26/04/2008
Ano 11 - Número 578


ARQUIVO
MEMÓRIA DO ESPORTE

Dorval, o ponta-direita do melhor Santos da história


"Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe". Essa era a linha de frente do melhor time de futebol de todos os tempos. Apesar de o sucesso da equipe ter sido sempre focado no Rei, os outros jogadores também ganharam o reconhecimento dos torcedores. Um desses atletas é Dorval, o ágil ponta-direita daquela equipe que conquistou praticamente tudo o que disputou na década de 1960.

Em 26 de fevereiro de 1935, nascia em Porto Alegre (RS) Dorval Rodrigues, que desde pequeno demonstrou o interesse pelo esporte com a bola nos pés. No entanto, ele só chegou a uma equipe profissional em 1955, quando deixou a profissão de engraxate e foi contratado pelo Grêmio Esportivo Força e Luz, extinto time da capital gaúcha.

O tamanho da equipe não impediu Dorval de se destacar nos campeonatos regionais e, assim, ser chamado para defender a seleção de seu Estado em um torneio no México. A habilidade e a facilidade no drible despertaram o interesse de grandes clubes do Brasil, resultando em sua contratação pelo Santos, em 1956.

"Vim para São Paulo fazer testes e nenhum grande me deixou tentar. Então, fiz teste no Santos e consegui passar. Agradeço por não ter jogador em outra equipe. Dentro do Santos, encontrei o pessoal que me ajudou a me consagrar", comenta.

E foi vestindo a camisa alvinegra do time do litoral paulista que Dorval conquistou seus maiores feitos. No entanto, os trunfos não chegaram logo que foi contratado pelo Peixe. Considerado inexperiente pelos dirigentes, o ponta-direita foi emprestado ao Esporte Clube Juventus para se adaptar melhor ao futebol paulista, antes de encarar toda a pressão de vestir a camisa do Santos.

Depois de se destacar nos três meses em que defendeu o time da Rua Javari, o jogador retornou à Vila Belmiro para assumir a posição de titular, no lugar de Alfredinho. Os títulos, então, não demoraram a aparecer. Em 1958, o Peixe conquistou o Campeonato Paulista com um show de Pelé, artilheiro da competição com 58 gols (maior marca até hoje). O sucesso do Rei do futebol não ofuscou os outros jogadores do elenco, que se valorizaram muito com a arrasadora campanha do time.

"Pelé é mito no mundo todo. Um dos principais jogadores da história. Foi fantástico, mas sem desmerecer os outros, que também eram fantásticos. Os demais jogadores do Santos também eram muito importantes. Não sei se o Pelé seria o mesmo jogador em outra equipe", afirma o ex-ponta.

Dorval disputou 612 partidas com a camisa do Peixe e marcou 198 gols, sendo o sexto maior artilheiro da história do clube. O ano de mais destaque do ponta-direita foi o de 1962, quando o Peixe conquistou tudo o que disputou: Taça Brasil, Paulistão, Copa Libertadores da América e Mundial Interclubes. E foi justamente nas conquistas internacionais que Dorval aumentou sua fama.

"O Santos era um grande time, que envolvia a amizade entre os jogadores. Nós jogávamos dentro e fora do Brasil, fazíamos excursão de até um mês fora do país. Isso era bom tanto para o Santos quanto para nós, que aparecíamos para o mundo", relembra.

Um episódio internacional que o marcou foi a conquista do primeiro Mundial Interclubes, em 1962, quando a equipe derrotou o Benfica na final. Na ocasião, o Peixe venceu o primeiro jogo, no Maracanã, por 3 a 2 e precisava de outro resultado positivo na partida de volta, em Lisboa. Se o Benfica vencesse o segundo confronto, seria agendado outro encontro na Europa para definir o campeão.

"Quando chegamos a Lisboa para jogar, eles já estavam vendendo ingressos para a terceira partida. Acharam que ganhariam da gente no segundo jogo, mas deram azar. Perdemos muitos gols no Maracanã e isso não aconteceu em Portugal. Quando abriram os olhos, já estávamos ganhando por 4 a 0", comenta. Quando o árbitro deu o apito final em Lisboa, no dia 11 de outubro de 1962, o Santos comemorou seu primeiro título mundial com a vitória por 5 a 2.

