ontem. Aliás foi um desses prefeitos que mandou esconder a frente da Zona com um monte de outdoors. Quem descia o viaduto da praça da Bandeira com destino à Candelária, não via a Zona e as moças desfilando. Só um monte de anúncios.
Mas vamos parar de enrolar e ir ao ponto. Ao tratores da modernidade, obedecendo as ordens de mais um prefeito eficiente, foram paulatinamente demolindo as muitas casas e sobrados do Mangue. A rua mais conhecida do local era a sugestiva Pinto de Azevedo, lembrada pelo pescador. As funcionárias da imensa área do Mangue foram sumindo, se aposentando, envelhecendo, morrendo, desaparecendo. As novas gerações de moças pobres, vocacionadas ou necessitadas, foram se encaminhando para outros locais. Praça Tiradentes, por exemplo. Ou termas e boates que aparecem pela cidade, todos os dias.
Bem, e onde fica a memória? A prefeitura resolveu se instalar no local demolindo o que restou. Construindo novos, pós-modernos e envidraçados prédios no novo bairro da Cidade Nova. Tudo em nome do progresso, claro. De repente a Pinto de Azevedo sumiu de vez. A Rua e a Zona. Até uma bela e ventilada estação do metrô foi construída no local. O que ficou?
De concreto quase nada. Derrubaram tudo. No epicentro da Zona construíram o maior prédio da região. Uma beleza. Alto, imponente, vidros fumê, limpo e higiênico. Dali o prefeito comanda a cidade. Aí começa ou recomeça tudo. Sabe como é que o carioca chama o prédio? Piranhão. É no mínimo curioso, o prefeito, imponente, barbeado e bem vestido despacha e dá ordens aos seus subordinados empertigados, do prédio Piranhão. Primeiro escalão, segundo escalão, todo mundo acomodado no Piranhão. A secretária, o boy, o publicitário, o conselheiro, todos eles trabalhando no Piranhão. O destino da cidade do Rio é decidido do alto do Piranhão. O carioca duro, o rico, a madame, o menino de rua, o traficante, o camelô, a jovem estudante, a doméstica, batizaram simplesmente o prédio de Piranhão, numa singela homenagem à memória de centenas de mulheres anônimas que passaram a vida trabalhando ali. O brasileiro tem memória. Está ali mesmo onde existiu a Zona, um símbolo da memória nacional. Grande, duro e marrom, arranhando o céu, o Piranhão. Um imenso prédio que o carioca transformou em monumento à memória nacional.