21/07/2007
Ano 11 - Número 538


 

ARQUIVO
MEMÓRIA DO ESPORTE

Julinho Botelho, talento e ética

* Nelson Cilo e Luciano Piccazio Ornelas


memória do esporte - Julinho BotelhoMais de 100 mil pessoas o rejeitavam no Maracanã. E em apenas 15 minutos Julinho Botelho calou o estádio.

Eu achava, nos meus tempos de menino, que os ídolos eram imortais. É claro que eles não morrem jamais na memória dos torcedores. Eu pensava, porém, que os gênios da minha imaginação continuariam definitivamente nos estádios.

Em corpo e alma. Pura ilusão de criança. Mais tarde, percebi, constrangido, que não era nada disso. Às vezes, a gente relembra trechos das velhas cenas para reprisá-las nas conversas de botequins. Então, surgem os inevitáveis exageros. De repente, misturam-se a fantasia e a realidade. Só que os mitos permanecem. Como Garrincha e Pelé. A geração de ambos não admite comparações. Até hoje, o Rei não sai das manchetes.

De vez em quando, as pessoas revivem curiosidades de Mané, aquele inconfundível ponta das pernas tortas, que nunca decorava os nomes dos laterais estrangeiros — os "Joões" dos confins do planeta. Hoje, quero falar de mais um importante personagem da história do futebol mundial. Garrincha me serviu de pretexto para que eu conte um pouco de Julinho Botelho, que se encontra abandonado numa cadeira de rodas.


memória do esporte - Julinho Botelho

Ele não anda na miséria, mas não conseguiu juntar R$ 25 mil para o pagamento de um caríssimo aparelho que seria colocado no coração. A família chegou a oferecer garantias não aceitas pelos médicos. Segundo Alfredo Mostarda, ex-zagueiro do Palmeiras, que me relatou o caso, a diretoria do alviverde não respondeu à sugestão para que o clube promovesse um torneio contra a Portuguesa de Desportos e a Fiorentina. Aliás, as três equipes que o ex-craque — implacável sombra de Mané Garrincha — defendeu nos anos 50/60.

O dinheiro arrecadado seria entregue ao hospital. Estamos em 1959. Confesso que não vi, mas li. Também me contaram. Ao surgir no túnel do Maracanã para substituir Garrincha num Brasil versus Inglaterra, Julinho Botelho ouviu um barulho indescritível — odiosamente orquestrado nas arquibancadas. Mais de 100 mil pessoas o rejeitavam. É lógico que pediam Mané. Em apenas 15 minutos de muita velocidade pela direita — driblava sempre em linha reta para alcançar a linha-de-fundo — Julinho Botelho calou o estádio.

As vaias viraram aplausos. Às vésperas do Mundial de 1962, o grande ponta comunicou ao técnico Aimoré Moreira que não tinha condições de participar da Copa do Chile. As dores no joelho antecipariam o fim da carreira. "Vá assim mesmo. Tua simples presença incentiva o grupo", insistiu Aimoré. Ao que Julinho respondeu. "Não posso prejudicar a seleção. Leve o menino "Jair da Costa", retrucou.

Memória do esporte - Julinho BotelhoQuando Júlio Botelho entrou em campo, a expectativa de mais de 100 mil torcedores no Maracanã era de que ele fracassasse, mesmo vestindo na ocasião a camisa sete do Brasil.

Era cinco de maio de 1959 e o Brasil, recém-campeão mundial, recebia em casa a seleção da Inglaterra para uma partida amistosa.

Ponta-direito de qualidade inquestionável, naquela partida o jogador sofria pressão da torcida carioca porque quem amargava o banco de reservas de sua posição era ninguém menos que o botafoguense Mané Garrincha.

Ao entrar no gramado e ser anunciado pelo locutor como o titular, Julinho recebeu vaias de toda torcida presente no estádio (protesto que estava sendo preparado há uma semana). Mas, não fosse por ele ter tropeçado no último degrau das escadarias quando subiu ao campo, ninguém diria que realmente as ouviu.

Quem impediu que ele caísse foi o goleiro da Inglaterra, que o segurou. Mas o que lhe deu forças de verdade foi o conselho ao pé do ouvido dado pelo companheiro Nilton Santos: "Vai lá e faz eles engolirem essa vaia".

