ARQUIVO

- Natal genérico

 

Marco Antonio Azevedo



FELIPÃO PARA O MINISTÉRIO DA SAÚDE

Fui arrancado dos meus pensamentos, com a voz feminina e empostada falando: "próxima estação Carioca, senhores passageiros, por favor saltar pelo lado direito". Lá estava eu. De novo andando de metrô. Me sentindo como um velho personagem de Júlio Verne, na sua viagem ao centro da terra. Debaixo do braço o Jornal dos Sports, com sua manchete vermelha, que não queria calar: "o futebol-arte acabou... o futebol-arte acabou". Aquilo me abalou. Pensei. É caso de polícia. Segurança nacional. Convoquem o exército, a marinha, a aeronáutica. Sou desses cariocas que adora futebol, tem no Maracanã a sua própria casa. Torcedor de radinho de pilha. Àquela altura já eram 10 da manhã e o presidente da república não tinha feito nenhum pronunciamento, nem mesmo o terceiro escalão disse nada, sequer um mísero ajudante de ordens do Planalto abriu a bico. Como é que pode? O treinador da Seleção dá uma declaração dessa, atentando contra a paixão nacional, e o chefe maior da nação nada diz? Silêncio. Só silêncio. Nem uma palavra. O cara quer matar e enterrar o futebol e nada. E a voz empostada e impessoal da moça do alto-falante que insiste: "Estação Carioca, saltar ..."

Que sensação de alívio. É dureza viajar pelo centro da terra, saltar do trem com a massa na contramão, e subir a escada rolante como um equilibrista de circo. No Largo, uma pequena multidão em círculo. Como brasileiro e cumprindo um dever cívico, fui correndo dar uma espiada. No centro da roda um rapaz magro, fazia exibição com uma bola de futebol. A bola, subia, descia. Descia, subia, com os toques leves que ele dava. Redonda e obediente. Era mais um brasileiro fino, que fazia embaixadas e malabarismos, garantindo um-qualquer pra sobreviver. A pequena multidão aumentava para ver mais de perto o show. Afinal o que há de mais em um cara ter domínio absoluto da bola? Em cada esquina do Rio, a qualquer momento pode-se esbarrar em um craque. A bola nunca tocava o chão. Subia e descia redonda. Para descansar ele parava ela na nuca e olhava a multidão respeitosa. Satisfeito. A platéia jogava moedas e até notas de um real, no chapéu.

No Brasil é assim, os meninos já nascem prontos para o futebol. O subnutrido pobre ou o cevado de classe média de pleigraudi. Em qualquer viela de subúrbio do Rio de Janeiro, pracinha, quadra, pedaço de chão, tem garotos fazendo misérias com a bola. Pensei. Tudo bem, o cara era craque, para ser mais exato. De repente um movimento brusco: desequilíbrio. O pessoal que tá assistindo faz ah. A bola se rebelou, amotinada e vaidosa como patricinha de shopping. Já ia para o chão, mimada, aceitando feliz o assédio da gravidade. Então, um objeto inusitado entra em cena. Corta o ar veloz uma muleta. Sim, uma muleta surge de improviso para garantir o espetáculo. É. Com um toque preciso, da muleta, o rapaz recoloca a bola na sua verdadeira órbita. O garoto que não tinha a perna esquerda, garantiu, pronto, o almoço de mais um dia. E eu embevecido pela magia do espetáculo, não enxergara o óbvio. O rapaz era aleijado.

Ao lado, numa banca, vários jornais berravam suas manchetes. O Felipão da seleção, quer enterrar de uma hora para outra, vivo, o futebol brasileiro como um defunto indigente. Sim. O verdadeiro futebol. Dizem que o brasileiro não tem memória. Mas logo lembrei de Leônidas da Silva, o diamante negro, que além de artilheiro, na Copa de 38, apresentou a bicicleta para os gringos. Esticando um pouco a memória saltei para a Copa de 58, na Suécia, onde descobriram que a magro Didi, era príncipe, e Pelé rei. Didi tinha uma perna levemente mais curta que a outra. Fato que ele ignorava solenemente, com dribles, lançamentos e folhas-secas. E Pelé, 17 anos, saía da puberdade, ensinando ao mundo o que era jogar futebol. Ainda sobrava um jogador de pernas tortas, com desvio na coluna cervical, nascido em Pau Grande, chamado de Garrincha, que na Copa seguinte, dizem, jogou sozinho na final, enquanto o treinador dormia e seus amigos de time descansavam despreocupados, comendo sanduíches com coca-cola. Em 70 já se contava com o furacão Jairzinho. Mas o que seria do time sem o magro Capitão Carlos Alberto? O baixo Tostão de pernas grossas? A pura arte dos passes de Gérson? Sem falar de Pelé, de novo.