Dorval e o gosto pela noite

Atualmente, jogadores que costumam freqüentar casas noturnas são considerados indisciplinados e têm problemas com o treinador e a torcida. Na década de 1960, porém, o conhecido gosto pela noite não afastou Dorval do time titular do Santos. Pelo contrário, as saídas noturnas nunca resultaram em problemas para ele, que era chamado de "pé-de-valsa".

"Eu fui jogador boêmio. Gostava da liberdade. Todos tinham liberdade no Santos. Eu me cuidava, mas gostava de me divertir um pouco. Não dá para só jogar futebol na vida", explica.

Como não poderia ser diferente, as freqüentes saídas noturnas do ex-jogador geravam brincadeiras por parte do elenco. Durante sua passagem pelo Peixe, por exemplo, alguns companheiros de equipe chegaram a afirmar que Dorval dançou com um travesti acreditando se tratar de uma mulher.

"Isso foi invenção do pessoal. Eles brincavam de vez em quando comigo, e essa passagem não foi verdadeira. Eles falavam porque dificilmente eu saía com outros jogadores. Eu era mais velho que muitos e não queria ver os outros dizendo que eu levava os mais novos para o mau caminho", explica.


Dorval na Seleção brasileira

A maior decepção da carreira de Dorval foi a de não ter tido a oportunidade de disputar uma Copa do Mundo. Apesar do sucesso com a camisa do Santos, o jogador pouco foi lembrado pelos treinadores. Assim, o ex-ponta disputou apenas 13 partidas pela equipe canarinho, enquanto vários companheiros de clube tiveram mais oportunidades.

"Em alguns jogos, aconteceu de Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe serem convocados e eu não. Fui o único a ficar de fora. Mas tive uma passagem muito boa nas partidas que disputei pela seleção", afirma.

Apesar de afirmar que sonhava em ser convocado para uma Copa do Mundo, Dorval admite que, mesmo que fosse chamado por um treinador, dificilmente conseguiria ser titular defendendo seu país.

"Na época do Mundial (de 1962), eu e o Garrincha éramos os melhores pontas do país, mas só ele foi convocado (pelo técnico Aimoré Moreira). Foi uma injustiça porque outros pontas também foram chamados. O Mané era fantástico e ninguém tiraria ele do time, mas mesmo assim eu queria ir para um Mundial", comenta.

Foi justamente em uma partida contra o clube de Garrincha, o Botafogo, que Dorval exibiu uma de suas virtudes até então pouco conhecida pelo torcedor. Em 1961, ainda não existia a possibilidade de substituir jogadores durante um jogo e, dependendo da situação da partida, determinados atletas eram obrigados a desempenhar uma função diferente da que estavam acostumados.

Assim, depois da expulsão do lateral-direito Dalmo, Dorval foi obrigado a marcar Garrincha, o grande destaque do Fogão.

"Isso acontece no futebol. Eu já tinha jogado em diversas posições no Santos. O Garrincha era rápido, mas eu também. Além disso, eu já sabia por onde ele saía nos dribles. Me saí bem e o Santos ganhou do Botafogo", recorda.


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Nome: Dorval Rodrigues
Natural: Porto Alegre (RS)
Nascimento: 26/02/1935

Clubes: Força e Luz-RS (1955 a 57), Juventus (1957), Santos (1957 a 66), Racing (da Argentina, em 1964), Palmeiras (1967) e Atlético Paranaense (1968 a 71).

Títulos: Campeão paulista (1958, 60, 61, 62 e 64), Mundial Interclubes (1962 e 63); Copa Libertadores (1962 e 63), Taça Brasil (1961, 62, 63 e 64), todos pelo Santos. Campeão paranaense (1970), pelo Atlético.

Números: 612 jogos e 198 gols com a camisa do Santos. 13 jogos pela seleção brasileira.

Fonte: Gazeta Esportiva