30/06/2007
Ano 11 - Número 535


 

ARQUIVO
MEMÓRIA DO ESPORTE

Almir acabou com o jogo

* ROBERTO PORTO

Quem poderia parar o Bangu no Campeonato Carioca de 1966? A história e as lendas que envolvem os grande jogos disputados no Maracanã contam que só Almir Pernambuquinho, do Flamengo, seria capaz de tal façanha. Bom jogador, de recursos técnicos quase inesgotáveis, Almir só pecava por um único e importante detalhe - era dotado de um temperamento totalmente desequilibrado, principalmente quando provocado ou marcado com dureza por parte de seus adversários. Até hoje, tantos anos passados de sua trágica morte - assassinado a tiros, aos 35 anos, num bar da Galeria Alaska, em Copacabana - ainda é lembrado e tomado como termo de comparação com mais dois outros craques do futebol brasileiro - Heleno de Freitas e Edmundo.

Naquele já distante ano de 1966, o Bangu, sob o comando do treinador Alfredo González, parecia uma equipe imbatível. A rigor, perdeu um único e escasso jogo (2 a 1), no final do primeiro turno, justamente para o Flamengo, com um gol inacreditável do próprio Almir, que, com o gramado encharcado, mergulhou e arrastou-se na lama para marcar de cabeça um dos mais célebres gols do grande estádio.
Campeão carioca de 1965, o Flamengo tentava o bicampeonato com um time ao mesmo tempo clássico e perigoso. Clássico em seu meio de campo, com Carlinhos e Nelsinho, e perigoso no ataque com a categoria de Silva, ajudado pela coragem de Almir.

Assim, não foi surpresa para ninguém que os dois clubes chegassem à decisão do Campeonato Carioca, numa tarde de 18 de dezembro, diante de quase 100 mil torcedores - a maioria absoluta de rubro-negros. Os que tiveram acesso ao vestiário do Flamengo, antes da partida, perceberam em Almir um certo nervosismo, uma ansiedade exagerada em entrar em ação como se fosse para uma guerra de vida ou morte no gramado.

A rigor, pode-se dizer que o time rubro-negro não teve uma tarde feliz. Não apenas pela derrota, que lhe arrebatou o título, mas pelo que ocorreu em campo. Antes dos cinco minutos, o ponteiro-direito Carlos Alberto (jogador que já sofrera sérias contusões) foi atingido pelo violento lateral-esquerdo Ari Clemente.

Até aí, nada demais. Ocorre, porém, que no Campeonato Carioca de 1966 ainda não havia o recurso da substituição e o clube da Gávea ficou, de estalo, com apenas 10 jogadores. Como o ponteiro-esquerdo Osvaldo Ponte Aérea recuava para compor o meio de campo com Carlinhos e Nelsinho, o ataque do Flamengo ficou reduzido a Silva e Almir, cercados pelos eficientes Mário Tiro e Luiz Alberto. Pior: aos 19 minutos, Nelsinho, uma das molas mestras da equipe, sentiu uma pontada na coxa e praticamente ficou fazendo número em campo, arrastando-se com dificuldade atrás das bolas que lhe passavam. O golpe fatal veio aos 23 minutos, num chute de longe de Ocimar que Valdomiro - na opinião de muitos - deixou passar de maneira suspeita.

Três minutos depois, novo e chocante golpe: Aladim colocou o Bangu em vantagem de 2 a 0. No intervalo, segundo as crônicas da época, Almir, transtornado com a derrota que se desenhava, teria dito ao dirigente Flávio Soares de Moura que o Bangu poderia até ser campeão mas não daria a volta olímpica. Flávio não entendeu bem o que seu jogador queria dizer, tentou animá-lo, relembrando a tradicional fibra rubro-negra, seu gol arrastando-se na lama no turno e não deu maior importância ao fato. Mas aos três minutos da segunda etapa, numa jogada genial, Paulo Borges, pela direita, ampliou para 3 a 0. O Flamengo estava definitivamente liquidado.

