14/05/2011
Ano 14 - Número 735


 

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"Amigo da Cultura"






ARQUIVO
MILTON XIMENES

 

Milton Ximenes Lima



 NO AR, SÓ DEUS



 

Milton Ximenes, colunista - CooJornal


Foto MXL


Descida em São Paulo, revisão técnica. Depois, em vôo novamente, almoço, tudo tranqüilo sobre nuvens intercaladas que, em desafio ao sol, sombreavam espaços de plantações, casas, estradas, lagunas, rios e montanhas de matizes várias. Assim, no ar, pousa em meus sentidos a sensação fictícia de imponderabilidade, de inércia, apenas negada pelo movimento das nuvens e pela passagem da terra, lá embaixo, onde a presença do ser humano era somente adivinhada. O horizonte, o infinito horizonte, não abandona seu azul claro. A Terra é azul, sentenciou o russo Gagarin, astronauta privilegiado pelas cores do alto espaço... Ao mesmo tempo, também o pensamento da inutilidade dos gestos humanos se algo fatal ocorresse àquele imenso avião. O preciso e exato significado do “estar nas mãos de Deus”, apesar da presumida certeza da segurança tecnológica. Por isso, antes mesmo da decolagem, muitos não resistiram a um envergonhado sinal da cruz, minha vizinha mergulhou num livrinho de manuscritas orações, outros mexiam disfarçadamente os lábios, em íntimas súplicas.

A memória, depois, me volta, registra descompromissada conversa que mantive certa manhã com um anônimo representante farmacêutico, enquanto esperávamos a lavagem dos nossos automóveis, no Rio. Seu dilema vital: fazer o que gostava e, por outro lado, fazer, por necessidade, suas obrigações profissionais. Deslocar-se para as cidades interioranas, mãos no volante por estradas desconfortáveis, enquanto sua cabeça buscava tempo para materializar seu sonho real, ser piloto civil. Era responsável, trabalhava por causa da família, mas chegando a Campos, onde ela se encontrava, aproveitava para atualizar suas aulas. Sob as censuras da mulher... Descreveu-me o êxtase que o envolvia, o embriagava, quando, do alto, seu olhar saboreava as diversas paisagens: os canaviais, as fazendas, as cidades e vilas, os rios, os litorais, a variedade das cores dos fundos dos lagos e do mar, e, ao mesmo tempo, media a pequenez física e a imensa solidão do homem. Vinha-lhe, então, a posse integral de um bem-estar, como um caminho para um estágio espiritual mais elevado...

É isto mesmo, confirmo agora, sentado nesta poltrona à beira da janela, com a diferença que ele era um piloto solitário, colocava o avião no rumo seguro e desejado, soltava a mão dos comandos para apreciar a paisagem, a imaginação a pairar em suaves contemplações, de bem consigo e com o mundo, mesmo sendo uma fuga interior, enquanto que os passageiros, aqui, principalmente os de primeira viagem, fora o controle psicológico pessoal, tinham a confiança na tranqüilidade, não só do comandante da aeronave, como também na da treinada tripulação.

Não é por menos que o espaço fecundou seu principal poeta, a nos lecionar opções de vida com suas meditações silenciosas embebidas em verdades filosóficas derramadas pelas páginas de Piloto de Guerra, Correio do Sul, Vôo Noturno, Terra dos Homens. Pioneiro, adentrando em primitivos aparelhos, cruzando o Mediterrâneo, os desertos da África, o imenso Atlântico, Antoine de Saint Exupery acendia no seu cérebro poeiras de idéias sobre a solidão, as alegrias e as tristezas dos homens, tão lá embaixo, tão distantes, tão pequeninos e abandonados.

Depois dele, outro filósofo a se apresentar, a nos descrever a saga heróica de Fernão Capello Gaivota, a gaivota inconformada, desafiante do seu rotineiro bando, optando por um destino próprio, em cuja boca Richard Bach semeia a frase autêntica e incomparável:
“- Só a lei que conduz à liberdade é verdadeira... Não há outra...”

Mas, de repente, a voz do comandante interrompe pensamentos e conversas, cria expectativas, é que vamos descer. Luzes e avisos em alertas. Interrupção dos serviços de bordo. Banheiros proibidos. Sentados todos, os cintos aprisionando corpos. Já tínhamos passado sobre Montevidéu, estávamos perto da foz do rio da Prata, e Buenos Aires se oferecia, mais à frente. Breve, deixaremos de estar “nas mãos de Deus”. Aguardemos, pois, sem neuroses. Pelo menos até a próxima decolagem, enquanto as prometidas atrações portenhas nos forem desvendadas.


(14 de maio/2011)
CooJornal no 735


Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com

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