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A grande jogada de Domingos da Guia
Mario Filho - 1955
A grande jogada de Domingos da Guia foi num Flamengo e Botafogo, em Álvaro
Chaves. Ele não gostava de se exibir ou, pelo menos, parecia que não gostava,
que fazia apenas o indispensável. Só na hora em que deveria surgir, esticar o
pé, fazer alguma coisa, é que se mexia, é que dava sinal de vida. Por isso saía
de campo com a camisa enxuta, naquele passo de samba à valsa lenta. Nesse
Botafogo e Flamengo foi diferente, fez questão de ser diferente. Também tinha
levado a maior vaia de sua vida. Primeiro levou uma vaiazinha: rebateu uma bola
para fora. O sócio do Fluminense achou que Domingos da Guia não podia rebater
uma bola para fora, e embora fosse uma homenagem, Da Guia se ofendeu. Então fez
um gesto feio para a social do Fluminense. Nem queriam saber. Para dar uma
idéia: Mário Pólo exigiu, aos gritos, a prisão do Mestre Da Guia.
Domingos não foi preso. Antes dele outros jogadores tinham feito o mesmo gesto e
ficaram soltos. Mas num Da Guia ninguém admitia isso. E ele compreendeu que
tinha sido outro, que tinha se diminuído, que precisava voltar a ser, e
imediatamente, o Mestre Da Guia. E foi o que ele fez. Pegou uma bola a um metro
do gol do Flamengo, pisou nela e chamou todo ataque do Botafogo para cima dele.
E lá foram os cinco, com Heleno na frente, Geninho foi último. A torcida do
Flamengo virou o rosto. Nem queria ver. A do Fluminense é que olhava fascinada
para o Domingos contra cinco. E Da Guia deu o primeiro drible de milímetros, o
segundo, o terceiro, o quarto, o quinto. Depois estendeu um passe de cinqüenta
metros para Vevé, lá na ponta esquerda.
A bola passou por cima das cabeças dos jogadores do Botafogo, que pularam e
esticaram o pescoço o mais que podiam sem tocá-la. E lá foi a bola imaculada,
cair feito um ramo de flores, aos pés de Vevé. Então Domingos da Guia se voltou
para a social do Fluminense, perfilou-se, depois se curvou e estendeu o braço
direito num daqueles cumprimentos rasgados que exigem um chapéu com penacho para
varrer o chão. Eu só vi a alta burguesia das Laranjeiras ficar de pé e aplaudir
em palmas de queimar as mãos. Pois é: e parece que Domingos da Guia nunca
existiu. Ninguém fala mais nele.
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