
25/03/2006
Ano 9 -
Número 469
ARQUIVO
MARCO ANTONIO
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Marco
Antonio Azevedo
REI MOMO LIGHT |
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Desde os tempos mais remotos que o carnaval é
sinônimo de alegria, festa e principalmente exagero. Na comida, nas
cores, na bebida. No Brasil são quatro dias de folia pro brasileiro
exagerar à vontade e torcer para sobreviver e chegar até a quarta-feira
de cinzas. A gente vai a todos os bailes possíveis. E usa certos
produtos de acordo com a época. Já foi a época da lança-perfume. Hoje é
a época da cerveja, do redbull etc.
Aqui no Rio a gente se acostumou com o símbolo da festa momesca, que é o
Rei Momo. Como o nome diz, rei do exagero. Roupa colorida. Barriga
enorme. Grande bebedor de cerveja e comedor de imensas feijoadas em
pleno verão de 40 graus. É ele que abre a carnaval. Quem não lembra do
inesquecível Bola, o imenso Rei Momo? Só de sentir sua alegria naquele
corpanzil de mais de 100 quilos, a gente ficava até mais animado pra
brincar. O Bola abria o carnaval de maneira tradicional, suando em
bicas, sorrindo e com o copo de chope na mão. No mais era cair na farra.
Bem. De uns anos pra cá uma mudança incrível se deu. O rei momo ficou
magro. Sim, o símbolo do carnaval, da festa do excesso, está magro como
um modelo de passarela. De repente ficou magro, mais tão magro que
sumiu. Essa é a mais dura verdade. Por acaso você tem encontrado o rei
momo por aí, com sua gorda presença? Os blocos de rua, por exemplo,
estão aumentando. As escolas de samba com mais componentes. Mais
turistas na cidade. Por que ninguém pergunta, cadê o rei momo? Onde está
o rei da folia? Entra e sai carnaval e nunca mais vi o Momo.
O rei gordo e genuíno alguns meses antes da festa, fazia um revezamento
em vários restaurantes como o Porção, o Rei das Massas, o Feijoada
Completa... Em alguns liberavam até boquinha livre, para o glutão, que
engordava ainda mais, arrebentando com a balança, isto para ficar em
forma, bem cevado e adequado para a festa.
O último rei momo que eu vi na televisão era politicamente correto. Ou
seja, magro. Durante o ano só comia brócolis, alface, legumes, muita
berinjela com arroz integral, água de coco, suco de jiló. Três meses
antes do carnaval ficava internado num spa lá em Nogueira. Ouvi até
falar que ele detesta feijoada e tem alergia a cerveja. O colesterol do
rei magro é zero.
Primeiro banem e perseguem os fumantes. Agora chegou a vez dos gordos, a
começar pelo Momo.
No próximo carnaval estou desconfiado que vão destronar de vez o gordão.
O símbolo do carnaval brasileiro vai dar lugar a um faquir. Isso. Um
faquir genuíno, completo, com turbante, flautinha e costelas de fora. Um
faquir magérrimo, cevado num spa em Mauá. Vai abrir o carnaval com copo
de chá na mão. Ao invés de sambar e cantar, babar diante das mulheres
peladas e beber cerveja, ele vai passar o carnaval hipnotizando cobras.
E na quarta-feira de cinzas vai desfilar numa passarela de moda fashion,
vendendo turbantes e bata indiana.
(25 de março/2006)
CooJornal
no 469
Marco Antonio de Azevedo é escritor
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@ccard.com.br
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