Os
muito jovens que me perdoem, mas entardecer é fundamental. É necessário
que ele seja jovem, mas apenas o suficiente. A safra de 50 está aprovada
por antecipação, aceitando-se, entretanto, após criteriosíssima
avaliação, representantes de safras anteriores, não excedida a safra de
45.
Imprescindível é saber dançar, esclarecendo-se que, a exemplo de outras
artes, mais importante é o gosto do que a performance. Espera-se do
namorado que, aos primeiros acordes, ele seja tomado de um incontrolável
desejo e, estendendo gentilmente a mão à sua amada, conduza-a à pista de
dança. Abrir-se-á exceção apenas se o caso tiver solução no curto
prazo, conforme atestado fornecido por professora diplomada que
goze de bom nome na praça.
Observação:
mexer o pé embaixo da mesa não é considerado passo de dança e
determinará a desclassificação sumária do candidato.
De
sobeja importância é a habilidade de fazer rir. Não apenas sorrir, esse
exercício preparatório do riso. Namorado que se preze deve ser pouco
exigente com a alegria. Rir à toa e, principalmente, rir de si mesmo é
atributo muito valorizado, pois se levar por demais a sério é, no
mínimo, falta de maturidade.
Mau
humor é considerado doença altamente contagiosa, de difícil recuperação,
razão pela qual o mal-humorado não sairá da condição de candidato, por
melhores que sejam as suas intenções; por falar nisso, dar-se-á
preferência aos candidatos mal-intencionados.
“É
preciso, é absolutamente preciso” emocionar-se com a beleza, com a
poesia, com as alegrias e misérias deste mundo. Só terá algum futuro o
namorado que, obrigatoriamente, goste de cinema; aliás, no cinema, é
aconselhável emocionar-se. Homem que não se permite perder o controle
será automaticamente transferido para uma lista de espera, pois ainda
não está no ponto.
Irrelevante é a cor dos olhos, desde que estejam instrumentalizados para
abrangências e rotatividades que permitam olhares oblíquos para a amada.
Que sejam profundos, prospectivos de reflexos e identidades e inspirem o
desejo de mergulhar em sua mirada.
Esclarecimento:
Olhos mouros gozarão de uma merecida prioridade.
É
recomendável cometer alguns versos, mas, se o namorado revelar outros
talentos, aceitar-se-á a troca por silêncios cheios de significado. Vez
por outra o namorado deverá ser capaz de substituir a respiração por
exercícios de suspiração explícita, especialmente durante os tais
silêncios significantes.
Gostar
de música é pré-requisito, desde música de raiz, samba, bossa nova,
chorinho, música cubana, blues, bolero, tango, grandes orquestras como
Ray Connif e Glen Muller até música erudita. Se acalentar uma vaga
esperança de que Elvis não morreu, poderá inclusive ser liberado
de outras exigências.
Causará
boa impressão o candidato que considerar as mulheres da safra de 50
simplesmente o máximo, e uma certa dificuldade para enxergar de perto
será registrada como um gesto de extremo cavalheirismo. Se, além disso,
o namorado gostar de piquenique no outono, fim de semana na serra e
águas termais, corre o risco de entrar para a galeria dos homens
inesquecíveis.
Como é
de conhecimento geral, cultivar os prazeres da mesa sinaliza um bom
potencial. Assim, é importantíssimo que o namorado apresente habilidades
culinárias que lhe permitam transcender o Miojo com ovo.
Fettuccini ao frutti di mare ou peixe assado com pirão
escaldado preparados ao vivo, valem 50 pontos e um beijo.
Mas o
que conta mesmo, e a bem da verdade é fator de desempate, é fazer um bom
café. Tanto faz se é de coador, cafeteira ou café solúvel, desde que
seja quente, muito quente e meio amargo. Serve qualquer marca, desde que
não seja “Três Corações”, que isso pra mim já é suruba. Bom mesmo é o da
marca “Dois Corações”. Não precisa pegar senha, dá para fazer no
capricho e servir com muito carinho.
