|
Botafogo ao Mar
Roberto Porto
Hoje em dia, após aplicado exercício de reflexão, este repórter passou a ter a
mais completa e absoluta das certezas de que Miguel de Cervantes (1547-1616) e
William Shakespeare (1564-1616) foram cidadãos dotados de poderes
premonitórios. Por que, haverão de perguntar os leitores? Pois bem: é de
Cervantes a frase "Não creio em bruxarias, mas que elas existem, existem". E é
de Shakespeare, por sua vez, a sentença "Há mais coisas entre o céu e a terra
do que possa supor a nossa vã filosofia". Em poucas e resumidas palavras, o
espanhol e o inglês, com séculos de antecedência, previram o surgimento no
Brasil do clube da estrela solitária e da máxima que o acompanha; "Há coisas
que só acontecem ao Botafogo", de autoria desconhecida, pelo menos até o
momento.
Em 1955, após vitoriosa excursão à Europa, a delegação do Botafogo voltou ao
Brasil de navio, após os jogadores terem visitado o local onde o avião do
Torino chocara-se com uma montanha, matando toda a delegação que retomava de
um jogo pela Copa da Europa em Lisboa. Tomados de
pavor, os jogadores pediram ao chefe da delegação, o jornalista Sandro Moreyra
(1919-1987), que permitisse a substituição do Constellation da Panair
do Brasil pelo transatlântico Conte Grande. Sandro percebeu que, caso
não concordasse, os jogadores não embarcariam. Ocorrida há 52 anos, esta é a
história do dia em que o Botafogo fez-se ao mar, não para honrar o nome
regatas que carrega em sua identidade. Mas por um profundo medo de avião.
Só ao Botafogo acontecem certas coisas...

Sandro Moreyra, um chefe de delegação muito amigo
O Campeonato Carioca de 1954 só foi terminar em fevereiro de 1955 e o Botafogo
ficara mal colocado. E logo após a recontratação de Zezé Moreira, para dar um
jeito no departamento de futebol, o clube tinha pela frente um sério
compromisso: uma exaustiva excursão à Europa, acertada pelo empresário José da
Gama, com nada menos de 18 jogos a cumprir em curto espaço de tempo. É óbvio
que o treinador pouco ou nada pôde fazer. Formou um grupo, convocou alguns
reservas imediatos e tomou o rumo do Velho Mundo. A base da equipe era a do
ano anterior, ou seja, Gilson (Lugano), Orlando Maia, Gérson dos Santos
(Thomé) e Nilton Santos; Pampolini (Danilo) e Juvenal; Garrincha (Neivaldo),
Ituarinho, Vinícius, Dino e Hélio (Quarentinha).
A chefia da delegação, estrategicamente, foi entregue ao jornalista e
benemérito do clube Sandro Moreyra. Por que estrategicamente? Porque Sandro,
além de cobrir o clube diariamente para o Diário da Noite, tinha comprovada
ascendência sobre os jogadores. E a diretoria do Botafogo estava cansada de
saber que não bastariam Zezé Moreira e Paulo Amaral, que fariam o papel dos
durões, para controlar um grupo tão heterogêneo por quase três meses de
perambulação européia. Sandro sabia lidar com os jogadores e tinha especial
relação com dois dos maiores astros daquele time: Nilton Santos e Garrincha.
Na verdade, porém, todos eram seus amigos e o respeitavam. Ele era uma
espécie de homem da alta sociedade metido no curioso mundo do futebol.
Na delegação que viajou às pressas para a Espanha, com estréia marcada contra
o poderoso Real Madrid, no Estádio Santiago Bernabeu, viajavam três jogadores
com extraordinária vocação de artilheiros: Dino da Costa, goleador do
Campeonato Carioca de 1954 com 24 gols, apesar das más atuações do Botafogo;
Luiz Vinícius de Menezes, que viera fugido de Minas Gerais e se escondera em
General Severiano até sua situação ser regularizada; e nada menos do que
Valdir Cardoso Lebrêgo, o Quarentinha, até hoje o maior artilheiro da história
do clube. Estava para começar ali, dia 20 de maio de 1955, em Madri, uma das
mais gloriosas façanhas do Botafogo, infelizmente hoje relegada ao limbo do
esquecimento.
