12/04/2008
Ano11 - Número 576


 

ARQUIVO
ARNALDO MASSARI




 
Arnaldo Massari

 


A Viúva e o Inelutável

 

 

 

Muito bonita, sob as tranças da juventude e pelos tracejados felizes bem aparentes, tendo feito as suas regulares e antecipadas aberturas de praxe, acercando-se dos quase trinta anos, resolvia fechar questão ao do casamento.  Começava a aperceber-se do etário temerário.  Daquele que institui, em nada contribui!  Entretanto, apostava em suas cartas pelas fortes razões das copas e dos paus.

 

Sempre sendo mais vista do que via, repentinamente, ascendeu-se na atenção.  O que esteve no despercebido, sem nenhum sentido, passava, então, a ser objeto e objetivo.  Delineado ficava o que bem queria: um guapo bem-sucedido, hígido, no pertinho do grisalho.  Aquele do olhar determinante e coadjuvante.  Bem provido e provedor às ansiedades feminis, provador emérito de longa data.  Enfim, com muita prática na temática variada.  Seguro de si, confiante e dominante.  Apenas, como todos, naquela cegueira em que nem binóculo faz enxergar.

 

Não demorou... As rolhas do champagne espocaram em conjunto com as luzes das fotos.  Um sonho realizava-se.  Aquele véu, não muito mandatário, porém, institucionalizava a vontade e a razão para um comportamento bem diferente.  Sossegado ao do então diverso – o das proas e das popas às guinadas dos ventos e dos velames.  No começo, os resorts, o caviar, limousines, alta costura, mídia!  Verdadeiro desbunde...

 

Vivendo e acontecendo! A vida corre e escorre como um filete d’água.  Quase imperceptível.  Rigorosa, nada harmoniosa.  O calendário não segura nem um pouco o cair das suas folhas.  Recordares aos em céus de ontem, nos chãos do hoje.  Subseqüências que não sustentam tão-somente os prazeres, os aconteceres amenos. Trazem, igualmente, as sínteses de coisas outras. – Como são inúmeras!

 

De maneira muito diversa,  perversa, às vezes, acontecem os desgastes e os desgastantes.  Sob todas as ordens, nomenclaturas, observações e conteúdos.  Em falados ou em fadados, cunho é que, relacionamento a dois mais destempera do que contempla.  É quando o compulsório das aceitações mútuas se faz em conquista ao do dia seguinte.  Paciente vitória para os sábios do equilíbrio ao do prosseguir sob o mesmo teto.  No desfrute da mesma teta, do mesmo peito.

 

Apenas para constar, não tanto ao de preocupar ou assustar, há casos nos matrimoniais em que uma terceira pessoa pode resolver.  No sabido escondido, ou em ostensivo partilhado!  Nesse sintomático, o que não pode haver é o egoísta.  Fica ruim.  Traz implicações outras...

 

Não obstante, formalizações e açodamentos,  fora à parte. 

 

Voltando ao marido deste então, cheiroso e charmoso, envolvido nos negócios até o pescoço.  Ânsia ao que nada traz!  Apenas ao bolso dos herdeiros. Com mais presença naquelas reuniões dos errares em democrático, ao do que no desfrute do abraço e da cama não interesseira.  Contumaz ausente do onde deveria estar presente, em efetivo!  Mesmo que ainda fosse sob uma necessária criatividade, algo parecido e despendido no do negocista. Ainda assim, curiosamente, livre das rígidas protuberâncias cranianas.  Agraciado pelo simples cumprimento das juras daquele capcioso véu do enlace.  Avis rara...

 

O tempo segue rápido, resoluto, não clemente!  Nem sequer avisa, porque assim não precisa. Supressivo, é possessivo de destinos.  Cerimonial, nunca cerimonioso!

 

A verdade do feliz é transitória fantasia.  Não segue em igual sempre ao depois. É irregular de ímpares e de pares em uma aritmética aleatória.  Em intempestivo, traz os piripaques.  Não escolhe a idade, não ratifica qualquer vontade. Considera os em não considerados.

