25/02/2006
Número - 465

 

ARQUIVO
MARCO ANTONIO


 

Marco Antonio Azevedo



BOTAFOGO X AMÉRICA
UM CLÁSSICO SOBRENATURAL

Depois de várias semanas de um verão implacável, finalmente amanheceu um domingo de amenos 30 graus. Domingo de tensão disfarçada no ar, afinal Botafogo e América disputariam a final da Taça Guanabara, depois de 39 anos.

Corri pra banca e os jornais berravam estatísticas e percentuais, numa verdadeira invasão numérica. Comentaristas e estatísticos tentavam dar conta do possível resultado apostando na lógica e na superioridade da razão.

Às 16 h em ponto começou o clássico. Num primeiro tempo, amarrado e faltoso, o América fez um a zero. Até o final da primeira etapa o América chutaria duas bolas a gol, e o Botafogo, limitou-se a um incrível e único chute para fora.

O segundo tempo começou previsível, num equilíbrio absoluto entre os dois times. Mas eis que surge um escanteio para o Botafogo. O camisa 7 Lúcio Flávio vai bater. Então, o que seria um lance normal do jogo, ganhou ares de mistério. Soprou uma brisa esquisita no Maracanã de 44 mil e 500 torcedores (fora as crianças). Mas na verdade, dizem que não foi o vento, e sim, um sussurro de Garrincha, que desceu do céu dos craques para soprar no ouvido do zagueirão Scheidt: _ Vai pra área,vai pra área.

Não sei se ele ouviu, tal o barulho que fazia a torcida. Veio o escanteio cobrado. Scheidt apareceu de repente, e subindo acossado pela zaga, e pelo goleiro, mandou de cabeça a bola para a rede. Um a um.

O valoroso América não se entregou e foi para o ataque, afinal são décadas sem chegar a uma Final. O craque Válber se desdobrou em belos dribles e passes. O talentoso Robert, autor do gol Americano tentou fazer mais um.

Mas de novo, bateu um vento estranho naquela tarde cinzenta. Mas tem gente que jura, que o vento não era vento, e sim a voz de Heleno de Freitas, que também desceu do céu dos craques, e soprou para o capitão Botafoguense: - domina e vai pro ataque, domina e vai pro ataque.

Nem sei se o capitão ouviu, tão o nível de concentração e entrega para o jogo. Mas Scheidt deu uma arrancada e desobediente acabou com o esquema tático. Com a bola dominada, driblou três. Perdeu, ganhou de novo. Aí deu um passe sobrenatural, de canhota, na direção de Dodô, que mandou pro gol, com um desvio fora do comum no zagueiro do América, decretando dois a um para o Botafogo.

No mais o que se viu foi o time do América, de pura raça, tentando o empate. Mas Lúcio Flávio em passe à moda de Gérson deixou Zé Roberto de cara para fazer o terceiro. O América ainda chutou uma bola indefensável, que o goleiro Marx numa defesa impossível evitou o que seria o início da tentativa de reação do América.

Na segunda-feira fiquei até com dó dos estatísticos, colunistas e comentaristas, tentando explicar a inexplicável virada do Bota, utilizando números, percentuais e esquemas táticos.

Na verdade estão até agora tentando traduzir o que foi um verdadeiro milagre.



(25 de fevereiro/2006)
CooJornal no 465


MARCO ANTONIO DE AZEVEDO,
Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@ccard.com.br