
18/02/2006
Número - 464
ARQUIVO
- Felipão para o Ministério da Saúde
- Lei seca na praia do Flamengo
- Monumento à memória nacional
- Natal genérico
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Marco
Antonio Azevedo
A DESAPARECIDA NOTA DE 100
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Outro dia ouvindo aquele samba do Zeca Pagodinho que diz, “você sabe o que é
caviar, nunca vi, nem comi, só ouço falar...”, concluí o óbvio: a maioria dos
brasileiros conhece o famoso cantor e a minoria comeu a iguaria. Mas nós vivemos
num admirável mundo novo de estatísticas e percentuais, e não podemos apenas
“achar”, temos que ter números e percentuais a nosso favor, para sustentar
opiniões, pontos de vista e ganhar até certa tranqüilidade numérica.
Um jogo de futebol pela TV, por exemplo, é um show de porcentagens e algarismos:
tempo de posse de bola, de bola rolando, de jogo parado, quantos chutes e
quantos gols. Um craque como Romário chega a ter um percentual de 1,5 de gols
por jogo. Ora, nunca vi o cara fazer meio gol.
Se a gente abre a jornal as manchetes gritam: salário mínimo vai subir 6,1%,
seleção brasileira tem 89,9% de chances de ganhar a Copa, Robinho tem 43,7% de
chances de emplacar no Real Madri, Brasil cresce 2,5 % em 2005, mas desemprego
aumenta, Lula joga pelada e “risco Brasil” aumenta em 2,1%, temperatura média em
janeiro é de 40 graus, no Rio.
Dentro deste espírito uma instituição respeitável como o Banco Central, não quis
ficar pra trás e o que fez? Encomendou uma interessante pesquisa não sei se ao
IBGE, IBOPE, GALLUP ou ao IGPI, cuja conclusão é no mínimo espantosa: somente 2%
dos brasileiros tiveram contato com uma nota de 100 reais. E o espanto é com
certeza numérico. Apenas essa ínfima minoria dos 190 milhões de brasileiros,
teve o prazer de conhecer a desaparecida nota de cem.
Vejam vocês a gente nasce, cresce, casa, morre e não tem contato com a famosa
nota de 100.
E não pára por aí. Um em cada três brasileiros já usou dinheiro falso, com
percentual de 38% na Região Sudeste. Significa que a gente pode estar comprando
picolé da Kibon, CD pirata, camisinha, caipirinha, viagra, pagando IPTU e até
caviar com nota falsa. E o complemento é mais interessante: 90% da população usa
dinheiro para pagar suas contas. E mais, 61% dos brasileiros anda com no máximo
20 reais no bolso e apenas 10% anda com mais de 50 reais em cédulas, na
carteira.
Diante de tantos números e percentuais é inevitável uma certa tonteira. Mas
pode-se concluir muitas coisas, dentre elas, é que esses 2% de brasileiros que
estão cheios de notas de 100, devem estar comendo muito caviar. E um modesto
prato de caviar com torradas no Le Saint Honoré, no Rio de Janeiro, custa
módicos 450 reais, ou seja, quatro notas de 100 e meia. As torradas são cortesia
da casa.
E se alguém vier me perguntar pela nota de cem? Nunca vi, não conheço, só ouço
falar.
* O samba CAVIAR é de autoria de Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e
Marcos Diniz.
(18 de fevereiro/2006)
CooJornal
no 464
MARCO ANTONIO DE AZEVEDO,
Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@ccard.com.br
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