
03/06/2006
Ano 9 -
Número 479
ARQUIVO
MARCO ANTONIO
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Marco
Antonio Azevedo
RIO CAPITAL DO CALOR |
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Conforme o tempo vai passando a gente vai tendo a
maior das indubitáveis certezas. Tudo muda. Ou quase tudo. O tempo passa
e vai arrastando tudo como uma pororoca gigante e invisível. A gente só
vai percebendo os efeitos. Desde criança a gente nota o movimento das
mudanças. A gente muda de namorada, emprego, endereço e religião. Tem
gente que consegue até virar a casaca e mudar de time.
Mas tem uma coisa que com certeza não muda. O calor do Rio de Janeiro.
Entra ano e sai ano e o calor é contínuo e implacável. Envolve a gente
por todos os lados. O carioca é como uma ilha cercado de calor por todos
os lados. E são longos 365 dias de calor. Só faz fresquinho nos vagões
do metrô e nos shoppings.
Todo ano quando, exatamente no 21 de março, dia da virada oficial de
estação, do verão para o outono, percebe-se que esta mudança só ocorre
no calendário. O calor é estático no Rio. Como é quente a Cidade
Maravilhosa. Hoje de manhã, exatamente dia 21 de março de 2006, levantei
e antes de escovar os dentes, corri para o termômetro: 32 graus dentro
de casa.
Ontem, domingo de sol, deve ter dado uns 40. E verdadeiras hordas de
cariocas loucos por sol e mar, se abarrotavam nas dezenas das praias da
cidade, disputando cada centímetro da areia.
Outro dia conversando com um taxista ele me disse o seguinte. Quando a
gente tá na escola primária, aprende as várias estações do ano. É verão,
outono, inverno e primavera. Aprende também que Papai Noel existe, com
barba branca e aquela roupa vermelha quente pra cacete. Chega de caô meu
irmão, ele completou, se o Papai viesse à cidade naquela carroça puxada
por bambis e vestido daquele jeito, e com aquela barbona, morria de
calor, assado como um frango de padaria. E os bambis, com certeza iam
morrer de insolação.
Nesta altura a profissão mais acertada é a de surfista. O cara fica o
dia inteiro na água esperando a melhor onda. Já o carioca que mora longe
e passa um calor danado dentro dos trens, inventou logo uma atividade
nova: o surfe de trem. O cara tá espremido dentro do vagão. Faz 40
graus. O cara tá empapado de suor. O cecê é forte. Então ele vai pro
teto do trem e faz a viagem no fresquinho.
Mas não deu certo certo. De vez em quando alguém esquecia e encostava no
fio de alta tensão e morria torrado. A polícia também não gostou da
história. Quando conseguia pegar um surfista de trem, esquentava o cara
de porrada.
Conclusão no Rio de Janeiro só tem uma estação: a do calor. De onde se
conclui o seguinte: O verão é muito quente. O outono é bastante quente.
O inverno é menos quente. E na primavera faz bastante calor. E o único
lugar frio no Rio de Janeiro, de fato, é dentro da geladeira. Justamente
pra onde vai a cerveja do carioca, porque ninguém é de ferro.
(03 de junho/2006)
CooJornal
no 479
Marco Antonio de Azevedo é escritor
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@mls.com.br
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