30/09/2011
Ano 14 - Número 755


 

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ARQUIVO
MILTON XIMENES

 

Milton Ximenes Lima



 MEU CÉU-MENOR


 

Milton Ximenes, colunista - CooJornal

Ocorreu em 1983, um ano após ter adquirido o novo imóvel.

Quando as rolinhas diminuíram suas visitas à minha varanda de sétimo andar, pressenti que algo mudara. A canjiquinha, especialmente comprada, ficou antiga, meio abandonada. Um pouco mais de tempo, e a possível explicação: bem defronte, derrubaram árvores, inclusive a enorme mangueira, no grande terreno dos fundos de uma casa antiga onde talvez elas se abrigassem.

Marteladas, gritos de homens e serras, máquinas em movimento, luzes à noite, braços no cimento, construção inicial de um escritório. O vento se encarregava de trazer a poeira até nós. O mutirão febril aprontava e apontava, depois, os ferros para o céu, fazia arrumações de tijolos e nascer rapidamente o novo prédio, um novo “pombal” talvez.

Da ampla paisagem perdi, aos poucos, todo o lado esquerdo, o verde próximo da pequena elevação do Asilo de Velhos de Vila Isabel, qual imensa chácara, atrás da Escola Argentina. A Torre d´Água do Largo do Maracanã, no início do “Boulevard” 28 de Setembro e as visões-além da Serra do Mar, Dedo de Deus em destaque, tudo sendo mutilado. As luzes da imensa Universidade estadual ficaram seccionadas. De lá, por detrás, a gente podia acompanhar, dia ou noite, os aviões que subiam do Aeroporto Internacional, contornavam sobre o centro da cidade e passavam sobre a Tijuca. Como pudemos então perfeitamente acompanhar o vôo do avião papal se despedindo de nós, a caminho da Argentina.

Pareceu-me, no acompanhamento das atividades, que fariam dois blocos, reunindo duas ruas, com espaço de lazer entre eles. Talvez, nos limites deste novo espaço, eu poderia ser esperançosamente contemplado com o brilho da iluminação do Estádio do Maracanã nos jogos vespertinos e noturnos, mas, para a direita, me ameaçariam com a perda do panorama do centro da cidade, do relógio da Central, e, de outro, novo, eletrônico, e mais uma fatia do morro do Colégio Militar. Bem mais à direita, o magnífico conjunto de montanhas da Tijuca ainda se sobrepunha, nascente em Santa Tereza, subindo no Sumaré (a privilegiada residência do Cardeal) e adiante espetado por torres de rádio, televisão e de telefonia, além de algumas favelas escorregando em suas encostas. Até quando, diante de outros próximos sinais de construções?

Enfim, os dezesseis andares dos dois blocos confirmaram meus temores, meu céu ficou menor...

Uma relíquia, porém, tentarei guardar. Ao redor desta paisagem, tanto o amanhecer como o entardecer dos meses de maio e junho, sempre foi espetáculo para os sentidos. Fiz a filmagem destes horizontes hoje inexistentes, deixo-a como mensagem histórica, unindo o prazer do belo olhar, de um lado, e da tristeza da indiferente invasão do homem, de outro.
 

Minimizando, ainda incentivei minha mulher: graças a sua paciência e sensibilidade, as varandas estão sempre premiadas com plantas e flores. Pequeníssima vingança íntima. Desde a infância cachoeirense meus espaços verdes e azuis vêm sendo deglutidos pelos cinzas-amargos das edificações das cidades por onde passei, ou vivi.

E nas férias busquei, sempre que possível, sob céus imensos do nosso generoso país, os verdes e azuis das montanhas e das praias, para revigorar acalantos à minha então descolorida e inconformada alma.
 

(23 de setembro/2011)
CooJornal no 754


Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com
miltonxili@yahoo.com.br

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