 

Aquele Executivo não tão executante!  Sim, e muito, mantenedor das incontáveis vitrinas da feminilidade. Ardoroso negocista que, num extemporâneo e repentino desavisado de alfaiataria, ganha um requintado e vistoso paletó de madeira.

 

No ínterim daquele baixar à sepultura, em presencial e atraente viuvez, aquele vulcão dispunha-se no temporário das próprias lavas.  No entremeio do funeral, discretamente, lá já estavam os olhares ao recém-disponibilizado. Sedentos ao cedido.  Diversos fitares masculinos dissimulados, lânguidos de pesar momentâneo, ordinários em essência.  Construindo em mental, sem perda de tempo, uma voluptuosa conciliação de prazeres.  Aqueles irromperes aos caminhos novos, nos dadivosos das viúvas frescas.

 

Na volta, em casa, desnudando-se do seu impecável vestido preto, o primeiro comparecimento foi ao do espelho. Lá, via uma bela fêmea no pilar dos seus recém-passados quarenta anos.  Contudo, a famigerada decadência corporal, em manso, no ranço, começava no seu de irreversível.

 

A expressão daquela então beleza não mais era a da tanta certeza ao do masculino exigente – o refinado em bem-acostumado.  Dava lugar a muitas temerosas dúvidas e aflições.  Olhava para as suas coxas!  Os seus peitos não mais eram aqueles parecidos com ganchos.  Não bastante haver em tamanho!  A rigidez e o formato são determinantes!  Merde!

 

Após a missa do sétimo dia, algo precisava ser feito!  Uma vontade imensa ao prazer desmedido e ao não tempo a perder aplacava-se em riste de desagravo:

 

Que o prezado descanse em paz! 

 

Afinal, por que não escancarar dentro de quatro paredes, em duas ou quatro portas?  Ninguém sabendo, vendo, não haverá o deitar das falas.  O cuidado que o agora apresenta é bem outro: a quem, onde, quando?  Mostrar a coisa mais antiga e conhecida do mundo é sempre novidade para quem ainda não viu.  Entretanto, a curiosidade tem limites.

 

É preciso ter em mente que validade e vontade não se coadunam.  Não adianta somente querer exibir, dar.  É preciso haver o conteúdo e, não o combalido.  As desistências podem ser frustrantes.  Insurretas!  Vá que no passar do tempo ninguém queira!...  Melhor agora, em sussurros, em gemidos ou em urros – pouco importa – do que ter de mais tarde apelar para o Turismo Sexual: pegando e pagando...  

 

A juventude é um prêmio ultra-fugidiço.  O adulto, quando em conseqüente, é a gritante verificação.  A velhice, apenas, o pesado fardo do tudo que chegou sem muito avisar.

 

Sem os exultantes, um burlesco de corporal, mesmo que em réplicas de súplicas, é encontrar o alguém para dar a cobertura.  Os samaritanos são raríssimos!

 

O sentimento do em  perdendo, naquele justapor, é o arauto para todas as apressadas decisões: os sorrisos à procura de imissões.  Realidade inelutável!

 

A viuvez, quando atípica, não reluz e não deduz a coisa alguma de passado. O que manda é o latejar da inquieta libido.  Um grande e feroz sentido ao do tempo.

 

Espólio de sexual valioso, novos legatários!  A vida é mesmo assim: rasa, irreverente, simplista.  Aos que não concordam, o bastar da leitura de um sem-número de páginas viradas.

 

Quase sempre, os mimos dos cônjuges, mesmo que em deixados valiosos de feitos e feitios, em pelúcias e em carinhos havidos, no definitivo de uma ausência, turvam-se.  As resplandecências daquele tão dividido e solidário restam-se, às vezes, no relicário de apenas longínquos e vagos valores.

 

O materialismo afoga o sentimentalismo.  O corpo e a alma sempre foram inimigos declarados...

 

            


(12 de abril/2008)
CooJornal no 576


Arnaldo Massari
escritor
Campinas - SP
arnaldo.massari@bol.com.br    
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-049.htm