Daí em diante, o jogo ficou nervoso. Sem saber o que era um título desde 1933, o Bangu começou a ensaiar um toque de bola no meio de campo.

Foi aí que o jogo acabou.

Inteiramente alucinado, Almir agrediu Ladeira, saiu correndo atrás dele e quase todos os jogadores brigaram. Almir parecia incontrolável, disposto a acabar com a partida e a volta olímpica banguense. Ayrton Vieira de Morais, o árbitro que tinha o apelido de Sansão, pois era fisicamente bem dotado, colocou-se à margem do conflito e foi anotando os nomes dos brigões. Quando os ânimos serenaram, meia hora depois, expulsou Ubirajara, Luiz Alberto, Ari Clemente e Ladeira, do Bangu, e mais Almir, Valdomiro, Itamar, Paulo Henrique e Silva, num total de 10 jogadores. Na súmula, redigida com clareza, declarou que o jogo terminara aos 25 minutos, enumerou os expulsos e entregou a súmula à federação.
E o Bangu x Flamengo de 1966 entrou para a história como o jogo que não acabou.

*Roberto Porto é um dos mais conceituados jornalistas da crônica esportiva brasileira.


AS AVENTURAS DE ALMIR, O PERNAMBUQUINHO
* Fausto Neto e Mauricio Azedo


DOIS DIÁLOGOS DO CRAQUE ALMIR COM DOIS TREINADORES

Primeiro:

Renganeschi: Meu filho, porque você não pára de beber?
Almir: Olha, seu Renga, não paro por duas coisas. Porque gosto e a bebida não me prejudica. Eu não treino direito? Não estou sempre em forma? Alguma vez deixei e jogar a não ser por contusão grave?
Renganeschi bateu nas costa de Almir e foi embora.

Segundo:

Iustrick: Almir, você não acha que Copacabana fica muito distante do Vasco?
Almir: Não acho não.
Iustrick: Mas eu acho que você tem que morar perto do Vasco.
Almir: Eu não.
Iustrick: Estão escolhe – O Vasco ou Copacabana.
Almir: Copacabana.
Iustrick não tocou mais no assunto.

Esse era o Almir Pernambuquinho. O menino durão do Vasco. O homem furioso do Flamengo. O herói da Bombonera no Boca Junior. O garoto que brigou pela seleção com meio time uruguaio. Um homem próspero, tomador de cerveja que sempre amou uma coisa: a vitória.

Catimbeiro, brigão e valente eram alguns dos adjetivos que a imprensa dava ao “craque Almir”. Quando jogava no Boca Junior que era dirigida pelo brasileiro Vicente Feola, Almir armou a maior confusão contra o Chacarita. Foi uma verdadeira batalha campal.
Entre as suas muitas brigas, Almir gostava de recordar aquela da decisão do campeonato carioca de 1966 no jogo Flamengo e Bangu.

“Naquela decisão de 66 foi tudo muito mal para o Mengo. O que a gente não podia esperar era que o juiz ainda se metesse a ajudar o Bangu. Só havia um jeito: baixar o pau”.

Almir conta aos jornalistas Fausto Neto e Mauricio Azedo como foi a decisão de 66.
(O depoimento depois virou um livro).

Aquela semana da decisão do campeonato carioca de 1966 encontrou o time do Flamengo com muitas dificuldades.
"Nosso ponta direita, o Carlos Alberto, estava machucado, mas dizia que tinha condições de jogar. Nos testes a que era submetido ele apresentava estar bem, mas alguma coisa me dizia que Carlos Alberto não deveria ser escalado. À proporção que se aproximava o dia do jogo, eu insistia ainda mais com Carlos Alberto, mas ele achava que dava. Não havia como barrá-lo, se ele se declarava bom e fazia questão de participar da última partida.

