24/04/2010
Ano 13 - Número 681


 

Milton Ximenes Lima



POESIAS E POETAS


 

Milton Ximenes



Estátua de Carlos Drummond em Copacabana (Rio), com um verso do poema
"Mas viveremos", autor Leo Santana

 

 Escrever sobre, um desafio.

Desde os volumes das velhas estantes na infância das nossas casas, os livrinhos das escolas primárias, as famosas antologias do curso ginasial, e, enfim, na adulta livre escolha, a gente esbarra com as vidas dos poetas e suas obras. E, aos poucos, vamos acolhendo suas palavras, suas rimas, repetindo-as, sentindo a canção das suas mensagens, cultivando-as no baú dos nossos sentimentos. É o início da simpatia.

Depois, a maturidade literária nos ensina a respeitá-los, esses homens e mulheres em constantes êxtases de criação. O que quero dizer, em outras palavras: evitemos julgar os poetas, é caminho bastante temerário, é, em síntese, julgar emoções. Nosso silêncio, em último caso, é aprisionada e misteriosa sentença para as vaidades incompetentes. Então, vestimentas de escolas, estilos, formas, tamanhos, nem a rima ou falta dela, ou a dança das vírgulas, ou mesmo a apresentação gráfica, são tão importantes. A beleza da poesia está nas entrelinhas do texto, delas emanam as mensagens cunhadas pelo(a) Autor(a), fragmentam-se em emoções pelo ar, em busca de desconhecidos corações. Nessas entrelinhas captamos linguagens e imagens simbólicas que embelezam muitas frases, nascidas, a meu ver, de um dom especial, possivelmente divino, em que o poeta, num momento todo seu, é o próprio universo da criação. Ele se debruça apaixonadamente sobre seus pensamentos e se angustia no desafio do papel em branco. Idéias, formas, bailados de imaginação somente seus, alegrias e tropeços da sua vida, poços profundos da sua individualidade. Neste justo instante, temos a possibilidade do vislumbre do seu talento, ou seja, o momento exato em que suas mensagens vão se materializar e se fortalecer para alcançar sintonia com os possíveis leitores.

As mensagens, abstratas ou concretas, ocultas ou diretas, repousam aí, definitivamente, na sensibilidade de uma outra alma. É o último e real objetivo do poeta, fazer com que a carícia da sua mensagem, qualquer que seja o estilo ou forma que abrace, afague sonhos e realidades dessas pessoas também especiais.

Fica, apenas, a tristeza desta vitória não ser totalmente comemorada. Após as costumeiras agitações das tardes ou noites de autógrafos, eventos outros ou referências na mídia, vem a frustração da impossibilidade de não saber da aceitação, ou não, da sua obra. Silenciosa, lenta, é a resposta à indagação de até onde e a quantos alcançou sua “criança”. Mais gratificante seria o testemunho pessoal da sua acolhida pelas mentes e vozes do leitor, às vezes tão longe dos seus olhos e ouvidos , principalmente neste Brasil tão vasto! Ninguém costuma escrever ao escritor/poeta! E as editoras ainda não acordaram para criar esta solicitação dentro dos próprios livros...

Não faz mal, um dia isto se aperfeiçoa. Os poetas sempre sobrevivem. “Atrás do rebanho, os poetas. São eles os pastores das palavras” (Ascendino Leite, in A Velha Chama. 1974, Livraria S.José).




(24 de abril/2010)
CooJornal no 681


Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@yahoo.com.br

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