Gozará
de excelente conceito aquele que gostar de una copa de vinho. No
caso de apreciar champanhe ao entardecer, assume de imediato uma
altíssima cotação. Por via das dúvidas, melhor não ser um profundo
conhecedor do assunto; basta que goste de vinhos e derivados, mas que
goste na dose certa. Grave é
não gostar de cuba libre; o namorado corre o risco de ser denunciado por
discriminação ideológica. Gravíssimo é ingeri-la em copo descartável; aí
vira caso diplomático, sem a menor chance de anistia ou asilamento.
Dar-se-á preferência aos não-fumantes por uma questão de bom gosto, se é
que tu me entendes.
Que me
perdoe o poeta, mas beleza não é fundamental, ao menos aquela
feita de exuberâncias e obviedades; beleza distribuída a esmo. Penso que
a beleza seja feita de harmonia, simetria e mistério. Indispensável
mesmo é o mistério, o resto é perfeitamente negociável. Aceitar-se-á de
bom grado um namorado bonito, desde que ele seja de uma beleza sutil,
descoberta apenas ao segundo olhar. Importante é ressalvar que, não
obstante, só um homem especial merecerá o segundo olhar.
É
perfeitamente aceitável uma barriguinha, respeitados os limites de
abrangência do abraço da amada. Cabelo é um item importantíssimo. Que
sejam fartos, desejavelmente longos, como a sinalizar uma vaga rebeldia
juvenil ainda presente, e que sugiram o toque. Se, por imperiosa
insuficiência capilar, o namorado estiver impossibilitado de atender a
tão importante quesito e desde que sob o ímpeto de um apaixonamento
súbito, incontrolável e mútuo, estudar-se-á o caso. Em contrapartida,
deve o namorado ser capaz de portar a sua calva com altivez e algum
charme. Careca só com atitude, caso contrário, nada feito.
É
desejável, aliás, muitíssimo desejável, uma barba, essa
verdadeira moldura de masculinidade e nobreza. Caso o namorado não seja
dotado de suficiente plumagem, fica dispensado do seu uso bastando que o
solicite por escrito, esclarecendo ser conhecedor de outras estratégias
para produzir idêntico efeito num pescoço feminino. Ah, e que não se
esqueçam as rugas, poucas, sem as quais não há mistério possível.
Que o
namorado seja terno e gentil e, no entanto, saiba reverenciar a sua
sagrada virilidade. De sobeja importância são as mãos; que sejam
grandes, fortes, másculas e aprisionem o olhar.
A voz,
que seja mansa, aveludada. A estatura, o suficiente para exigir da
namorada um delicado élevé, a fim de superar a distância.
A boca, se me for dado a escolher, que seja grande, carnuda. Na
circunstância de lábios finos e/ou boca pequena, que seja, pelo menos,
ávida. Estudar-se-á, a posteriori, alguma forma de ressarcimento.
Que o
namorado tenha peito. Não necessariamente peitorais inflados, mas peito,
que para viver é preciso ter peito e muita testosterona. Não obstante,
que esteja sempre aberto ao aconchego. Que as coxas sejam, se possível,
grossas e as extremidades dorsais dotadas de um elevado grau de
simpatia. O resto? Que seja cheiroso, apetitoso, generoso e
esperto para responder com propriedade ao diálogo amoroso.
Imprescindível é encarar o encontro amoroso como uma celebração e ter
talento para inspirar vibrações virtuosas.
Se não
for pedir muito, que o namorado apresente uma pelagem ainda que sutil,
bastando apenas que acorde memórias ancestrais de fogueiras, florestas e
luas cheias. Conta pontos ter alguma vivência tribal. De grande
serventia será algum conhecimento de bruxaria, poções mágicas,
quiromancia, massagem para o ciático e primeiros socorros, nunca se
sabe. Obviamente tudo condicionado a uma ampla, total e irrestrita
compatibilidade energética e astrológica.
