
30/07/2005
Ano 8 - Número 435

|
Arnaldo Massari
GRATUIDADE OU ACUIDADE?
|
 |
Passaram-se pouco mais de dez anos do advento da Internet.
No seu bem início, fortunas foram construídas rapidamente sob a
desinformação do que então se apresentava grandioso, de porte inusitado e
com uma abrangência jamais pensada.
Em época, os imaturos e estreantes internautas, pelo natural
desconhecimento dos meandros dessa modernidade - na ocasião não muitos e
nem bem definidos - absorviam a Internet sob o pressuposto e imediato
raciocínio do tiro e queda.
Naqueles primórdios, formavam-se os provedores de acesso e de conteúdo e,
conseqüentemente, a disputa pelas assinaturas. Surgiu, então, na briga
selvagem pelo mercado que se apresentava a conquistar, a idéia da
sub-reptícia gratuidade. Evidentemente, não por simplismo, mas sim pelos
desdobramentos que um grande todo de convergência proporcionaria. Idéia
inteligente que funcionou, mas, por si só, restritiva.
Nessa linha de raciocínio instituída pelo poder econômico, surgiu, em
tosca cópia, a fragilidade dos pares acadêmicos, sem os profissionais
conhecimentos e possibilidades financeiras de como usufruir pela
gratuidade; estes, ingenuamente, com premissas de oferecimentos, avocando
insistentemente o nome das deusas pagãs. Engano fatal. Milhões de
propostas de graça e sem graça brotaram tal e qual em pradarias após o
período das chuvas. Não mais existem.
Vivemos num corrosivo status que, sem receita, não há como sobreviver ou
construir alguma coisa. Haja vista que alguém pagou para nascermos, e
alguém, provavelmente, arcará com as despesas do nosso funeral.
Para tudo o que é gratuito, usualmente falta a qualidade e está fadada à
descontinuidade. Se não houver a receita – pois o nosso mundo é
capitalista –, as despesas serão, mais cedo ou mais tarde, impeditivas aos
avanços da valia e do valor.
Sob esse procedimento um tanto quanto açodado, inverossímil, vaidoso e
piegas, queda-se abrigado, com certa tristeza, o drama dos escritores no
país. Estes, por muito sabedores de que todos os alardeados incentivos ao
livro, sempre terminaram com a fala ou com a leitura do texto do então
enunciado, pela desesperança, vivenciam um absurdo ainda maior: o de
passar a oferecer os seus livros gratuitamente. Cabe ressaltar, em última
análise, que nos trabalhos sem valor oferecidos a esmo, abriguem razões
implícitas, tudo bem. No entanto, ótimas criações completas serem jogadas
ao vento é simplesmente ridículo.
Amostras grátis de livros inteiros? Isso não existe, pois não são brindes.
Para leitura e deleite, já existem as bibliotecas públicas. Não consta que
artistas plásticos distribuam as suas obras de arte a quem quiser. As
músicas são cedidas ou vendidas? Até o adubo, por acaso, é gratuito? Se
existe o mérito, a troco do que se desmerecer? Vaidade mórbida? Falta de
autoconfiança? Descrença do fixar o nome na Literatura?
O que é oferecido gratuitamente, sem ter havido nenhum apelo e quiçá o
merecimento, é um procedimento que, intrinsecamente, denigre o oferecido,
mesmo em que lá esteja um valioso conteúdo.
O caminho literário como todos os outros da arte é vencido a pé. E, em
muitas das vezes, sem os sapatos. O que não cabe sob nenhum pretexto ou
razão é oferecer lazer e conhecimento em lirismo de idiotismo.
Por favor, senhores alvissareiros das deusas pagãs. Quando não se conhece
o enfermeiro, nem injeção é de graça. E, se for de graça, haverá
fatalmente a dúvida da sua não-eficácia.
(30 de julho/2005)
CooJornal no 435
Arnaldo Massari
escritor
SP
arnaldomassari@uol.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-049.htm
|
|