16/09/2011
Ano 14 - Número 753


 

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"Amigo da Cultura"






ARQUIVO
MILTON XIMENES

 

Milton Ximenes Lima



BARRIGA VAZIA


 

Milton Ximenes, colunista - CooJornal

De repente, resolvi. Escreverei alguma coisa sobre o assunto, se possível sob a forma de um conto. Ele ficara sepultado na agenda da memória de cinqüenta anos atrás, lá no Cachoeiro de Itapemirim da infância, principalmente na narrativa da velha parteira que, naquela tarde, viera visitar a Dindinha, braço direito da minha mãe nos afazeres da casa. Está na hora de resgatá-lo.

Curvado sobre a mesa redonda da sala, fingia fazer meus deveres de casa, enquanto ela falava de um trabalho que fizera, uma semana antes, num barraco humilde, lá pelos lados do bairro Noventa. Lá, aquela mulher, Terezinha de nome, embarrigara, peitos sensibilizados anunciavam gotas de leite, sentia a criança no passeio abdominal, toda manhã vinham aqueles enjôos, os vômitos depois. Tudo levava a crer, apesar da pequena barriga, num feliz parto. Mas, de repente, o bebê se negou a aparecer e a atravessar o túnel da vida, chegou a certeza de um alarme falso, do nada, desvanecendo as esperanças do casal, acariciadas há anos! Da curiosidade sobre a história cheguei ao espanto, quando a parteira acrescentou:

- Tô acostumada a muita coisa, mas juro que vi com esses meus olhos que a terra há de comer... A luz que saiu do corpo daquela dona e se elevou até o teto do barraco, parou lá em cima, tinha o jeito de um bebezinho encolhido... Depois, foi sumindo, sumindo, apagou-se. Não falei nisso com ninguém, nem com o pessoal lá do Terreiro. Mas num guentei, você é a primeira a saber...

Claro que, mais tarde, descobri que aquilo tinha nome, era a chamada gravidez psicológica. Mas, e aquele fenômeno luminoso? Demorou mais tempo, muita leitura, muito papo... na tentativa de compreendê-lo.

Bem, queria fazer o conto, fui em busca de elementos pessoais e ambientais que o fizessem crédulo, casa da minha irmã, médica aposentada, que tivera elogiada atuação na chefia da ala pediátrica de um hospital estadual. O que sabia disse-me, mas me alertou que, nos tempos atuais, a ultra-sonografia estava aí para acabar previamente com o mistério. Sugeriu usar o meu provedor na busca do “sítio” “Cadê?”, mas não me deixou ir sem perguntar:

- O que é que você pretende revelar?

- Que existe bastante energia também no pensamento de todos nós, principalmente quando uma preocupação está em mais de uma cabeça. Quando é originário de uma crença, em especial a religiosa, ganha muito poder, tem o nome de fé, possibilita milagres!

Então lhe relembrei o caso da matrícula da nossa irmã ao tempo do curso primário de um dos Grupos Escolares da cidade, o Graça Guárdia, quando a exigida certidão de nascimento não fora encontrada. Essa irmã era carioca, mas ninguém se recordava da localização do cartório onde se procedera ao registro do seu nascimento. Minha avó, minha madrinha (irmã de mamãe) e outros parentes moravam no Rio, se preocuparam e se mobilizaram todos. Em Cachoeiro, mais diretamente, a mãe e Dindinha, nossa babá, esta, por sinal, freqüentadora de um Centro, eram as mais envolvidas diretamente. A situação já estava se arrastando, quando, nos trabalhos da cozinha da casa da rua Dom Fernando 163, Dindinha captou vultos na janela. Reconheceu-os, cabeças e troncos recortados contra o retângulo de luz: -Ô “seu” Eugênio, ô “seu” Mario, o que é que vocês estão fazendo aí? (Meu pai e meu avô, falecidos em 1947 e 1945, respectivamente).

- Escreva aí...- comunicou-se, ordenando, a imagem do meu avô.

Ela pegou um toco de lápis e escreveu na madeira da porta o tão desejado endereço do cartório, perto da Praça da Bandeira, no Rio, na rua Joaquim Palhares.

Concluí:

- Você não acha, agora, que tanta gente pensando sobre um mesmo assunto pode criar correntes de energia que nos tragam a solução desejada de um problema? E no caso do parto, a tão desejada criança não teria sido prévia e espiritualmente formada por essa força? Claro, ninguém percebeu, só a parteira... Sem dúvida, uma médium... vidente!

Pensativa, minha irmã não me disse nada, só relatou certos acasos e coincidências ocorridas no seu viver profissional.

Bem, voltei à casa, naveguei no computador, na busca de mais informações. Acreditem, muitos esclarecimentos sobre a gravidez psicológica de animais! Do que sobrou, anotei detalhes para construir o programado conto.


Foto de MXL


Ainda, entendia, poucos detalhes faltavam para um conto bem mais convincente, como eu gostaria. Aí, uma preguiça existencial se instalou nos meus sentidos, me arrastou por duas semanas, a dúvida hoje me chega, o conto está perdendo força, se nega a nascer, já estou oscilando na direção da... crônica. A minha original criança literária está, assim, sendo toda concebida aqui nestes teclados e neste papel, faltando escolher, apenas, a forma de adoção quanto ao seu parto.

E, indeciso, temo entrar em gravidez psicológica nesta criatividade, possivelmente arquivando ou rasgando, ao final, este texto que teima em se intrometer e permanecer no meu mundo de colecionador de palavras.

Um conto ou uma crônica? Eis a minha crônica dúvida. Bem, vou pensar e, depois, eu... lhes conto!

 

(16 de setembro/2011)
CooJornal no 753


Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com
miltonxili@yahoo.com.br

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