01/04/2018
Ano 21 - Número 1.071

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MILTON XIMENES

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Milton Ximenes Lima

 

Galinha à cabidela

 

Milton Ximenes Lima - Colunista, CooJornal


Mais uma manhã de sua vida, agora mais tranquila. Da estante absorve leituras, a maioria há muito desejadas. Vez em quando, também, uma viagem materializa sonhos geográficos ou históricos, a mulher sempre ao lado. Nos fins de semana, o tumulto dos netos. Com a ajuda dos filhos, novas experiências no novíssimo micro, navegando timidamente pela eletrônica inteligente. Sessenta e cinco anos, depois de servir, muito bem servida, àquela instituição fazendária, concursado, concursado com muito orgulho, sim senhor, um diploma de atuário lá na parede, e muita voz gasta em salas de aula, muito giz respirado, mãos sujadas na, na verdade, sua primeira profissão: o magistério...

Um telefonema vem resgatar esses primeiros tempos, testar que sua alma abandonou mesas e bancos escolares, o prazer da sua voz semeando ensinamentos, o amor correspondido pelos alunos nas trocas de emoções e energias, a consciência de ser útil a alguém, ser parte na esperança de cada um na busca de futuros caminhos. Aquela voz do ex-aluno e amigo lhe traz a proposta que temia, pedia sua colaboração no curso pré-vestibular onde era diretor.

Ficou de pensar, pediu um tempo. Mera delonga, como defesa à surpresa do convite.

A equipe do colégio funcionou bem, correspondeu às expectativas, estavam aí os jornais para festejar o grande número de aprovados. O simpático, envolvente, eufórico amigo, não se contentou só com isto:

- Sábado, agora, vou dar uma festa lá em casa, vou oferecer para vocês uma boa galinha à cabidela! Agora, o detalhe... é uma festa só para nós, professores. Não levem companhias, nem familiares, será uma comemoração muito íntima em homenagem ao nosso esforço!

Sabia-se e agora se via: o homem tinha posses, aquela mansão de dois andares, estilo antigo, naquele bairro central e histórico da cidade, jardins, piscina, garagens, por onde espalharam os convidados, pratos e bebidas à mão, conversas descompromissadas. Divinas sobremesas da cozinha mineira! Saboreava e conversava, sentado no banco do jardim, com o jovem professor de História Geral. Retornou ao salão, onde, a um canto, eram abandonados os pratos usados.

De súbito, jovens e desconhecidas mulheres começaram a tranquilamente distribuir camisinhas. Olhou para o companheiro, que, até ali, o seguira, trocaram sorrisos chochos, indagações no cérebro, e mais arregalaram os olhos quando o anfitrião, subindo à mesa, anunciou:

- Agora, gente, é que a festa vai começar!

O homem começou a oscilar o seu corpo sob o ritmo da música, começou um “streap-tease”, logo acompanhado por uma das moças, por sinal, um pitéu! Casais se aproximaram, começaram a dançar, a desaparecer pelas dependências da casa, voltavam, trocavam de par.

Surpresos, confusos, os dois se esforçaram para aceitar como normal aquela euforia, não queriam ser tomados como “caretas”, “antigos”, mas sentiram que não embarcariam na alegria geral. O professor de História, então, recém-casado, ainda estava em outro astral, e ele, com idade bastante para não se meter nessa. E, perigo, depois do almoço! Foram saindo de mansinho, com muita criatividade e elegância, “tinham compromissos outros naquela tarde, casamentos...” No portão, as meninas ainda lhes oferecendo cartões de certa casa de massagem!

Entretanto, reconhecia, ficara excitado com as imagens da festa, as trocas de carícias, movimentos convidativos, mãos trabalhando, saias subindo, pernas, visões entre coxas... e, em casa, determinado momento, não resistiu, surpreendeu a mulher com, por detrás, uma cheiradinha na nuca, código do casal para brincadeiras mais íntimas. Ela estranhou, aquela atitude havia, com a idade, se tornado mais espaçada, e brincou:

- Ué, eu não sabia que galinha à cabidela era prato afrodisíaco!

Ele continuou a provocá-la. Sorriu internamente: quase que ela adivinhara, realmente nada tinha a ver com a galinha à cabidela, mas quanto às galinhas, eram tantas!

- Nada disso, mulher! É que bateu uma saudadezinha!

Retirou-se para o quarto, descobriu a pílula revolucionária e salvadora, tratou de absorvê-la. Mais tarde, sente sinais no seu corpo, que ele está pronto para a sua alegria particular, aguarda a mulher, teimosa a apreciar um programa de televisão.

Na sala, o telefone geme e, aí sim, ela vem correndo lhe anunciar:

- Prepare-se, prepare-se! A Lucia entrou em trabalho de parto, está saindo agora para a maternidade! Vamos lá, vamos lá!

Não sabe o que fazer. Obrigações de pai e avô fazem-no responsável na solidariedade ao nascimento do terceiro neto, mas... como acalmar, como conter, como disfarçar seu desejo tão anunciado visivelmente na zona sul da frente do seu corpo?

Abre o guarda-roupa, lança um olhar súplice para o gravateiro e se consulta:

- Será que duas gravatas velhas, com uma boa amarrada nas pernas, vão me ajudar?



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Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email miltonxili@hotmail.com  





Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com
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