Time quase chega atrasado à primeira partida em Madri
O avião que conduziu a delegação do Botafogo até a Europa, um pesado e
resfolegante Constellation da Panair do Brasil, chegou ao Aeroporto de
Barajas, em Madrid, com horas de atraso. A rigor, pode-se dizer que o Real
Madrid já estava em campo enquanto os jogadores do Botafogo tiravam o paletó e
a gravata do terno de viagem e colocavam às pressas o uniforme. O torcedor
madrileno já começara uma sonora vaia, reclamando do atraso, quando o
Botafogo, com Lugano (goleiro reserva) e Dino da Costa à frente, entrou em
campo carregando a bandeira espanhola. Foi um sucesso. Vieram os aplausos, que
se transformariam em espanto ao final da partida, quando os brasileiros, mais
mortos do que vivos, arrancaram um inesperado empate de 2 a 2.
Ao longo das 18 partidas, o Botafogo jogou na Espanha, França, Dinamarca,
Holanda, Suíça, Itália e Tchecoslováquia. Mas não havia lógica no roteiro, ou
seja, o time atuava na Espanha, viajava para a França, regressava novamente
para cumprir um compromisso na mesma Espanha e assim por diante. Foram ao todo
12 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas, uma para o Tenerife (2 a
1), na costa da África, e outra para o Racing de Paris (4 a 2). Lá pelas
tantas, perdido em viagens de trem, ônibus e aviões, sem a mínima idéia de
idiomas, países e atormentado com a diferença do fuso horário, o
ponteiro-esquerdo Hélio - que tinha o apelido de Boca de Sandália - perdeu a
noção de tempo e espaço. Já não sabia quando havia deixado o Brasil.
A história, obviamente, foi contada a este repórter pelo brilhante Sandro e,
como tal, vou passá-la na íntegra aos leitores. Um certo dia, cabisbaixo,
Hélio aproximou-se de Sandro e perguntou: "Chefe, há quanto tempo estamos
viajando?" Sandro foi curto na resposta: "Dois anos, Hélio". Simplório ao
extremo, o jogador se queixou: "Olha, seu Sandro: a essa altura minha mulher e
meus filhos, lá em Olaria, devem estar pensando que eu morri". De imediato, o
chefe da delegação alvinegra encontrou a solução: "Escreve uma carta para a
família, rapaz...". Foi então que Hélio apresentou um problema insolúvel: "O
caso, seu Sandro, é que nós estamos viajando há tanto tempo que esqueci o
endereço de casa..."
Um passeio turístico dos mais sinistros em Superga
O mais grave, porém, estava para ocorrer. Na manhã seguinte à brilhante
vitória do Botafogo por 4 a 0 sobre o combinado Juventus-Torino, em Turim, um
guia turístico teve a infeliz idéia de levar a delegação brasileira à Basílica
de Superga, numa elevação nas proximidades da cidade. Lá, em 1949, o avião do
Torino espatifara-se na montanha, depois de bater de raspão com a asa na torre
da basílica. Não houve sobreviventes no acidente que entrou para a história do
futebol como a Tragédia de Superga. No ano seguinte, 1950, a delegação da
Azzurra que participou da Copa do Mundo no Brasil exigiu viajar de navio. Em
1955, permaneciam na lembrança de todos os italianos - povo sentimental - os
queridos jogadores do Torino.
