12/03/2011
Ano 14 - Número 726


 

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ARQUIVO
MILTON XIMENES

 

Milton Ximenes Lima



(Um verão dos meus pés-meninos)

ARTIMANHAS DO ITAPEMIRIM


 

Milton Ximenes, colunista - CooJornal

     
Grande enchente - 1937 Praça Gil Goulart - 1956 Inundação da Rua 25 de março - 1979

 (Fotos cedidas pela escritora cachoeirense Isaura Theodoro)



- Chove muito lá pras bandas de Castelo! – anunciou um viajante. E outro: - As estradas estão horríveis, verdadeiros atoleiros! Mais um: - Vi muito deslizamento de terras, pastos alagados, casas derrubadas, gente sumida...

Todos comentavam a insistência daquelas pesadas gotas celestiais sobre seus corpos. O verão, em princípio, viera abrasador, dias e mais dias de sol causticante, secara muita terra, estragara muita colheita. Pragas rogadas e preces choradas galgaram o espaço, e agora, Pedro, o santo padroeiro da cidade, depois de muito pensar, resolveu fazer uma faxina lá nos seus domínios. Conseqüência: aquela tragédia líquida! Ninguém se conformava. Aliás, sempre reclamavam, se fizesse tempo de sol ou nublado, de calor ou frio.

Pior de tudo não era isso, era a forma como a chuva se apresentava. Não era daquela do tipo momentânea, de futuro enigmático quanto ao seu retorno. Era, fina ou grossa, interminável. Acordava-se, estudava-se, trabalhava-se e dormia-se com sua presença. Enjoada mesmo! Cercada de morros, as ruas da cidade recebiam constantemente suas lamas e detritos que a todos atrapalhavam.

Então, os olhos de todos se fixaram no Itapemirim. Já inexistia aquele leito de pedras, lagoas e ilhas de tantas brincadeiras e pescarias. A água barrenta desrespeitava tudo, beijava raivosamente as pilastras das casas debruçadas às margens. Era tudo dela. Arrancava terras, vergava árvores, deixando-lhes raízes à mostra. Alguns animais, impotentes, eram arrastados pela forte corrente para o meio do rio, desapareciam para sempre. E a chover, a chover, a chover...

Novas notícias, novos medos: - Caiu uma tromba d’água lá pros lados de Alegre!... O bairro Independência virou Amazonas!... No do Guandu, só se passa de canoa! A piscina do Liceu transbordou! Suspenderam as aulas! Morreu um rapaz lá em Bahiminas! O rio poético se torna traiçoeiro, cresce, domina, vem rever e reaver o espaço das ruas que outrora fora seu domínio. Não sossega, desaloja famílias, inutiliza esforços dos que tentam salvar bens seus, de outros, e da comunidade. Os homens, em determinado momento, já não circulam, torcem pela esperança de mais claridade no céu, ou mesmo de um fraco sol entre nuvens, rezam até, e depois, esperam, somente esperam. Alguns ainda brincam de otimismo:

-Vamos a um cinema?

-Que cinema? Só se for de barco!

-Então, vamos ver o campeonato da turma do remo que o Yole Club vai fazer!

-E ver também o pessoal que está saltando da ponte velha!

Indiferente, o rio rasga o coração de Cachoeiro, vai em busca do mar final, atropelando ainda outros lugares. Súbito, também um barquinho de papel-jornal rodopia, vira e submerge dentro da sua fúria, e os olhos do menino sentado cautelosamente à margem, no fundo do quintal da casa, se despedem do seu sonho.


(12 de março/2011)
CooJornal no 726


Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com

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