03/02/2012
Ano 15 - Número 772

ARQUIVO
MILTON XIMENES

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Milton Ximenes Lima


 O BERÇO ESPLÊNDIDO

Milton Ximenes Lima - Colunista, CooJornal

Cabeça-de-porco. No fundo da estreita rua da vila “Villa Brasil”, lado esquerdo, Luiz empurra a porta do quarto-sala-cozinha, e a claridade se projeta sobre o corpo magro de Isa, de pé, à beira do fogão, mão direita a remexer, sob brandas chamas, uma papa branca na pequena e amassada panela. Ao fundo, a criança se distrai, na desarrumada cama do casal, com restos de brinquedos.

Nem dizer a ela como arranjara aquele cacho de bananas e aquela caixa de aveia! Ofereceu, e mentiu:

- Pendurei isto na venda do seu Fernando, ele disse que agüentava até o fim desse mês...

As narinas da mulher, porém, aspiram um certo encervejamento no ar, tem vontade de falar, mas sabe que logo vem atrito, não dá em nada, o companheiro sempre bate a porta e só retorna tarde da noite, cheirando mais ainda. Apenas:

- Arranjou algum lugar por aí?

- Tá ruim... só uma vaga pra pedreiro, mas pediram pra voltar na segunda que vem ...

- Mas eu tenho novidade, Lu...

- Que é, mais uma faxina?

- Nada disso, falei com a Rutinha, nossa vizinha aí da frente. Vou fazer o que a mulherada daqui anda fazendo, vou pras filas dos sacos de feijão, arroz e outras coisas nas portas das igrejas, e de onde tiver...

Luiz observa, primeiro:

- E esse machucado seu aí na perna, coçando, coçando, tá ficando grande. O moço da farmácia falou pra você descansar, que só pomada não vai secar...

- Se avexe não, Lu, melhorei da dor, já posso ir!

Ele não gosta, está desapontado porque nada pode oferecer, fecha a cara. Nem dissera a ela que já entrara, mais de uma vez, na fila de um real do almoço do governador José Menininho.

Isa, porém, ainda lhe adoça a preocupação:

- Mas Lu, ta tudo difícil pra todo mundo! A gente nem vai ser o primeiro, a calçada fica logo cheia de gente, só tenho é que chegar cedo... E olha, Lu, é só até você ter um emprego certinho...

Luiz resiste em concordar, mas põe limite:

- Mas veja lá... arranje uma igreja longe daqui, tá bem? Esse pessoal daqui fala muito, se te vê, espalha tudo...
Muitas semanas mais tarde, situação inalterada, uns bicos por aí, ele fica observando o filho adormecido. Pergunta:

- Como tá o menino? Melhorou da gripe?

- Graças a Deus! Agora tá com o corpo melhor, perninhas agitadas, parou de engatinhar. Tá se segurando nas paredes, vai andando e caindo por aí... Mexe em tudo! Nem quer saber mais do berço, tá fazendo manha toda hora pra ir pro chão.

Sorriso sem entusiasmo, olhar para lugar qualquer. Mão direita, com cicatriz no dorso, acidente numa obra. Mexendo nos cabelos, Luiz já está somando e diminuindo esperanças, imaginando como pagar ao dono do quarto no fim do mês.

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25 de março de 2004, quinta-feira-feira , à tarde

Saio mais cedo do trabalho, tenho que passar, antes, na casa de um amigo, convalescente de melindrosa cirurgia, e o ônibus que tive que escolher passa na rua Salvador de Sá, no velho bairro do Estácio, Rio de Janeiro. Na parada em um ponto, descubro, na entrada de uma vila, de nome “Villa Brasil”, o cartaz de papelão pardo amarrado na parte superior do portão de madeira do velho prédio, onde letras tortas e azuis – o S invertido formando quase um Z - gritam uma decisão e um oferecimento a respeito de um conforto já sem serventia: VENDE-SE UM BERÇO. TRATAR AQUI.

E este apelo do até então inominado casal me comove, se insinua, de repente, no meu cérebro, belisca minha sensibilidade de cidadão, sacode minha imaginação política, me faz apressar o parto desta brasileira história. Salto no próximo ponto, retrocedo, chego até o casal, começo a tratar do preço. Enfim, combino com eles:

- Amanhã venho com o dinheiro, e apanhar o berço, e depois vou levar você, Luiz, para se inscrever no cadastro do bolsa-família...


(03 de fevereiro/2012)
CooJornal nº 772



Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com
miltonxili@yahoo.com.br


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