Que ao
observá-lo se tenha a nítida impressão de que está ocupado com as
grandes causas da Humanidade. Que seja capaz de tornar-se feroz e
ameaçador ao menor sinal de indignidade e, no entanto, possa subitamente
ameninar-se e me enterneça com sua fragilidade. Que, vez por outra, o
namorado peça colo, mas torne-se repentinamente forte e saiba consolar
com generosidade. Que seja valente, misericordioso, solidário, coerente
e fiel. Aliás, fundamental é a fidelidade.
Só
estará apto à função aquele que tenha compreendido que sem verdade não
há felicidade possível. Como disse o Mestre: “... primeiro é preciso
sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro... para viver um
grande amor...”. Sendo assim, espera-se do cavalheiro que ele seja
de uma dama de cada vez e, se porventura, sentir vontade de aventurar-se
em outros lençóis, que seja sincero consigo mesmo, sele o seu cavalo e
seja gentil na despedida.
Observação:
se o candidato ainda estiver cursando a pré-escola das artes
cavalheirescas, peço que nem se inscreva, porque nesse assunto é bom não
arriscar o coração.
Que o
namorado seja de muitíssima seriedade, mas que na intimidade seja capaz
de “muito riso e pouco siso”, como dizem os antigos. Que seja competente
para fazer cócegas e contar histórias e goste de rituais, luz de velas e
conversas pela madrugada.
Que
conserve a esperança de que é possível, sim, mudar o mundo, e creia,
fervorosamente, que não há nada mais forte, mais fundamental, mais
virtuoso e inevitável do que o amor. Se o namorado estiver disposto a
correr riscos e for capaz de levar o amor até as últimas conseqüências,
então é bom avisar que, de uma hora para outra, pode se ver transformado
em grande amor da minha vida.
Quando
ausente, que ele saiba entrar em sintonia e mande mensagens pelo vento.
Por medida de segurança, aconselha-se, vez por outra, comunicar-se por
meios mais convencionais. Mortal é não responder aos e-mails; a ausência
de resposta será interpretada como descuido com o afeto, fazendo com que
o namorado caia 800 pontos ao olhar da amada. A reincidência o deixará
exposto à exclusão sumária sem aviso prévio, por justíssima causa. Por
outro lado, que o namorado não seja viciado em namoro virtual, que isso
é coisa de preguiçoso. É preciso que ele seja chegado num
“acoplamento estrutural mútuo” de vez em quando.
Reduzidíssimas chances tem o namorado que sonhe em juntar as escovas de
dente, contas telefônicas, listas de supermercado, essas materialidades.
Somente serão estudadas as propostas de juntar os sonhos, as alegrias e
os corpos na dança. Aceitar-se-á, de bom grado, dividir o prato de
espaguete, a casquinha do sorvete e a água do chuveiro, mas não todo
dia, pois perde a graça.
É
grande a expectativa de que esse homem assuma atitudes muito suspeitas
nas noites de lua cheia. Espera-se que ele seja um aplicado aprendiz da
Dança dos Espíritos e que, vibrando em uníssono, docemente murmure o
nome da mulher amada.
Que
esse homem seja, mais que tudo, um buscador, um peregrino. Que tenha
algo de pirata e de menino, algo de cigano, algo de profeta. Que em
certos momentos lembre, ainda que vagamente, um deus, mas que seja,
sobretudo, humano, essencialmente humano. Que saiba transcender a sua
humanidade e surpreenda com a leveza do seu espírito.
Que ele
compartilhe comigo as lições que aprendeu pelo caminho e queira que eu
lhe conte o que aprendi, e, a despeito de toda espiritualidade e
ternura, que esse homem absolutamente singular seja capaz de me enlaçar
pela cintura e me diga, com um estranhíssimo brilho no olhar:
“– Vem
cá, mulher...”.
(Este item vale o meu coração)
(21 de outubro/2006)
CooJornal
no 499