14/10/2006
Ano 10 - Número 498

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 

A minha aldeia
 

 

A aldeia é, desde os primórdios, referência de descanso e abrigo. Nasceu como uma paisagem que convidava ao repouso, quer o caminhante precisasse recuperar suas forças, aguardar um clima mais favorável à caminhada ou permitir-se um tempo de reflexão para a escolha entre dois caminhos confluentes. As necessidades humanas de nutrição e conforto faziam florescer um comércio rudimentar que gerava trabalho e acabava por atrair um maior número de pessoas. Nascia, assim, uma cidade.

A aldeia continua viva em mim. Ela é qualquer lugar onde eu tenha a sensação de largar o fardo, sentar à sombra e beber um pouco de água fresca. É o lugar onde me sinto protegida e encontro as pessoas que apesar de peregrinos de seus próprios caminhos, partilham comigo o mesmo espaço e o mesmo fragmento do tempo.

Ao pensar nisso, e sem que eu perceba, me chegam lembranças de aconchego, nutrição e amparo disfarçadas de goiabeiras e caquizeiros, cheiro de mar e entardeceres preguiçosos. Lembro um lugar feito de risos e confiança, de uma casa antiga e um tempo em que o maior problema era inventar a próxima brincadeira. Sou invadida por aquela paisagem.

O que me permite dizer sou daqui, pertenço a este lugar, faço parte desta gente é um profundo senso de identificação, emoção que se constrói na aldeia. Pode ser uma casa, uma rua, uma cidade, um caquizeiro ou o peito da pessoa amada; aldeia é qualquer lugar para onde se queira voltar porque é, em essência, o lugar da saudade. É tudo aquilo que me inspira amorosidade e onde, envolvida pela emoção de pertencimento, eu sei quem sou. Fernando Pessoa traduziu assim esta emoção...

“O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
... poucos sabem qual é o rio da minha aldeia.
E para onde ele vai
E donde ele vem...”

Eu também não sei para onde vai o mar que banha a minha aldeia, mas aonde quer que vá, ele me leva em suas águas, e de onde quer que venha, ele sempre me trará de volta. Às vezes o sonho da gente fica maior do que o lugar e então é chegada a hora de ir. É preciso ter o olhar repleto de paisagens para se conhecer a saudade, porque saudade é vontade de voltar e só aprende a voltar quem aprendeu a partir.

Eu sei de onde sou. Sou deste lugar. É apenas “um pedacinho de terra, perdido no mar”, mas é mais belo que o Tejo porque aqui fica o mar que banha a minha aldeia.

E por falar nisso, a tua aldeia... onde fica?



 
(14 de outubro/2006)
CooJornal no 498


Norma Bruno
licenciada em história e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com