13/07/2012
Ano 16 - Número 795

ARQUIVO
MILTON XIMENES

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Milton Ximenes Lima


VIVER E SONHAR

 

Milton Ximenes Lima - Colunista, CooJornal


Foto MXL
 

Sentiu que haveria uma festa em família. Inesperada, uma confraternização para comemorar ele não sabia o quê. Talvez só para a turma se reunir, se rever. A quem o convidou, prometeu ir, esclarecendo que, antes, teria que cumprir um compromisso no centro da cidade. Retornaria, era certo, a tempo.

Lá, na saída do táxi, dois homens, trajados em elegantes ternos, o cercaram, um deles logo lhe apresentou uma carteira tipo funcional, tipo de autoridade mais federal que policial comum. Um deles se afastou, o outro o conduziu para um carro estacionado próximo, ofereceu-lhe o banco de trás, e se aboletou no do carona. Carro em movimento, permitiu-se indagações sobre a razão daquilo tudo. Exame de consciência. Nada a temer em sua vida pessoal, profissional, comercial, tributária e outros bichos... O homem, com uma cara mais para o cinematográfico ator americano Will Smith, se negou a responder-lhe as perguntas, nem se virou para encará-lo. Então pensou: nem vai perceber se atacá-lo por detrás, uma chave bem dada no seu pescoço, puxando-o para trás com todo o peso do meu corpo. Só pensou, porque não era do seu feitio a alternativa imediata de qualquer violência. E, além do mais, aconteceu a freada que assustou a todos, fez o homem exibir seu revólver, apontando-o para a calçada à sua direita. A arma falhou. O motorista acelerou e o veículo submergiu na escuridão à sua frente.

Ele se indagou novamente. O que estou fazendo aqui, levado para um lugar que nem sei onde é? E a festa, meu Deus! Tenho que avisar à família! Mas como? Ansiedades vão chegando, crescendo, agitando-lhe os pensamentos.

Acordou. Acordou infeliz, visualizou, ao lado, o adormecido corpo da esposa, delicadamente sentou-se à beirada da cama, fez o costumeiro sinal da cruz, e se encaminhou para o banheiro da suíte.

Mais tarde, numa solitária meditação, catalogou pensamentos e emoções da semana anterior... Acreditou em conexões. Sim, pensara realmente em planejar uma festa para os seus setenta anos, mas um problema de saúde de pessoa muito próxima lhe impedira de levar adiante a idéia. Depois, numa noite, se deparou, no computador, com uma mensagem em spam do Tribunal Regional do Trabalho notificando-o para comparecimento no dia tal e tal hora – falsa, como tantas outras anteriormente recebidas, do Tribunal Regional Eleitoral, da Receita Federal, Caixa Econômica, Bancos, mas que, a princípio, fizeram saltar na sua imaginação indagações negativas. O rosto do artista americano, por outro lado, era projeção da sua frustração de não retirar da locadora um badalado filme dele, porque não teria tempo de vê-lo no agitado fim de semana que se anunciava. Dois dias depois, o seu cartão de gratuidade caiu no chão do ônibus e o tempo gasto para resgatá-lo, por causa dos bruscos movimentos do veículo, foi superior ao permitido à passagem na catraca, que, então, lhe bloqueou o corpo. A cara decepcionada do trocador lhe parecia sugerir: passar por cima da roleta ou pagar uma passagem. Permaneceu teimosamente na frente, evitando discussões com o moço, que já começara a reclamar da sua inércia naquele espaço. Resolveu: sairia pela porta em que subira. Assim, graças, também entendeu e concordou o motorista, depois de lhe pedir para encostar o cartão num dispositivo grudado no meio do para-brisa. E, enfim, à noite de uma quarta-feira, lá perto das dezoito horas, absorto em seu trabalho, não entendeu as palavras do último funcionário a deixar a repartição (“Você tem a chave daqui?”). Não tinha, ficou trancado. A imediata solução: consultadas anotações pessoais, disparou um festival de telefonemas, prejudicados, inicialmente, pelas ausências pessoais e técnicas das pessoas chamadas. Deixou recados. Sabia, também, que alguém, ali, tinha, à mesa, uma cópia da chave de uma das saídas, mas as encontradas não se casavam com a fechadura. Usou números de celulares, deixou outros recados. E cerca de quarenta minutos depois apareceu um dos Diretores, que viera apanhar um documento para embasar sua posição na reunião no dia seguinte, se espantou com sua presença, brincou com a situação. O celular dele abriu caminhos, recebendo chamadas de todos que tentavam se comunicar para dizer onde se encontrava a tal chave, e não o conseguiam porque o telefone ali era de ramal e tocava longe do local onde ele se encontrava. Nesta altura, até uma colega desistiu do táxi que encomendara para ir socorrê-lo, já avisada pelos outros da chegada do Diretor. Na verdade, durante todo o acontecimento, ele ficou tenso na busca de uma saída, mas não necessariamente nervoso, porque tinha a certeza de que Alguém, ao final, chegaria até ali.

Uma festa (aniversário), uma ameaça (e.mail), uma frustração (o filme não assistido), uma possibilidade de confronto (trocador), outra de aprisionamento (o abandono na repartição), todos eles acontecimentos com diversas emoções captadas, registradas e não digeridas adequadamente pelo subconsciente. Há perspectivas de uma ligação, uma interpretação? Ele analisa e tenta esboçar uma resposta: - Talvez... Como humanos e diretamente interessados, podemos até falhar nesta análise, mas, juntando o real e o irreal dos anteriores comportamentos, ele tem quase a certeza de que os sonhos são, ao final, macios travesseiros psicológicos para nossas preocupações não administradas. Eles tentam, simbólica ou diretamente, relembrar nossas angústias momentâneas e acariciá-las, nos dias e meses seguintes, com a anestesia do tempo - um dos caminhos para superá-las e, desse modo, alcançarmos uma possível tranqüilidade existencial.



(13 de julho/2012)
CooJornal nº 795



Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ

miltonxili@gmail.com


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