Mas não apenas Carlos Alberto nos preocupava. Dias antes, o goleiro Valdomiro tinha pleiteado não sei quanto à diretoria do Flamengo, porque queria comprar um automóvel. Não houve acordo, mas ele não se perturbou. Estranhei o comportamento dele e chamei a atenção de Silva para o negócio.
- Você notou a transformação do Valdomiro nos últimos dias? Ele parece muito alegre, anda até cantando. Eu nunca tinha visto isso. Por que tanta alegria?
Silva é um dos caras mais inteligentes que eu conheci no futebol. Ele riu muito da observação que fiz, eu também acabei rindo. Nossa confiança na vitória era tanta, o ambiente na Gávea era tão bom que não valia a pena criar um caso, tentar aclarar as coisas. Já tínhamos o problema de Carlos Alberto, porque criar outro levantando suspeitas sobre um companheiro ?
Para jogar esta partida, eu tomei dois Dexamil. Outros jogadores tomaram também, porque nessas horas a bolinha aparece não se sabe como. Há sempre alguém oferecendo: quem quiser tomar, toma mesmo. Silva não tomou, não gostava. Também não tomaram nada nossos homens do meio campo: Carlinhos e Nelsinho.

Aquela decisão para mim era normal, não era a bolinha que iria me prejudicar. Havia outros problemas. Um deles era o juiz Airton Vieira de Moraes, o Sansão, que eu acho que também foi comprado. Só isso explica a conversa que ele teve comigo antes mesmo de começar a partida. Nós ainda estamos fazendo aquecimento muscular no campo, batendo fotografias, dando entrevistas, quando Sansão se aproximou de mim e já foi advertindo:
- Olha aí, Almir, eu estou de olho em você. Muito cuidado que eu vou te expulsar.
Eu nunca dei bola para juiz nem para o Sansão, que é forte, nem para Armando Marques que é metido a enérgico. No primeiro lance, eu percebi que Sansão só podia estar na gaveta do Bangu. Assim que foi esticada a primeira bola para Carlos Alberto, que o Bangu sabia que ser um jogador frágil, Ari Clemente, lateral esquerdo entrou para quebrar. Carlos Alberto rolou pelo chão. Sansão não deu falta nem advertiu Ari Clemente. Naquele tempo ainda não estava em vigor a regra 3, que permitia a substituição de jogadores. O Flamengo foi reduzido no primeiro minuto da partida a dez jogadores, porque Carlos Alberto se arrastava no campo, fazia um esforço tremendo para alcançar a bola. O desfalque de Carlos Alberto começava a ser fatal para o Flamengo.

Com pouco mais de vinte minutos de jogo, houve outra entrada do Bangu para quebrar o time do Flamengo. Desta vez o atingido foi Nelsinho, peça vital do nosso meio campo. Ele levou um toco daqueles e passou o resto do primeiro tempo capengando. Mas o maior desastre foi o nosso goleiro, Valdomiro. Nós tomamos dois gols em três minutos, entre os 23 e 26 minutos do primeiro tempo. O primeiro gol foi feito por Ocimar, num chute mais ou menos da intermediária. Valdomiro pulou atrasado, chegou a tocar na bola com um soco, mandando-a as redes. Estava explicado porque ele cantava tanto dias antes. Logo depois, com o time do Flamengo ainda zonzo com o primeiro gol, Aladim fez o segundo.

O Bangu virou o primeiro tempo com a vantagem de 2x0.
Nós estávamos praticamente com nove homens, contra onze deles, e naquele dia Paulo Borges fazia misérias, justificando seu apelido de Ganzela – Vai ser um massacre, pensei. No vestiário, no intervalo, o clima era muito pesado. Nós tínhamos consciência de que não dava mesmo para vencer o Bangu. O caso de Carlos Alberto era dramático. Ele tinha rompido os meniscos e os ligamentos todos. Estava abatido, sentia que tinha prejudicado o Flamengo, insistindo tanto para jogar. O negocio era Carlos Alberto voltar e tentar tirar um jogador do Bangu. Mas Carlos Alberto era um garoto muito puro, jamais faria um negocio desses.

