11/08/2007
Ano 11 - Número 541


ARQUIVO
MEMÓRIA DO ESPORTE

A história de um frango

Mario Filho –
(Globo Sportivo de 1950)


Jogo Botafogo x Canto do Rio

AriNada de barreira. Para que barreira, se Alcebíades estava cerca de quarenta metros e quase não tinha força para levantar a perna? Ari abriu os braços, mandou Caeira mais para lá. Borges mais para cá. Assim, ele podia ver Alcebíades melhor. Pobre Alcebíades. Fioravante Dangelo soprou o apito. Alcebíades fez uma força danada para levantar a perna, o pé dele bateu na bola e lá veio a bola devagarzinho. Talvez, pensou Ari, ela não chegue até cá. Sim, talvez ele, Ari, precisasse sair do gol para apanhar a bola. Devagar se vai ao longe, reza o ditado, e a bola comeu os quarenta metros de grama, chegou perto de Ari. Ari abriu as pernas, curvou-se como em uma aula de ginástica pelo rádio. Agora era só botar a mão em cima da bola. Tudo muito fácil. A mão de Ari desceu mais, encostou no chão. Onde estava a bola? Ari olhou para dentro do gol de cabeça para baixo. A bola atravessara a linha e parara. Ari fechou os olhos, não quis ver mais nada. A vontade dele era desaparecer. Duas mãos abertas taparam o rosto de Ari. De rosto tapado Ari podia ficar de pé outra vez.

Quatro torcedores do Canto do Rio vararam o minuto de silêncio com gritos de gol. Ari continuava cobrindo o rosto com as duas mãos sem ver nada. Deu vontade de abrir um dabilú na altura do olho. O dabilú mostrou-lhe dez jogadores do Botafogo olhando para ele e, Fioravante Dangelo, no meio do campo, esperando pacientemente que Heleno se dignasse dar a nova saída. Heleno botou as mãos na cintura e parecia que nunca mais ia tirar os olhos de Ari. Finalmente Fioravante Dangelo apitou. Heleno teve que dar as costas para Ari. Heleno e os outros.

Quando terminou o jogo, antes de abandonar o campo, Ari olhou o placar. Lá estava: Canto do Rio 4 x Botafogo 3, não era mentira não. Ari entrou no vestiário, deixou-se cair em um banco e esperou que alguém dissesse alguma coisa. Ninguém disse nada a Ari. Ari não compreendia por que ninguém dizia nada a ele. Era melhor falar logo. Vamos, diga. Uma chuteira caiu no cimento, Ari ouviu o barulho da água no chuveiro aberto, ouviu um suspiro profundo, tirado ao fundo da alma ele não sabia de quem. Devia ser o Pascoal. Pascoal chorava em campo, Pascoal não podia ver uma fita de cinema triste sem puxar o lenço do bolso. Agora, depois de ouvir o suspiro de Pascoal, Ari descobriu que também tinha um coração que sabia chorar.