
07/10/2006
Ano 10 -
Número 497
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Norma
Bruno
Tramas, enrendamentos e urdiduras
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Um velho sábio me contou uma história que diz mais ou menos assim:
“A vida de cada um é um punhado de linha que Deus lança ao vento na
hora do seu nascimento, proferindo as seguintes palavras:
– Meu filho, esse é o fio da tua vida. Dependerá de ti fazer dele um
novelo, curto ou longo, útil ou inútil, bem-feito ou malfeito.
Encontrarás o fio espalhado, envolto em flores e espinhos, embaraçado
nos galhos dos arbustos. Dependerá de ti desembaraçá-lo com sabedoria e
cautela ou arrebentá-lo com impaciência, se usares a força. Encontrarás
arbustos nos quais ele estará enredado de sorte que não poderás
desatá-lo. Quanto mais tentares, mais o nó se apertará. Aceita-o. Para
seguir adiante, precisarás quebrar o galho e levá-lo contigo. Se o
fizeres insensatamente, arrastarás um fardo pesado e a jornada te será
amarga e triste. Se o fizeres com sabedoria, cortando a madeira bem
rente ao fio, a empreitada te será leve, ainda que tragas um fio cheio
de nós cegos, pois algumas coisas independem da tua compreensão e da tua
vontade. Agora vai. Ao findar o tempo da tua vida, vem me apresentar o
resultado do teu trabalho”.
Enquanto o velho sábio narrava a história, uma imagem me veio à
lembrança. Na Rua Menino Deus, na frente da casa da vó Olga, havia um
pasto, uma capoeira, onde, pela manhã, ela soltava uma cabrita,
recolhendo-a ao anoitecer. A bita ficava lá o dia inteiro presa a uma
cordinha comprida, comendo, ruminando, obrando suas bolinhas, berrando,
vivendo as rotinas concernentes à sua vida de cabrita. À noite retornava
ao seu cercado, na casa. No dia seguinte, voltava para o pasto.
De vez em quando, a bita desandava a berrar – bééé, bééé, bééé –
enlouquecida, e a gente tinha que largar a brincadeira para desenlear a
infeliz da cabrita, que, no afã de alcançar os brotos verdes do pasto,
não se dava conta da sua trajetória labiríntica e ia emaranhando a
cordinha nos galhos e arbustos.
O chato é que quanto mais a gente tentava desfazer o emaranhado, mais
ela berrava e puxava, de maneira que apertava os nós, e se a gente a
desenleava de um lado, ela se enleava num outro e, enquanto isso,
berrava. Muitas vezes a solução era quebrar o galho, isso quando dava.
No começo da vida nós somos como aquela cabrita imprudente. Andamos
livres ao sabor do vento, ocupados com as descobertas e os problemas,
lidando com as pessoas e com a vida sem maiores cuidados, como se o
viver fosse um imenso pasto verde sem fim. Sem perceber, vamos nos
enredando aqui e ali, esquecidos da recomendação divina.
O tempo vai passando, e de repente a gente descobre desesperado que está
preso, emaranhado. E quanto mais força se faz, mais amarrado se fica.
Então, desandamos a berrar por socorro – bééé, bééé, bééé –, mas ninguém
aparece. Bééé, bééé, bééé..., até que se descobre que está,
irremediavelmente, sozinho. Percebemos a enrascada – a armadilha – em
que nos metemos: ninguém virá nos soltar, desenroscar a nossa corda. Nós
somos a bita e também os donos da bita. Cabe a nós o trabalho de
desenredar o fio, de desatar os nós.
O jeito é parar de berrar, olhar para os lados e para trás, tentando
descobrir por onde começar. Refazer o labirinto sem garantias de qual
seja o melhor caminho, aceitar as muitas idas e vindas, perceber os
equívocos, os velhos e os novos, dar-se conta dos laços, aceitar os nós
cegos – aprender a quebrar o que nos segura – bem rente, para que seja
leve.
O trabalho é vagaroso, exige paciência, atenção e cuidado; é preciso
desenlear o fio e, prudentemente, ir fazendo um novelo, por causa do
vento. Simultaneamente, desenlear e enovelar, desenlear e enovelar. É
demorado, é cansativo, parece injusto, a maioria desiste, alguns
prosseguem. Esses, depois de muito trabalho, se vêem – finalmente –
livres, mas com um novelo de linha na mão e uma pergunta no coração: _E
agora? O que é que eu faço com isso?