Pelo rumo que as coisas tomaram no primeiro tempo, a goleada era inevitável. Havia um ambiente de revolta no vestiário. O diretor de futebol do Flamengo, Flávio Soares de Moura estava indignado, percebera que o Bangu armara um esquema para ganhar o titulo de qualquer maneira. Ele me fez uma pergunta não como dirigente, mas como torcedor:
– Almir, eles vão dar volta olímpica?
– Não vai ter volta olímpica não, seu Flávio. Só se for do Flamengo.

Foi com essa disposição que nós voltamos para o segundo tempo. Logo aos três minutos, ficamos grogues com outro gol do Bangu. Houve um lançamento em profundidade para Paulo Borges que fez uma jogada sensacional e marcou um dos mais bonitos gols da história do maracanã. Três minutos, Bangu 3x0. Era o fim. Com nove contra onze, e mais o juiz Sansão, o Flamengo ia sofrer uma goleada humilhante. Além de nos golear o Bangu queria ensaiar um baile. Eu já estava com raiva, e o sangue subiu á cabeça por volta dos 25 minutos quando o jogador Ladeira do Bangu discutiu com Paulo Henrique e deu um soco na cara dele. Aquilo era o fim da picada. Logo o Paulo Henrique, um jogador disciplinado, uma dama dentro do campo.

O incidente se deu longe do Sansão, que interrompeu o jogo para perguntar ao bandeirinha o que tinha acontecido. Enquanto Ladeira e Paulo Henrique era apartados pelos jogadores, eu corri para lá a fim de pedir explicações ao Ladeira. Mas Ladeira não esperou. Viu que eu estava uma fera, saiu correndo, eu fui atrás dele para dar-lhe uma surra. No meio do caminho, o nosso zagueiro Itamar, um mulato de um metro e noventa de altura, deu um salto e meteu o pé com vontade no peito de Ladeira. Ele caiu, eu vinha na corrida, fui logo chutando. A essa altura o campo era uma zorra. Recebi o troco na hora. Como os banguenses queriam brigar, topei a parada. Olhei os bolos de jogadores e disse comigo mesmo:
- Tudo o que estiver com camisa de listras brancas e vermelhas é inimigo. Comecei a distribuir socos e pontapés.

O incidente ia ficar nisso. O juiz Sansão discutia com o nosso técnico Armando Reganeschi enquanto Ladeira era retirado de campo na maca. Eu sabia que estava expulso, sai de campo em companhia do nosso goleiro Franz, que estava no banco, pois era permitida a substituição do goleiro. Ao passar pela boca do túnel do Flamengo, recebi uma ordem, não quis nem ver quem estava dando:
- Volta, Almir! Acaba de vez com esta palhaçada!

Eu voltei para o centro do campo para que Sansão confirmasse que estava expulso. Assim que voltei, a torcida do Flamengo, mais de 100 mil presentes, começou a gritar:
- Por-ra-da ! Por-ra-da ! Por-ra-da !
Ubirajara, goleiro do Bangu, veio com uma de valente:
- Lá fora vamos resolver isso.
- Você pega nada rapaz. É pra já, então!
Disse isto e dei-lhe um soco do estômago. Ele caiu e se levantou para revidar. O Ari Clemente aproveitou e me dei um soco. Eu estava cercado por jogadores do Bangu, mas fui enfrentando todos eles. E todo mundo entrou na briga. Veio a policia e acabou com a festa. O juiz Airton Vieira de Moraes acabou cumprindo o seu papel: expulsou cinco jogadores do Flamengo e quatro do Bangu. Com isso, o Flamengo ficava com menos de sete jogadores no campo, o jogo não podia prosseguir. Sansão deu a partida por encerrada, e o Bangu campeão."


* Fausto Neto e Mauricio Azedo, na época, eram jornalistas da revista Placar

** Fotos: Canal 100 de Carlos Niemayer