|
Julinho Botelho, talento e ética
*
Nelson Cilo e Luciano Piccazio Ornelas
Mais de 100 mil pessoas o rejeitavam no Maracanã. E em apenas 15 minutos
Julinho Botelho calou o estádio.
Eu achava, nos meus tempos de menino, que os ídolos eram imortais. É claro que
eles não morrem jamais na memória dos torcedores. Eu pensava, porém, que os
gênios da minha imaginação continuariam definitivamente nos estádios.
Em corpo e alma. Pura ilusão de criança. Mais tarde, percebi, constrangido,
que não era nada disso. Às vezes, a gente relembra trechos das velhas cenas
para reprisá-las nas conversas de botequins. Então, surgem os inevitáveis
exageros. De repente, misturam-se a fantasia e a realidade. Só que os mitos
permanecem. Como Garrincha e Pelé. A geração de ambos não admite comparações.
Até hoje, o Rei não sai das manchetes.
De vez em quando, as pessoas revivem curiosidades de Mané, aquele
inconfundível ponta das pernas tortas, que nunca decorava os nomes dos
laterais estrangeiros — os "Joões" dos confins do planeta. Hoje, quero falar
de mais um importante personagem da história do futebol mundial. Garrincha me
serviu de pretexto para que eu conte um pouco de Julinho Botelho, que se
encontra abandonado numa cadeira de rodas.
 Ele não anda na miséria, mas não conseguiu juntar R$ 25 mil para o pagamento
de um caríssimo aparelho que seria colocado no coração. A família chegou a
oferecer garantias não aceitas pelos médicos. Segundo Alfredo Mostarda,
ex-zagueiro do Palmeiras, que me relatou o caso, a diretoria do alviverde não
respondeu à sugestão para que o clube promovesse um torneio contra a
Portuguesa de Desportos e a Fiorentina. Aliás, as três equipes que o ex-craque
— implacável sombra de Mané Garrincha — defendeu nos anos 50/60.
O dinheiro arrecadado seria entregue ao hospital. Estamos em 1959. Confesso
que não vi, mas li. Também me contaram. Ao surgir no túnel do Maracanã para
substituir Garrincha num Brasil versus Inglaterra, Julinho Botelho ouviu um
barulho indescritível — odiosamente orquestrado nas arquibancadas. Mais de 100
mil pessoas o rejeitavam. É lógico que pediam Mané. Em apenas 15 minutos de
muita velocidade pela direita — driblava sempre em linha reta para alcançar a
linha-de-fundo — Julinho Botelho calou o estádio.
As vaias viraram aplausos. Às vésperas do Mundial de 1962, o grande ponta
comunicou ao técnico Aimoré Moreira que não tinha condições de participar da
Copa do Chile. As dores no joelho antecipariam o fim da carreira. "Vá assim
mesmo. Tua simples presença incentiva o grupo", insistiu Aimoré. Ao que
Julinho respondeu. "Não posso prejudicar a seleção. Leve o menino "Jair da
Costa", retrucou.
Quando Júlio Botelho entrou em campo, a expectativa de mais de 100 mil
torcedores no Maracanã era de que ele fracassasse, mesmo vestindo na ocasião a
camisa sete do Brasil.
Era cinco de maio de 1959 e o Brasil, recém-campeão mundial, recebia em casa a
seleção da Inglaterra para uma partida amistosa.
Ponta-direito de qualidade inquestionável, naquela partida o jogador sofria
pressão da torcida carioca porque quem amargava o banco de reservas de sua
posição era ninguém menos que o botafoguense Mané Garrincha.
Ao entrar no gramado e ser anunciado pelo locutor como o titular, Julinho
recebeu vaias de toda torcida presente no estádio (protesto que estava sendo
preparado há uma semana). Mas, não fosse por ele ter tropeçado no último
degrau das escadarias quando subiu ao campo, ninguém diria que realmente as
ouviu.
Quem impediu que ele caísse foi o goleiro da Inglaterra, que o segurou. Mas o
que lhe deu forças de verdade foi o conselho ao pé do ouvido dado pelo
companheiro Nilton Santos: "Vai lá e faz eles engolirem essa vaia".
