A aldeia é, desde os primórdios, referência de descanso e abrigo. Nasceu
como uma paisagem que convidava ao repouso, quer o caminhante precisasse
recuperar suas forças, aguardar um clima mais favorável à caminhada ou
permitir-se um tempo de reflexão para a escolha entre dois caminhos
confluentes. As necessidades humanas de nutrição e conforto faziam
florescer um comércio rudimentar que gerava trabalho e acabava por
atrair um maior número de pessoas. Nascia, assim, uma cidade.
A aldeia continua viva em mim. Ela é qualquer lugar onde eu tenha a
sensação de largar o fardo, sentar à sombra e beber um pouco de água
fresca. É o lugar onde me sinto protegida e encontro as pessoas que
apesar de peregrinos de seus próprios caminhos, partilham comigo o mesmo
espaço e o mesmo fragmento do tempo.
Ao pensar nisso, e sem que eu perceba, me chegam lembranças de
aconchego, nutrição e amparo disfarçadas de goiabeiras e caquizeiros,
cheiro de mar e entardeceres preguiçosos. Lembro um lugar feito de risos
e confiança, de uma casa antiga e um tempo em que o maior problema era
inventar a próxima brincadeira. Sou invadida por aquela paisagem.
O que me permite dizer sou daqui, pertenço a este lugar, faço parte
desta gente é um profundo senso de identificação, emoção que se constrói
na aldeia. Pode ser uma casa, uma rua, uma cidade, um caquizeiro ou o
peito da pessoa amada; aldeia é qualquer lugar para onde se queira
voltar porque é, em essência, o lugar da saudade. É tudo aquilo que me
inspira amorosidade e onde, envolvida pela emoção de pertencimento, eu
sei quem sou. Fernando Pessoa traduziu assim esta emoção...
“O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
... poucos sabem qual é o rio da minha aldeia.
E para onde ele vai
E donde ele vem...”
Eu também não sei para onde vai o mar que banha a minha aldeia, mas
aonde quer que vá, ele me leva em suas águas, e de onde quer que venha,
ele sempre me trará de volta. Às vezes o sonho da gente fica maior do
que o lugar e então é chegada a hora de ir. É preciso ter o olhar
repleto de paisagens para se conhecer a saudade, porque saudade é
vontade de voltar e só aprende a voltar quem aprendeu a partir.
Eu sei de onde sou. Sou deste lugar. É apenas “um pedacinho de terra,
perdido no mar”, mas é mais belo que o Tejo porque aqui fica o mar que
banha a minha aldeia.
E por falar nisso, a tua aldeia... onde fica?
(14 de outubro/2006)
CooJornal
no 498