04/05/2012
Ano 15 - Número 785

ARQUIVO
MILTON XIMENES

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Milton Ximenes Lima


A GRAVATA


 

Milton Ximenes Lima - Colunista, CooJornal

A Raul Castiço Loureiro, meu tio, que, substituindo meu falecido pai,
me ensinou os primeiros “nós”


Abriu a porta do guarda-roupa do pai e escolheu a gravata que mais lhe agradara, a vermelha com listras azuis, tons fosforescentes. Ali mesmo, no espelho, começou a criar o nó. Muito acima do umbigo, negativo... Desmanchou, partiu para outra tentativa, ficou lá embaixo... Não tinha muita paciência com o troço. Invenção besta esta dos homens, se enforcando socialmente com esses panos! Vez em quando lhe dava uma preguicite, não desmanchava os nós, tirava cuidadosamente a gravata pela cabeça, a pendurava assim mesmo no cabide dos ternos. Quando precisasse, era só encaixar no gogó.

Agora, porém, caprichava, pois, pela primeira vez, seu pai lhe dava a oportunidade de ajudá-lo. Pensava naquele homem distante, misterioso, que era o pai, aquele mesmo que lhe ensinara a dar o primeiro nó quando ainda moravam na velha casa, do outro lado do rio.

Lembrava-se bem. Rapazinho, já caçava no rosto os primeiros pelos da futura e cerrada barba, quando precisou colocar a gravata. Os amigos esperavam na calçada, e ele, ali, na luta com a possibilidade de um perfeccionista laço, e a pressa do momento mais o enervando. Já desanimava quando, pelo espelho, viu o pai se aproximando. Ele parou, examinou primeiramente sua roupa, perguntou, seco:
- Onde é a festa?
- Na casa dos Madureira – respondeu.
- Ahnn... e a que horas acaba?
- Não tem hora, vai até a turma desanimar...
- Aí é que se engana, garoto. Ninguém aqui vai ficar acordado esperando sua chegada. Vê se volta às onze!
- Mas pai, a essa hora a festa ainda nem esquentou!
- Então, você vai ficar na rua...
- Calado ficou, a vivência assim o ensinara, e, também, em certos momentos, sabia que a mãe era cúmplice na solução desses tipos de problema. O pai prosseguiu:
- E desocupe o banheiro, que preciso dele!
Suplicou:
- Um momento só, pai, um momento só, não acerto o nó dessa gravata!

Aí, a surpresa: o pai fez o laço, embora não o da moda. Quando quis agradecer, ele já havia fechado a porta do banheiro. Homem estranho, não gostava de muita intimidade, nem de ajuda de ninguém, parecia que se constrangia ao expressar seus sentimentos. Subira sozinho na vida, lutara muito para se estabelecer num negócio de café, capital próprio, sócio era a palavra que não figurava no seu dicionário...

A voz da irmã tirou-o das recordações:
- Anda aí Tonho, só falta botar a gravata!

Foi com ela para o quarto, os dois se ajudaram e colocaram a gravata no pai, cujo rosto, remoçado, aparentava uma paz jamais sentida. Mediu-o da cabeça aos pés, lá estava o velho, muito elegante, terno e sapatos praticamente novos, testemunhas apenas dos grandes acontecimentos da cidade ou da família.

Ao retornar à sala principal da casa cruzou com os homens que traziam o caixão. Estremeceu, sentiu verdadeiramente o grande momento da perda e, quando a mãe lhe tocou suavemente os ombros, suas defesas se fragilizaram, ele fugiu para o quintal e, sob a amendoeira de tantas recordações familiares, deixou-se ficar em prantos.

As lágrimas secaram. Ficou-lhe apenas um nó, um tenso nó na garganta, que aprisionou em seu corpo o silêncio do seu sofrimento, por muito tempo captado ao vestir seus futuros ternos.

Premiado na categoria “Destaques”, no Concurso de Contos Claudionor Ribeiro
da Academia Cachoeirense de Letras (ES), 2003



(04 de maio/2012)
CooJornal nº 785



Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com
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