Mas vamos lá. Afinal o que é o futebol-arte? Ora, é aquele cheio de ginga e de bossa. É o futebol com jogo de cintura, dribles singulares e imprevisíveis. É a mistura do samba com a capoeira. É a alegria do povo. É aquele que leva o carioca rico, pobre e de classe média ao Maracanã. É aquele que a gente quer assistir, depois da praia, em janeiro, quando o Rio tem 40 graus. É o retrato em branco e preto da suingante alma brasileira. É aquele que ganhou quatro Copas do Mundo.

E o futebol-força o que é? É aquele que perdeu a Copa de 78, quando o treinador barrou o Zico, só porque ele era o "galinho" e não o galo de Quintino. É aquele em que a massa muscular pensa, matando a massa cinzenta. É aquele que sempre "destrói" as jogadas e nada cria. É aquele em que o jogador chuta a bola a 130 km por hora e nunca acerta o gol. É aquele em que o jogador corre com a bola, de cabeça baixa, sempre olhando para a grama, fascinado, pensando em transformá-la em refeição. É aquele em que o jogador-atleta só pensa em parar a jogada com porrada. É aquele em que 22 caras fortões ficam se agarrando durante 90 minutos. É aquele bombado, malhado e sarado.

Já na Copa de 94 tínhamos uma seleção de fortões. Mas quem resolveu foi o baixinho de óculos Romário e seu colaborador, o baianinho Bebeto, ganhamos mais uma. Ora o futebol brasileiro é o retrato da paixão do povo e pronto. E vem a pergunta onde anda o Felipão que não acha os craques? Andando pelas ruas a gente esbarra o tempo todo neles. Ao dobrar qualquer esquina você encontra dúzias deles. Só o Felipão que não acha nada. Será que ele nunca andou pelas ruas? É mais um treinador inteligente que quer "atualizar" o nosso atrasado futebol. Fico imaginando se ele dorme, durante os treinos e os jogos, como o Feola, e deixa o Gérson escalar o time para ele. A gente não perdia mais uma.

Bem, a solução é demitir o cara. Para o Felipão não ficar sem emprego, e garantir o leite das crianças, poderia ser transferido para o Ministério da Saúde. Imaginem o ministro "alemão", botando os brasileirinhos amarelos e famintos, aspirantes a craque, para treinar:

- «Tem que correr, tem que malhar,...musculação...»
- «Mas seu Felipão a gente não tomou café da manhã e nem almoçou».
- «Não importa. Respirem fundo, vocês tem que ter disciplina e aprender a viver de brisa. Vou pedir uma pílulas de vitamina pro meu chefe, o Dr. Serra, pra vocês ficarem fortões».

A solução certamente é abrir academias por todo o Brasil. De norte a sul. Imaginem, milhões de brasileiros sem almoçar e sem jantar, só respirando e malhando pra ficar bem saradões? Farmácias também. Sim, farmácias por todo o Brasil, vendendo remédios bem baratinho. E assim preparar os futuros jogadores bombados, curados, sem ter ficado sequer doentes. É a democracia perfeita, com todo país tomando remédio.

Enquanto eu aqui, escrevo estas mal traçadas linhas, a seleção-força do Felipão perde mais uma para a Argentina, do Ortega, que lembra o Maradona: craque, baixinho e gordinho. O menino de uma perna só, do Largo da Carioca, teria vaga garantida na seleção do Felipão e certamente contagiaria a todos com sua alegria de jogar bola, e o seu talento. Mas o Felipão é macho. É coerente. Depois de mais uma derrota ele ainda insiste: o futebol-arte acabou, acabou. Se fosse vivo o João Saldanha, certamente diria: "seleção de cabeças de bagre, não ganha nem nas peladas do Aterro". Mas, o treinador insiste: time que tá perdendo não se mexe. Em entrevistas grita com toda a força "acabou o futebol-arte". Sim. Extra. Extra.

 
 


MARCO ANTONIO DE AZEVEDO,
Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@ccard.com.br