Julinho obedeceu. Cinco minutos de jogo fez jogada na ponta direita e marcou o primeiro. Dez minutos depois deu passe pra Henrique fazer o segundo. Final: Brasil 2 a 0. Saiu aplaudido pela mesma torcida que não o queria em campo e, na manhã seguinte, os jornais ingleses anunciavam: "O Brasil agora tem dois Garrinchas".

Flecha Dourada - Flecha Dourada, como foi apelidado pelo narrador Geraldo José de Almeida, Julinho havia recusado, no ano anterior, em 1958, o convite do técnico Vicente Feola para integrar a seleção brasileira na Copa do Mundo da Suécia. Elegante, o ponta, titular da Fiorentina, da Itália, justificou afirmando que, como jogava fora do país, sua escalação poderia parecer uma injustiça para com os atletas que atuavam no Brasil. Foi aí que o mundo conheceu Garrincha, fundamental para a conquista do mundial canarinho.

O começo - Mal aproveitado pelo Corinthians quando tinha 19 anos (queriam que ele fosse jogar na ponta esquerda, em vez da direita), Julinho foi logo contratado pelo Juventus, em 1950. Ficou lá apenas seis meses, quando foi para a Portuguesa. Era uma equipe fantástica, onde jogava ao lado de Djalma Santos, Brandãozinho e Pinga, todos atletas de seleção brasileira. Com eles, ganhou o Rio-São Paulo de 1954.

Neste ano, o jogador foi com a seleção brasileira disputar a Copa do Mundo da Suíça e, mesmo perdendo nas oitavas-de-final para a Hungria, foi eleito o melhor ponta-direito da competição.

Em 1956 foi para a Fiorentina, onde é reverenciado até os dias de hoje. A equipe nunca havia ganho um título nacional, e com ele venceu a temporada de 55/56, sendo ainda vice dois anos seguintes.
Julinho quis voltar para o Brasil, só que a Fiorentina ainda o amava. Ela fez uma proposta irrecusável e ele ficou. Ficou por mais um ano, só pensando em voltar. Por este período ganhou o apelido de "Senhor Tristeza".

Quando voltou em definitivo para o Brasil, veio jogar no Palmeiras, onde atuou de 58 a 67 e ganhou o Campeonato Paulista de 59 e 63, a Taça Brasil (Campeonato Brasileiro à época) em 1960, duas vezes o Rio-São Paulo, em 65 e 67, além da Copa Roca, pela seleção brasileira, em confronto direto com a Argentina, em 1960.

Foi no próprio Palmeiras, seu time de coração, que se despediu do futebol.

O caso de amor com a Fiorentina - O clube que o atleta lembrava com mais felicidade, porém, era a Fiorentina. Lá era tratado com tanto carinho pela torcida que, quando morreu, muitas bandeiras da equipe foram enviadas à família, e muitos torcedores do time que viviam em São Paulo compareceram ao enterro.

Certa vez, quando andava de trem na Itália, precisou passar a viagem inteira escondido no banheiro para evitar o assédio dos fãs. E o apreço dos italianos por Julinho não parava por aí. Em 2003, quando o já ex-jogador estava internado na UTI em São Paulo, os dirigentes italianos ligavam com freqüência para a família, para saber a respeito de seu estado de saúde.

Rio Branco, na Penha - Depois que parou de jogar, Julinho ainda treinou as categorias de base da Portuguesa, Palmeiras e Corinthians, mas largou tudo para se dedicar ao clube de futebol de várzea que fundou, o Rio Branco, no bairro onde nasceu e morreu, a Penha.

Ele morreu de parada cardiorrespiratória dia 11 de janeiro de 2003, no Hospital Nossa Senhora da Penha, em São Paulo, aos 73 anos de idade.


Raio-X

Nome: Julio Botelho
Apelido: Julinho Botelho
Nascimento: São Paulo -SP.
Data: 29/07/1930 - 10/01/2003
Clubes: Portuguesa, Fiorentina, Palmeiras e Corinthians. Participou de 31 partidas pela seleção brasileira.
Como treinador: Treinou as categorias de base da Portuguesa, Palmeiras e Corinthians.
Títulos: Campeão italiano - 56 e paulista - 59 e 63

 
* Nelson Cilo e Luciano Piccazio Ornelas são jornalistas da Gazeta Press