Julinho obedeceu. Cinco minutos de jogo fez jogada na ponta direita e marcou o
primeiro. Dez minutos depois deu passe pra Henrique fazer o segundo. Final:
Brasil 2 a 0. Saiu aplaudido pela mesma torcida que não o queria em campo e,
na manhã seguinte, os jornais ingleses anunciavam: "O Brasil agora tem dois
Garrinchas".
Flecha Dourada - Flecha Dourada, como foi apelidado pelo narrador Geraldo José
de Almeida, Julinho havia recusado, no ano anterior, em 1958, o convite do
técnico Vicente Feola para integrar a seleção brasileira na Copa do Mundo da
Suécia. Elegante, o ponta, titular da Fiorentina, da Itália, justificou
afirmando que, como jogava fora do país, sua escalação poderia parecer uma
injustiça para com os atletas que atuavam no Brasil. Foi aí que o mundo
conheceu Garrincha, fundamental para a conquista do mundial canarinho.
O começo - Mal aproveitado pelo Corinthians quando tinha 19 anos (queriam que
ele fosse jogar na ponta esquerda, em vez da direita), Julinho foi logo
contratado pelo Juventus, em 1950. Ficou lá apenas seis meses, quando foi para
a Portuguesa. Era uma equipe fantástica, onde jogava ao lado de Djalma Santos,
Brandãozinho e Pinga, todos atletas de seleção brasileira. Com eles, ganhou o
Rio-São Paulo de 1954.
Neste ano, o jogador foi com a seleção brasileira disputar a Copa do Mundo da
Suíça e, mesmo perdendo nas oitavas-de-final para a Hungria, foi eleito o
melhor ponta-direito da competição.
Em 1956 foi para a Fiorentina, onde é reverenciado até os dias de hoje. A
equipe nunca havia ganho um título nacional, e com ele venceu a temporada de
55/56, sendo ainda vice dois anos seguintes.
Julinho quis voltar para o Brasil, só que a Fiorentina ainda o amava. Ela fez
uma proposta irrecusável e ele ficou. Ficou por mais um ano, só pensando em
voltar. Por este período ganhou o apelido de "Senhor Tristeza".
Quando voltou em definitivo para o Brasil, veio jogar no Palmeiras, onde atuou
de 58 a 67 e ganhou o Campeonato Paulista de 59 e 63, a Taça Brasil
(Campeonato Brasileiro à época) em 1960, duas vezes o Rio-São Paulo, em 65 e
67, além da Copa Roca, pela seleção brasileira, em confronto direto com a
Argentina, em 1960.
Foi no próprio Palmeiras, seu time de coração, que se despediu do futebol.
O caso de amor com a Fiorentina - O clube que o atleta lembrava com mais
felicidade, porém, era a Fiorentina. Lá era tratado com tanto carinho pela
torcida que, quando morreu, muitas bandeiras da equipe foram enviadas à
família, e muitos torcedores do time que viviam em São Paulo compareceram ao
enterro.
Certa vez, quando andava de trem na Itália, precisou passar a viagem inteira
escondido no banheiro para evitar o assédio dos fãs. E o apreço dos italianos
por Julinho não parava por aí. Em 2003, quando o já ex-jogador estava
internado na UTI em São Paulo, os dirigentes italianos ligavam com freqüência
para a família, para saber a respeito de seu estado de saúde.
Rio Branco, na Penha - Depois que parou de jogar, Julinho ainda treinou as
categorias de base da Portuguesa, Palmeiras e Corinthians, mas largou tudo
para se dedicar ao clube de futebol de várzea que fundou, o Rio Branco, no
bairro onde nasceu e morreu, a Penha.
Ele morreu de parada cardiorrespiratória dia 11 de janeiro de 2003, no
Hospital Nossa Senhora da Penha, em São Paulo, aos 73 anos de idade.
Raio-X
Nome: Julio Botelho
Apelido: Julinho Botelho
Nascimento: São Paulo -SP.
Data: 29/07/1930 - 10/01/2003
Clubes: Portuguesa, Fiorentina, Palmeiras e Corinthians. Participou de 31
partidas pela seleção brasileira.
Como treinador: Treinou as categorias de base da Portuguesa, Palmeiras e
Corinthians.
Títulos: Campeão italiano - 56 e paulista - 59 e 63
* Nelson Cilo
e Luciano Piccazio Ornelas são jornalistas da Gazeta Press
|