07/07/2007
Ano 11 - Número 536


 

ARQUIVO
MEMÓRIA DO ESPORTE

Olhares sobre a Seleção

* Eugenio Goussinsky e João Carlos Assumpção

Desenho de Mario Alberto
O dia 21 de julho de 1914 não foi uma data qualquer: nesse dia teve início a história da Seleção Brasileira de futebol. Um caso de amor com o povo brasileiro que se desenrolaria em paralelo à própria história do país.

Praticado pela elite da população, o esporte mantinha, no início do século, um caráter estritamente amador. O jogador típico possuía um perfil aristocrático. A maioria era formada por estudantes, filhos de pais ricos, descendentes de famílias que fizeram fortunas com plantações de café. Os principais valores encontravam-se nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Nada mais natural, portanto, que um combinado de paulistas e cariocas compusesse o primeiro selecionado de futebol do país.

Nada mais natural, também, que o primeiro adversário saísse da Inglaterra, berço do futebol. Afinal, desde que esse esporte foi introduzido no Brasil por Charles Miller, em 1894, a influência dos ingleses era perceptível até na atuação da imprensa esportiva. Scratch, half, offside, goal e match eram palavras facilmente encontradas em textos jornalísticos que tratavam do esporte.


O COMBINADO RIO - SP

Uma excursão do Exeter City, um time inglês de futebol profissional, ao Rio de Janeiro, fez cariocas e paulistas se unirem para mostrar que poderiam superar em campo os inventores do futebol.

Depois de ver o Exeter derrotar um conjunto de ingleses que jogavam em equipes do Rio por 1 a O e a própria seleção carioca por 5 a 3, a Liga Metropolitana, que congregava os principais times do estado do Rio de Janeiro, pediu ajuda à Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea).

As duas entidades montaram, então, a primeira Seleção Brasileira de futebol, um combinado de atletas que jogavam no Rio e em São Paulo, para fazer frente à equipe inglesa.

Rubens Salles (Paulistano), Sylvio Lagreca (São Bento), Aphrodísio Xavier - o Formiga - (Ypiranga) e Arthur Friedenreich (Ypiranga), viajaram de trem de São Paulo ao Rio. Marcos (Fluminense), Píndaro (Flamengo), Lagreca (São Bento), Rubens (Paulistano), Rolando (Botafogo), Abelardo (Botafogo), Osvaldo Gomes (Fluminense), Friedenreich (Ypiranga), Osman (América-RJ) e Formiga (Ypiranga) entraram no antigo campo do Fluminense, nas Larajeiras,  rua Guanabara, 94, para desafiar o Exeter City.

Mirrados, bem menores do que os altos e fortes atletas ingleses, os brasileiros usaram o toque de bola para envolver os adversários, que passaram a apelar para a violência. Nervosos com as trocas de passes dos brasileiros, quatro ingleses ameaçaram abandonar o campo, em meio ao entusiasmo da platéia. Foram convencidos a prosseguir no jogo por Lagreca, Rubens e pelo Juiz Robinson.

Da guerra ninguém saiu ileso. Friedenreich, por exemplo, deixou o gramado com dois dentes a menos. No meio do jogo, ele saiu de campo ensangüentado e voltou após receber curativos. Mas nem por isso deixou de comemorar os 2 a O; gols de Osman e Osvaldo Gomes, a primeira vitória do selecionado brasileiro. O técnico da estréia, numa época em que os próprios jogadores costumavam assumir o comando do time "fora do campo", foi o médio Lagreca.

A vitória da Seleção deixou a torcida, no Rio de Janeiro e em outros estados brasileiros, eufórica. No final da partida, os jogadores foram carregados pelos torcedores. No regresso a São Paulo, os paulistas foram homenageados em um banquete promovido pelo clube Ypiranga, que completava oito anos.

Comemorações à parte, o triunfo brasileiro serviu para diminuir as diferenças entre cariocas e paulistas, que já viviam às turras para comandar uma federação nacional.


A VIAGEM À ARGENTINA

Em 16 de setembro, a Seleção faria sua primeira excursão ao exterior: de navio, a chamada "embaixada brasileira de esportes", formada por dirigentes, jogadores e árbitros, embarcou no Alcântra para participar, na Argentina, da Copa Roca.

Disputada somente por brasileiros e argentinos e idealizada pelo general portenho Júlio Roca, grande admirador do futebol, a Copa Roca ajudou a escrever muitas páginas da história do futebol sul-americano ao retratar a dificuldade do Brasil em superar a tradição, a força e o romantismo argentinos, marcas registradas do estilo adversário.

O primeiro confronto oficial, marcado para 20 de setembro, um domingo, foi adiado por causa da chuva. Mas, para não decepcionar os torcedores que esperavam pela partida, os organizadores da Copa Roca decidiram realizar um amistoso entre brasileiros e argentinos, vencido por estes últimos por 3 a 0.

Ao Brasil, que viajava com um chefe de delegação paulista e outro carioca, pelo menos coube a desculpa do desgaste da viagem até a Argentina. Segundo Raul Guimarães, chefe da delegação paulista, um violento temporal atrapalhou a travessia. Além do que o campo estava encharcado e os jogadores, cansados.

Como a Seleção tinha uma semana para esperar até o jogo oficial, os dirigentes decidiram marcar um amistoso contra Colômbia, time universitário local com jogadores' de bom nível técnico. A vitória, 3 a 1, revitalizou o espírito dos brasileiros.


A PRIMEIRA MÃO DE DEUS E A BOMBA DE RUBENS

Nem Túlio, nem Maradona. Foi o argentino Leonardi que, em 27 de setembro de 1914, na estréia da Copa Roca, utilizou a mão para desviar a bola e marcar um gol contra o Brasil. O juiz brasileiro Alberto Borghert não  percebeu a irregularidade e confirmou o gol.

Mas, diferentemente de Maradona na Copa do Mundo de 1986 e de Túlio na Copa América de 1995, Leonardi e seus companheiros avisaram o árbitro de que o gol fora ilegal.

Quando o juiz voltou atrás e anulou o gol argentino, os torcedores locais aplaudiram, reconhecendo o ato cavalheiresco de Leonardi.

Os brasileiros venceram por 1 a 0, a primeira vitória oficial em território estrangeiro. O autor do gol foi o centro-médio Rubens Salles, que, após a deixa de Friedenreich, veio de trás e, da entrada da área, acertou um chute que foi parar no fundo das redes.

- Quando a bola veio da direita e eu me preparei para concluir, ouvi o grito do Rubens: Deixa!... e eu deixei. Ele encheu o pé, e a bola partiu a meia altura, como um tiro de canhão. Ritner, o goleiro argentino, nem viu por onde passou. Eu só vi a rede balançar e pulei de emoção e alegria. Rubens nem podia falar, coitado ­ contou Friedenreich sobre a primeira conquista brasileira.
 


* Eugenio Goussinsky, jornalista e pesquisador de futebol e João Carlos Assumpção, jornalista, são autores do livro  "Deuses da Bola - Histórias da Seleção Brasileira de Futebol".