05/02/2011
Ano 14 - Número 721

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"Amigo da Cultura"

 


 

ARQUIVO
MARCO ANTONIO


 

Marcos Antonio Azevedo



Sorria, você está sendo vigiado

Sorria, você está sendo vigiado
“A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha
Não sabem governar sua cozinha.
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para a levar à praça e ao terreiro”.
(Gregório de Matos – séc. XVII)



Descendo a rua Candido Mendes tive a conhecida sensação de que havia alguém me observando. Dobrei na rua da Glória. Passei a farmácia, a sapataria, o restaurante West Falia e o incômodo continuou. Quem estaria interessado em tomar conta da minha pessoa?

Desci a escadaria da estação do metrô. A sensação continuou. Fui comprar o bilhete e de repente acima da cabine da bilheteria, um rostinho redondo, amarelo e meigo ostentava a singela frase: “Sorria você está sendo filmado”. Estava constatado. Eu, vigiado, sem disfarce, na maior cara de pau. E além de tudo ainda tinha que sorrir.

Fiquei parado, estatelado que nem marido depois de saber por último. Paranóico, olhando para todos os lados, tentando encontrar mais alguma câmera escondida. Sim. Câmeras por todos os lados, na estação e fora dela. Esta é a pura verdade. Em qualquer canto da Cidade Maravilhosa tem uma filmadora de olho em você. Da Pavuna ao Leblon, do Méier a Cinelândia, de Barros Filho à Praça Saens Pena.

As ações mais ingênuas como entrar ou sair do elevador, andar a toa pela rua ou comprar qualquer coisa no camelô, merecem por parte do sistema as mais viscerais atenções. Coçar as “partes”, falar sozinho, limpar o nariz, olhar mulher bonita, podem gerar flagrantes inimagináveis. Não se dá mais um passo, na cidade do Rio de Janeiro, sem ser vigiado dos pés à cabeça. E o pior, está tudo gravado. Se você pensa que pode trair, fumar escondido, tomar uma cerveja furtiva, bocejar com a boca aberta; pode tirar o cavalo da chuva. Tem câmera escondida até no boteco da esquina. Não se bebe mais uma cerveja impunemente no Rio de Janeiro.

O ilustre escritor George Orwell, autor do 1984, já alertava: brevemente não daremos um passo sem ter um olho grande se metendo na nossa vida. Está aí o Big Brother que não o deixa mentir. A conclusão é que, se meter na vida alheia venceu. O século XXI é era da fofoca. Nunca o ser humano vigiou e se intrometeu tanto na vida dos outros.

O cúmulo de ser vigiado se dá no filme Ultimato Bourne, com o ator Matt Daimon, que comprando jornal em Amsterdam é vigiado por um cara que está em Nova Iorque, tomando cafezinho numa sala envidraçada, cheia de computadores.

Nos aeroportos americanos já existe até uma câmera com raios X, que tudo vê. Enxerga até os mais recônditos lugares do seu corpo, como no filme O Homem dos Olhos de Raio X, com Ray Milland, que se aproveita do poder ocular, para enxergar através das roupas das mulheres.

Bem. Já tomei uma decisão. Como ando duro vou cobrar meus direitos para ser vigiado. É, direitos de imagem que nem ator de cinema e jogador de futebol.

Filmou? Vai ter que pagar. Vou ficar ricão.
 

(05 de fevereiro/2011)
CooJornal no 721


Marco Antonio de Azevedo é
Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário
Rio de Janeiro, RJ
mazevedo@mls.com.br