16/10/2019
Ano 22- Número 1.145


 

ARQUIVO
NILZA AMARAL


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Nilza Amaral

 

Casa Amarela

 

Não fora sempre amarela. Houve tempos de janelas azuis e paredes brancas, Brasil colonial, tempos de café com leite, grandes jardins, luz da lua refletindo no lago dos marrecos, palmeiras imperiais tremulando ao vento.

Então os latifundiários de colete e relógio de bolso, discutiam o preço do leite a alta do café, os leilões se sucediam entre as paredes do salão nobre, o nelore desfilava com garbo, as mulheres se apresentavam com a imponência dos poderosos, e tudo transcorria regado a champanhe francês e risadas estridentes.

Maria Eugênia Figueira Leão desfilava seus vestidos de grife, descendo imponente as escadarias do salão de festas. Dos alpendres enfeitados com plantas ornamentais avistavam-se as terras das fazendas e o gado em seus viveiros.

Os colonos, catadores de café, e os ordenhadores do gado, deixavam seu corrido de casas de fazenda, e se esgueiravam pelos cantos das janelas do lado de fora da casa grande, admirando a riqueza e o luxo. Os momentos passando sem grandes transformações a não ser a data dos leilões.

Porém, o tempo inexorável não para, e o vento que lambe a terra desbotou o azul das janelas, o dinheiro migrou para outras fontes, o branco das paredes encardiu, as risadas desapareceram deixando um eco no espaço. As personagens dos dias encantados foram substituídas pelos migrantes e imigrantes à cata de um lugar para se acomodar. Perto da rodoviária, poucos passos para arrastar o peso da mudança, enfim um lar, mesmo semidestruído, um cortiço atual, canos enferrujados, e sombra da lua entre as nesgas das palmeiras imperiais já não tão imponentes.

Cada um que chega pinta seu pedaço do colorido que mais o agrada, e o casarão das décadas áureas transforma-se na colcha de retalhos remendada de todas as cores ao bel prazer dos atuais moradores.

Os desfiles já não são elegantes o champanhe francês foi substituído pelo odor da cachaça que se espalha pelos longos corredores, fazendo eco às risadas dos fantasmas e ao choro das crianças com fome. A cidade cresce, fervilha de más intenções, a população se transmuta, aventureiros surgem, a nova sociedade reclama direitos sociais.

O casarão resistente, mas decadente, de um amarelo naval, memórias da era farta agora desbotado, encarnava os herdeiros dos tempos idos, marcando a casa grande com a cor de seu brasão.

A pensão central é cômoda para os estudantes que vêm de fora, trabalham meio período no centro, noitinha, dirigindo-se para o pressuposto lar, e logo saindo apressados à cata do bonde circular, cadernos sob os sovacos em busca dos bancos escolares.

Tempos de alfabetização de adultos, cidade crescendo, centro da cidade deteriorando, bairros enriquecendo, periferias pobres dominando as circunferências da cidade. Outras eras, outras casas, tempos de apartamentos.

Grandes construtoras, árvores sendo decepadas, palmeiras imperiais saindo de moda, mas a casa já não amarela, ainda resiste. Há herdeiros vivos, porém senis, já descartados. A única que resiste às desventuras, lembra-se apenas de que o sol era quente e avermelhado. A casa amarela, agora lar de idosos, espreme-se entre arranha-céus, permanece na paisagem.

À noite ao som dos motores dos carros, personagens do presente, os idosos sentam-se nos jardins da casa grande e apreciam a sombra da lua entre as nesgas dos prédios. Já não há marrecos no lago poluído, e as fazendas e os viveiros foram substituídos pelos pátios da grande rodoviária e pelo vai e vem de passageiros.

Maria Eugênia Figueira Leão, vestida com o uniforme do lugar, branco e azul, sem etiqueta de moda, apoiada em sua bengala de grife, restos de baú, do alto de seus noventa anos aprecia a paisagem, sentada na cadeira de balanço Tonet, reminiscência de um período opulento. Sua memória parou no passado e ela já não sofre os revezes da vida. Ao longe dobram os sinos da igreja do bairro. Os ônibus barulhentos desfilam ante o outrora alpendre esplendoroso.

Porém o olhar distante de Maria Eugênia, está preso em outro cenário. Em sua memória o tempo congelou o passado. Ela inda enxerga marrecos no lago e plantas ornamentais enfeitando o lugar.

Uma árvore de Natal cria luzes na varanda machucada. Uma brisa leve balança as folhas mortas das plantas quase secas. Um longo suspiro ecoa no ar.





Comentários sobre os textos podem ser enviados à autora, no email nilzamaral@hotmail.com



Nilza Amaral Antunes de Souza, escritora
Membro da Academia Campineira de Letras e Artes



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