Durante a visita à Superga, ocorreu uma surpresa desagradabilíssima: em torno
da basílica, com a torre já reconstruída, ambulantes vendiam, como recordação
turística aos visitante, pedaços do avião que conduzira o Torino à morte. Aqui
era um pneu, ali um enegrecido de uma poltrona, mais adiante parte da
fuselagem (previamente dividida em dezenas de pedaços), fotos dos cadáveres
carbonizados dos jogadores, objetos pessoais encontrados nos destroços, enfim,
um sinistro e lúgubre comércio, digno de um dos filmes de terror do escritor
americano Stephen King. O resultado? Pânico nas hostes alvinegras. Os
jogadores, ainda com compromissos a cumprir na Tchecoslováquia, tremiam de
pavor com a aproximação da viagem aérea de volta.
De volta ao hotel, depois do jantar, uma comissão formada por Nílton Santos,
Danilo (ex-Vasco), Thomé, Pampoline e Neivaldo, os mais bem informados do
grupo, procurou Sandro Moreyra. Não houve um xeque-mate, porque o chefe da
delegação, embora afável, não toleraria insubmissão. Mas os jogadores queriam
fazer um apelo: voltar ao Brasil de navio. Com mais quatro partidas para
cumprir na Tchecoslováquia, Sandro cedeu. O Botafogo viajaria a bordo de um
transatlântico que partiria de Bolonha. Os jogadores vibraram e, nos jogos
restantes, o time venceu três e empatou o último, em Ostrawa, diante do Banik.
E Sandro Moreyra teve que honrar a palavra empenhada. O Botafogo retornaria da
Europa singrando, por duas semanas, o Oceano Atlântico.
A Coca-Cola de Garrincha virou Cuba-Libre no navio
O sucesso do Botafogo em gramados europeus foi de tal ordem que o clube faria
ainda mais duas longas excursões ao Velho Mundo: 1956 (22 jogos) e 1959 (15
partidas). Daí em diante, ano a ano, abriu-se para o clube o mercado
latino-americano, até porque multiplicaram-se as competições européias,
desaparecendo as datas livres. Mas a série de vitórias de 1955 traria um grave
problema ao alvinegro. Carecido de recursos, o Botafogo vendeu os passes de
Dino da Costa (Roma) e Vinícius (Nápoles) para o futebol italiano. Até o
amadurecimento de Quarentinha e o surgimento de Paulo Valentim, os torcedores
alvinegros sofreram com atacantes como Casnock, Arlindo Baiaco, Gato e muitos
outros dos quais nem mesmo fotografias restaram nos arquivos.
Conta o folclore - e às vezes a versão é mais deliciosa do que o fato em si -
que a viagem a bordo do Conte Grande foi uma maravilha. A bordo de um
navio de luxo, alojados em confortáveis camarotes, os jogadores conviveram 14
longos dias
com milionários excêntricos, belas turistas estrangeiras, louras
descompromissadas e desfrutáveis, e muitos drinques finos. Garrincha, por
exemplo, estava sempre com uma garrafa de Coca-Cola nas mãos, sorvendo
alegremente seu refrigerante. Só que, após subornar o garçom, a Coca-Cola
misturada ao rum se transformava numa saborosa "Cuba-Libre", a bebida da moda.
Exercícios? Sim, Paulo Amaral diariamente comandava uma sessão ao lado da
piscina, sob o atento olhar do técnico Zezé Moreira, que não queria craques
gordos.
Mas a verdade é que sem Dino e Vinícius, com Quarentinha emprestado ao
Bonsucesso, o Botafogo cumpriu uma campanha desastrosa no Campeonato Carioca
de 1955, no qual o Flamengo obteve o primeiro tri da história do Maracanã. No
ataque, Garrincha era o que se podia classificar de uma estrela solitária. E o
resultado é que nem mesmo para o terceiro turno o alvinegro se classificou,
superado pelo modesto Bonsucesso. Só no ano seguinte, 1956, sob inspiração de
João Saldanha, o Botafogo começou a se recuperar, contratando Didi, o
argentino Alarcón e o paraguaio Cañete, além de escalar Paulo Valentim no
comando do ataque. Mas o tão desejado primeiro título na Era Maracanã só viria
em 1957, sob o comando do próprio João Saldanha.
Roberto Porto é jornalista.
|