07/10/2011
Ano 14 - Número 756


 

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"Amigo da Cultura"






ARQUIVO
MILTON XIMENES

 

Milton Ximenes Lima



OS VISITANTES


 

Milton Ximenes, colunista - CooJornal


Foto MXL

Contar histórias de passarinhos, falta do que fazer! – muitos poderão assim presumir. Injustiça, minha gente, porque ainda trabalho, mesmo depois de aposentado. Vou e volto todos os dias, em horários diversos, – é verdade - , mas não tenho tempo para ficar paradão, aguardando, observando e me inspirando nos movimentos dessas rolinhas. O que realmente ocorre, em determinados momentos caseiros, é o obrigatório convívio. Coincidência estarmos no mesmo local, e na mesma hora. Diversos pássaros citadinos, raríssimos cantores, amanhecem e entardecem por aí, em busca de alimentos. Até brigam entre si na conquista deste espaço. Eles não são diferentes nestas já conhecidas varandas minhas de sétimo andar. Só que, certa vez, além das necessidades do estômago, outra surgiu. A gente notou o inquieto casal a demorar-se mais, a se destacar do grupo. Os dois passeavam pelo chão, pelo gradil, pelos vasos de plantas, e, por fim, começaram a procurar repouso entre as folhas de samambaias e de renda portuguesa dos xaxins depositados em pratos suspensos, acorrentados ao teto da varanda da sala.

Dessa vez, porém, tiveram que enfrentar a resistência da minha mulher, que se negava a hospedá-los por causa do que acontecera no ano anterior: no momento do aprendizado do vôo inicial, um outro casal rejeitou um dos filhotes, abandonando-o a nós, que tivemos a obrigação sentimental de precariamente dele cuidar e acompanhar a agonia do doentinho. Nós não queríamos a repetição dessa tristeza.

Assim, localizada a planta escolhida por eles, ela preencheu o espaço do iniciante ninho com bolas amassadas de papel colorido, tentando afugentá-los.

Dias seguidos, os dois não estranharam, assim mesmo se acomodaram. Sensibilizada com a teimosia das aves, ela retirou as tais bolas-espantalhos. Então, sem qualquer mandado judicial ou celebração de escritura, devidamente registrada, o casal imitiu-se na posse do ambiente, entre constantes “sobes-e-desces” de transportes de gravetos e afins, até quando a futura mamãe, aprovando a decoração das acomodações, se aconchegou definitivamente lá em cima, indiferente às forças dos ventos, que constantemente balançavam sua minúscula, mas segura “residência”. Corpo estático, olhos vigilantes sobre a paisagem humana. A do ano passado era mais calma. Esta, a qualquer tentativa de aproximação, fugia, em rasante vôo. Nem vimos quando, “ingratos”, os três se foram, sem qualquer despedida, enquanto que os do ano anterior nos permitiram até acompanhar, de janela mais distante, os ensinamentos para os primeiros e desajeitados vôos do “bebê”.


Foto MXL

Hoje, além das insolentes rolinhas, só nos ficaram as visitas hábeis e velozes dos beija-flores, oscilando entre flores e a tentadora garrafinha suspensa; dos bem-te-vis, comilões estridentes e exigentes; de dois pequeninos e nervosos passarinhos de peito amarelo (se parecem com um bem-te-vi em miniatura), banhando-se nas águas das bandejas dos xaxins, deixando-se escorregar nos ramos de plantas menores, e tentando alcançar, com os bicos, as saídas da açucarada água da garrafinha, às vezes, até, em peripécias circenses, cabeças para baixo. Sem falar do ativo besouro, pairando, pesadamente, entre as frágeis folhas e flores dos vasos menores e nas saídas laterais da mesma garrafinha.


Foto MXL

Ainda tenho a história do solitário periquito amarelo de peito azulado, que apareceu para enfeitiçar e enfeitar aquela tarde ensolarada de um domingo sem data, mas, reconheço, é muito pássaro para pousar numa crônica só. Fico, então, por aqui...
Que “pena”! – brinca, enfim, em sussurro, o meu cérebro mui moleque...


(07 de outubro/2011)
CooJornal no 756


Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com
miltonxili@yahoo.com.br

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