Eu estive pensando..., em vez de enredar, por que não enrendar – fazer
renda? No crivo, começa-se o trabalho desfazendo a trama do linho.
Depois de imaginar a beleza do desenho, contar e separar os fios, se
principia a urdidura. Depois se alinhava o pano, para só então casear:
passa a agulha do avesso para o direito do tecido, dá uma laçada, mais
outra, mais outra, ajeita o pano e puxa com delicadeza, mas firme, para
ficar bem-feito. Vai acompanhando o desenho até chegar no resultado. É
nos limites do vazio que se constrói a beleza.
Já na renda de almofada, a dificuldade do trabalho depende do pique da
renda e da beleza do desenho que se quer fazer: tem a céu estrelado e a
roda estrelada, tem a renda bicuda, a miudeira – também conhecida como
maria-morena – tem a margarida de coração, a beijo de arco, a favo de
abelha, a peixinho e a boca de sino, a sapa, a barriga de cobra, a
currupiu, a roda de leque, a jardineira, a sobrancelha de menina, a
porta de igreja, a pingo de chuva, a penca de rosas e a relevo. E também
os pegamentos de coração, a viola, a olho de boi e a conchas, além das
estrelas de cinco, sete e nove pontas.
Também há variação no tipo de ponto, conforme a renda. Pode ser ponto
inteiro, ponto corrido, meio ponto, ponto passado, ponto torcido, ponto
de trança, perna cheia, pastilha, ponto puxado ou perna esquecida (deve
ser aquele que dá para desenlear em caso de necessidade), o ponto
pregado (esse deve ser o tal do nó cego), o repuxo e o paninho. Vai
fazendo quadro por quadro e depois vai juntando conforme o desejado.
Já na tramóia a renda pode ser feita toda de vereda ou em peças
separadas. O desenho da renda tramóia parece com a vida: é um caminho
cheio de curvas, um labirinto, só que esse não tem armadilhas, apesar do
nome.
Para se fazer uma boa renda é preciso uma boa almofada, feita de um saco
de algodão, que varia de 29x32 a mais pequena até 100x100 cm a
mais grande, preenchido com barba-de-velho, macela ou capim-do-campo,
além de muito cuidado na escolha da madeira para fazer os bilros;
qualquer madeira não serve. Tem que ser de rabo-de-macaco, guaramirim,
fruta-de-pomba ou cumbatá, a melhor de todas elas, apesar de ser a mais
difícil de entalhar por ser mais dura.
No mais é sonhar com a beleza da renda, ir atrás dos piques, pegar a
linha, aprender os pontos, sentar no chão e principiar o trabalho com
paciência e capricho. Urdir, laçar, enrendar, viver. E, ao final do seu
tempo, prestar conta do novelo de linha que se recebeu, apresentando o
trabalho. A vida é tarefa de cada um, e é por isso que Deus não se
intromete quando a gente erra o ponto e deixa o mundo feio como está.
E quem não quiser desenlear os nós, nem fazer renda, nem tecer e nem
urdir? Por mim pode continuar no pasto berrando, ou então se conformar e
esperar o mato crescer perto da boca, quando já não tiver corda para ir
mais adiante. Isso é entre cada um e Deus; pouco se me dá! Mas depois
não digam que eu não avisei. De minha parte, prefiro não arriscar: tô
aprendendo a urdir. Desconfio que Nosso Senhor há de gostar da renda céu
estrelado.
E enquanto enrendo, vou rezando o rezo da bita, que diz assim:
Dai-me corda, Senhor, que o que mais quero é pasto...
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* As referências às rendas, os seus nomes, pontos e
instrumentos foram tirados do artigo Rendas e Renderias da Ilha de Santa
Catarina, de Doralécio Soares, publicado no Boletim da Comissão
Catarinense de Folclore nº 30/31, de agosto de 1978. Os segredos do
crivo me foram confiados pela Rita Cidade, uma criveira de mão-cheia.
(07 de outubro/2006)
CooJornal
no 497
Norma Bruno
licenciada em História
e
escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com
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