30/03/2012
Ano 15 - Número 780

ARQUIVO
MILTON XIMENES

Follow RevistaRIOTOTAL on Twitter

Milton Ximenes Lima


MÁGOAS

 

Milton Ximenes Lima - Colunista, CooJornal

Primeiro movimento


Foto MXL  (Araçatiba, Maricá)

A princípio, quando me magoam, não me confesso a ninguém. Primeiro me pergunto se a minha sensibilidade e a minha imaginação é que permitiram entrar e acolher essa mágoa no meu coração. Se não foram, me recolho, tento descobrir se o ato que conseguiu me atingir foi intencional. Dou um tempo, e, cautelosamente neutro, começo a observar a pessoa nos olhares, nas palavras, nos gestos. Se verdadeiras minhas desconfianças, abandono o nome da pessoa na gaveta do esquecimento, ela sepultou, perante mim, o seu crédito existencial. A indiferença é a resposta maior que ofende muito mais o ego dessas pessoas agressivas, elas sempre querendo aparecer e não se incomodando, em nome da expansão desse seu ego, em machucar as almas dos outros.

Mais tarde, infelizes se sentirão, ao se submeterem, de uma forma irresistível e obrigatória, às personalidades mais fortes que a própria. Momento, aí, de decisão: acomodarem-se, reinventarem-se, ou sofrerem, definitivamente, as conseqüências da lei natural do retorno: o mal que fizermos, consciente ou não, está a nos esperar na angústia de um sofrimento qualquer, na esquina inesperada de um momento do futuro.


Segundo movimento


Foto MXL  (Cozumel, México)

Hoje amanheci cultivando mágoas. Vontade de não falar com ninguém... Muito ruim isso, revolve tristezas, elabora desavenças. O que poderia ter sido e não foi? Culpa nossa? Doação demais, com pretensão egoística de possível gratidão? Ora, não se deve esperar nada das pessoas com quem sentimentalmente iremos conviver, como falou o simpático padre da capelinha do Alto da Boa Vista (RJ) durante o casamento da filha do meu amigo J.Francisco... Nada de imaginações subjetivas sobre a outra pessoa, nova em sua vida, só o convívio vai definir os seus comportamentos. Ele foi enfático, perguntando a cada um dos nubentes: - O que v. espera dele(a)? - e, interrompendo imediatamente as palavras deles nas tentativas de resposta, emendava: “- Vocês não devem esperar nada... Vão é aprender a respeitar as respectivas individualidades, ajudando-as, pelo convívio, a crescer... Nada de imposições, e, sim, avaliar e aprender a dividir o espaço existencial e as tarefas de cada um. Este é o possível e importante caminho para a sobrevivência de um casamento.” Intrometo-me aqui: qualquer que seja a crença do casal, é sempre bom, também, ter um Deus-Amor-Energia escondido, semeado no coração.


Terceiro movimento


Foto MXL
Jardim Botânico RJ, - Menção honrosa AMBEP-Petrobrás (Refúgio)

Cada um responde, a seu modo, subjetiva e fisicamente, às emoções da mágoa que lhe escava o coração. E da maneira que entender mais confortável às conclusões dos seus pensamentos. Gosto, neste instante, de subir às montanhas, cultivando exercícios de humildade e entrosamento com a verde tranqüilidade da natureza. Primeiro, cativo nos olhos esplendores do azul do céu matutino. Segundo, contemplo o infinito, as montanhas, as florestas, os riachos que lhe escorrem pelos ombros, tudo isso espraiando dentro do peito a mensagem eterna sobre a insignificância do homem diante desta mesma natureza. Enfim, peço silencioso perdão a ela, a natureza, pelos ferimentos que os homens lhe impingem, em eternas atitudes de agressão, de demolição, de destruição. Ela, na verdade, não se vinga, ela deixa simplesmente de cooperar. O universo entra, depois, em desarmonia, e ela se queixa, muitas vezes violentamente, em movimentos inesperados nos ares, nas terras e nos mares. As inevitáveis lamentações humanas lembram-lhes a colheita das sementes mal plantadas.

Mais tarde, na descida dessas serras, aspiro, relembro e cultivo o bem estar quase anestésico da lição apreendida, a de, dali em diante, minimizar e diluir, conscientemente, a imagem de quem conseguiu se intrometer na quietude do meu existir.

Pequenos, pequeníssimos somos neste vasto mundo, mas prisioneiros sempre da nossa grande imaginação, perigosa fonte para os caminhos e descaminhos das nossas emoções. Dela nasce a medida das nossas impossibilidades existenciais ou das esperanças de superação íntima e realização dos sonhos, nascedouros de pensamentos adormecidos que vão moldar os nossos próximos passos de vida. E reagiremos às novas agressões já aperfeiçoados com um novo modelo de procedimento, então inteligentemente escolhido. Modelo que nos amparasse com uma técnica que nos permitisse não deixar o aborrecimento entrar no nosso mundo interior e nos permitisse, também, descansar sobre nossas emoções.


Publicada na edição histórica da Revista da Academia Cachoeirense de Letras, Cachoeiro de Itapemirim, ES, comemorativa dos seus 50 anos de fundação (28.06.1962).


(30 de março/2012)
CooJornal nº 780



Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com
miltonxili@yahoo.com.br


Direitos Reservados