
24/02/2007
Ano 10 -
Número 517
ARQUIVO
MARCO ANTONIO
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Marcos
Antonio Azevedo
ESQUECERAM O MÍNIMO |
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É claro que no atual panorama, com o calor, o
carnaval batendo na porta, as milícias, o campeonato carioca pegando
fogo, a Polícia Federal prendendo gente por toda a parte, e até a si
mesma, etc, etc quem vai lembrar do salário mínimo?
O Mínimo que sempre foi ator principal da agenda de qualquer jornalista
brasileiro, freqüentou durante anos as primeiras páginas dos grandes
jornais do país, provocou ondas de indignação pelo seu raquitismo,
durante décadas, hoje amarga um misterioso esquecimento.
O mínimo chegou até a derrubar ministro. O João Goulart deu um aumento
de 100%. O mínimo virou máximo, isto durante o governo Vargas. Goulart
caiu no dia seguinte.
No último primeiro de maio, dia do Trabalhador, o mínimo foi solenemente
ignorado em todo o Brasil. Ele que já teve presença obrigatória em
qualquer palanque, qualquer aglomeração de pessoas ou reunião de
sindicato, para sempre exibir seu corpinho esquálido e suas costelas de
fora; não foi convidado.
Curioso com essa situação inusitada fui pra a rua e fiz uma “pesquisa de
botequim”, ou seja, saí perguntando para vizinhos, colegas de trabalho,
amigos, parentes e até estranhos, o seguinte: qual é o valor do salário
mínimo hoje? Ninguém, mas ninguém, conseguiu acertar. Foram vários
chutes. Todos pra fora.
Ora se a gente não lembra, porque o presidente Luís vai lembrar, por
exemplo? Ele que, enquanto candidato, há quatro anos atrás, afirmou
categoricamente que sua meta, como ex-nordestino e pleiteador ao cargo
de chefe maior da nação, transformaria o mínimo em máximo.
Tinha toda razão, o atual presidente. Quem poderia viver com aquela
merreca? Talvez um faquir, que como se sabe, vive de brisa. Um artista
minimalista, como é óbvio. Ou até um equilibrista de circo, que vive
todo o tempo na corda bamba.
Bem, depois de procurar e pesquisar exaustivamente descobri o valor do
ex-famoso salário mínimo: 350 reais. Sim trezentas e cinqüenta pratas.
Pois bem, o que dá para adquirir com esta admirável quantia? Vamos ver:
uma família de quatro pessoas tomando somente um cafezinho com pão, todo
o dia, no final do mês gasta 456 reais. Mas se uma pessoa não gosta de
comer, só de beber, dá para ingerir algo próximo de 115 cervejas. E se o
cara só beber água o mês inteiro, como fez o ex-governador do Rio, a
conta vai aumentar, e então, paga-se a conta de água e não a de luz, e
fica-se no escuro.
Para refrescar a memória não é demais lembrar que o salário mínimo, já
foi máximo, isso mesmo, no governo Getúlio e depois no de Juscelino,
chegou aos píncaros de 1.500 reais.
Hoje o salário mínimo anda numa cava depressão, esquecido, largado, se
arrastando pelos cantos, com um cálido complexo de inferioridade.
Raquítico, nanico e abandonado por jornalistas, políticos, patrões,
presidente. Anêmico e pálido, precisando urgente de pouco de atenção ou
quem sabe de uma transfusão de sangue-bom. Talvez assim até cresça e
chegue a idade adulta taludo, desreprimido e analisado, como qualquer
bela e solar jovem do Leblon.
(24 de fevereiro/2007)
CooJornal
no 517
Marco Antonio de Azevedo é escritor
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@mls.com.br
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