18/03/2006
Ano 9 - Número 468

 

ARQUIVO
MARCO ANTONIO


 

Marco Antonio Azevedo



A BOLA INVISÍVEL

A China sempre foi um país envolto em mistério, com seus mandarins, mulheres vestidas de seda e muitas bicicletas. Mais recentemente uma revolução distanciou-a do resto mundo. Agora só dá para ficar fantasiando uma China gigantesca com mais de um bilhão de pessoas. Imagina produzir café da manhã, almoço e jantar pra esse pessoal todo, deve ser dureza. Lá um casal pode ter no máximo um filho. Se desobedecer perde direitos sociais e pode até ser preso. Isto tudo, para não aumentar mais a população.

A gente também sabe que os chineses inventaram a pólvora. E aqui no Brasil quando alguém era óbvio demais, a gente dizia: “tá querendo inventar a pólvora, mané?”.

A invenção provocou muitos problemas, porque começaram uns a estourar a cabeça dos outros. Para compensar inventaram a bola. Sim senhor, quem diria a bola. Não sei se de couro ou de meia.

Já os ingleses aproveitaram a bola chinesa, criaram uma série de regras e o campo com a grama bem verdinha. E assim inventaram o futebol. Para demarcar os limites do campo, chamaram um português de nome Manoel, que disse que as 4 linhas, a marca da área, a própria bola, etc, deveriam ser brancas, para contrastar com o verde do campo.

Nós brasileiros inventamos Leônidas da Silva, Heleno de Freitas, Pelé, Garrincha e muitos outros, que ensinaram a Ingleses e Portugueses como jogar futebol. Criamos também a famosa frase que diz:“Em time que está ganhando não se mexe”.

Bem, começa o Campeonato Carioca 2006. Os jogadores reclamam da bola. Nem dei muita atenção. Mas aí vem o clássico Botafogo e Vasco. Reinauguração do Maracanã do dia 22 de janeiro. A tradicional partida tinha todos os ingredientes: calor, torcida, jogadores, gandulas, policiais, penetras, repórteres e o juiz ladrão. Sim, porque para a torcida, todo juiz que se preza é um tremendo larápio, que recebe as devidas vaias, mesmo antes do início do partida.

Os jogadores entraram em campo, com um monte de crianças para tirar as fotos. A torcida acesa, espera o início da peleja, o juiz consulta o cronômetro. Mas eis que alguém (acho que foi o Romário) faz a singela pergunta: -“Cadê a bola?” .

A bola, ou melhor, as bolas tinham desaparecido. Procura daqui. Procura dali. Alguém acabou achando. Logo o veio o grito: - Achei, tá aqui. Só que a cor é muito esquisita.

A bola desaparecida tinha a cor de cocô de marciano. E portanto estava igual a grama. E portanto invisível.

Resultado da partida 5 x 3 para o Botafogo. O resultado elástico segundo alguns jogadores e os goleiros que reclamaram muito, era por causa da bola invisível.

Acabou o primeiro turno, com um total repúdio à bola em questão. Começou o segundo turno, com as mesmas bolas. O jogo inaugural foi de Fluminense e Madureira, no estádio de Conselheiro Galvão. Começa o jogo. Temperatura: 40 graus. O Madureira faz um e depois dois. O Flu faz um. Pênalti para o Flu cobrar. O craque Petkovic chuta para fora, perdendo o primeiro pênalti de sua vida. Vitória do time da casa. Segundo um comentarista o Madureira ganhou, porque treinou a semana inteira com a bola invisível.

Um torcedor indignado no final do jogo ainda desabafou: “Fala sério, quem inventou essa merda de bola?”

Com certeza um gênio invisível. Que está se borrando de medo, escondido das torcidas indignadas, que não conseguem ver direito a bola rolando, nem ao vivo e nem pela TV. E grita gol sempre atrasada, tal é a ilusão ótica.

Na boa, já ouvi dizer que o próximo passo do gênio criador da bola invisível, é inventar a pólvora.

 

(18 de março/2006)
CooJornal no 468


Marco Antonio de Azevedo é escritor
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@ccard.com.br