21/10/2006
Ano 10 - Número 499

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 

Receita de namorado
 

 

Os muito jovens que me perdoem, mas entardecer é fundamental. É necessário que ele seja jovem, mas apenas o suficiente. A safra de 50 está aprovada por antecipação, aceitando-se, entretanto, após criteriosíssima avaliação, representantes de safras anteriores, não excedida a safra de 45. 

Imprescindível é saber dançar, esclarecendo-se que, a exemplo de outras artes, mais importante é o gosto do que a performance. Espera-se do namorado que, aos primeiros acordes, ele seja tomado de um incontrolável desejo e, estendendo gentilmente a mão à sua amada, conduza-a à pista de dança. Abrir-se-á exceção apenas se o caso tiver solução no curto prazo, conforme atestado fornecido por professora diplomada que goze de bom nome na praça.

Observação: mexer o pé embaixo da mesa não é considerado passo de dança e determinará a desclassificação sumária do candidato.

De sobeja importância é a habilidade de fazer rir. Não apenas sorrir, esse exercício preparatório do riso. Namorado que se preze deve ser pouco exigente com a alegria. Rir à toa e, principalmente, rir de si mesmo é atributo muito valorizado, pois se levar por demais a sério é, no mínimo, falta de maturidade.

Mau humor é considerado doença altamente contagiosa, de difícil recuperação, razão pela qual o mal-humorado não sairá da condição de candidato, por melhores que sejam as suas intenções; por falar nisso, dar-se-á preferência aos candidatos mal-intencionados.

“É preciso, é absolutamente preciso” emocionar-se com a beleza, com a poesia, com as alegrias e misérias deste mundo. Só terá algum futuro o namorado que, obrigatoriamente, goste de cinema; aliás, no cinema, é aconselhável emocionar-se. Homem que não se permite perder o controle será automaticamente transferido para uma lista de espera, pois ainda não está no ponto. 

Irrelevante é a cor dos olhos, desde que estejam instrumentalizados para abrangências e rotatividades que permitam olhares oblíquos para a amada. Que sejam profundos, prospectivos de reflexos e identidades e inspirem o desejo de mergulhar em sua mirada.

Esclarecimento: Olhos mouros gozarão de uma merecida prioridade. 

É recomendável cometer alguns versos, mas, se o namorado revelar outros talentos, aceitar-se-á a troca por silêncios cheios de significado. Vez por outra o namorado deverá ser capaz de substituir a respiração por exercícios de suspiração explícita, especialmente durante os tais silêncios significantes.

Gostar de música é pré-requisito, desde música de raiz, samba, bossa nova, chorinho, música cubana, blues, bolero, tango, grandes orquestras como Ray Connif e Glen Muller até música erudita. Se acalentar uma vaga esperança de que Elvis não morreu, poderá inclusive ser liberado de outras exigências.

Causará boa impressão o candidato que considerar as mulheres da safra de 50 simplesmente o máximo, e uma certa dificuldade para enxergar de perto será registrada como um gesto de extremo cavalheirismo. Se, além disso, o namorado gostar de piquenique no outono, fim de semana na serra e águas termais, corre o risco de entrar para a galeria dos homens inesquecíveis.

Como é de conhecimento geral, cultivar os prazeres da mesa sinaliza um bom potencial. Assim, é importantíssimo que o namorado apresente habilidades culinárias que lhe permitam transcender o Miojo com ovo. Fettuccini ao frutti di mare ou peixe assado com pirão escaldado preparados ao vivo, valem 50 pontos e um beijo.

Mas o que conta mesmo, e a bem da verdade é fator de desempate, é fazer um bom café. Tanto faz se é de coador, cafeteira ou café solúvel, desde que seja quente, muito quente e meio amargo. Serve qualquer marca, desde que não seja “Três Corações”, que isso pra mim já é suruba. Bom mesmo é o da marca “Dois Corações”. Não precisa pegar senha, dá para fazer no capricho e servir com muito carinho.

Gozará de excelente conceito aquele que gostar de una copa de vinho. No caso de apreciar champanhe ao entardecer, assume de imediato uma altíssima cotação. Por via das dúvidas, melhor não ser um profundo conhecedor do assunto; basta que goste de vinhos e derivados, mas que goste na dose certa. Grave é não gostar de cuba libre; o namorado corre o risco de ser denunciado por discriminação ideológica. Gravíssimo é ingeri-la em copo descartável; aí vira caso diplomático, sem a menor chance de anistia ou asilamento. 

Dar-se-á preferência aos não-fumantes por uma questão de bom gosto, se é que tu me entendes. 

Que me perdoe o poeta, mas beleza não é fundamental, ao menos aquela feita de exuberâncias e obviedades; beleza distribuída a esmo. Penso que a beleza seja feita de harmonia, simetria e mistério. Indispensável mesmo é o mistério, o resto é perfeitamente negociável. Aceitar-se-á de bom grado um namorado bonito, desde que ele seja de uma beleza sutil, descoberta apenas ao segundo olhar. Importante é ressalvar que, não obstante, só um homem especial merecerá o segundo olhar.

É perfeitamente aceitável uma barriguinha, respeitados os limites de abrangência do abraço da amada. Cabelo é um item importantíssimo. Que sejam fartos, desejavelmente longos, como a sinalizar uma vaga rebeldia juvenil ainda presente, e que sugiram o toque. Se, por imperiosa insuficiência capilar, o namorado estiver impossibilitado de atender a tão importante quesito e desde que sob o ímpeto de um apaixonamento súbito, incontrolável e mútuo, estudar-se-á o caso. Em contrapartida, deve o namorado ser capaz de portar a sua calva com altivez e algum charme. Careca só com atitude, caso contrário, nada feito.

É desejável, aliás, muitíssimo desejável, uma barba, essa verdadeira moldura de masculinidade e nobreza. Caso o namorado não seja dotado de suficiente plumagem, fica dispensado do seu uso bastando que o solicite por escrito, esclarecendo ser conhecedor de outras estratégias para produzir idêntico efeito num pescoço feminino. Ah, e que não se esqueçam as rugas, poucas, sem as quais não há mistério possível.

Que o namorado seja terno e gentil e, no entanto, saiba reverenciar a sua sagrada virilidade. De sobeja importância são as mãos; que sejam grandes, fortes, másculas e aprisionem o olhar.

A voz, que seja mansa, aveludada. A estatura, o suficiente para exigir da namorada um delicado élevé, a fim de superar a distância. A boca, se me for dado a escolher, que seja grande, carnuda. Na circunstância de lábios finos e/ou boca pequena, que seja, pelo menos, ávida. Estudar-se-á, a posteriori, alguma forma de ressarcimento. 

Que o namorado tenha peito. Não necessariamente peitorais inflados, mas peito, que para viver é preciso ter peito e muita testosterona. Não obstante, que esteja sempre aberto ao aconchego. Que as coxas sejam, se possível, grossas e as extremidades dorsais dotadas de um elevado grau de simpatia. O resto? Que seja cheiroso, apetitoso, generoso e esperto para responder com propriedade ao diálogo amoroso. Imprescindível é encarar o encontro amoroso como uma celebração e ter talento para inspirar vibrações virtuosas.

Se não for pedir muito, que o namorado apresente uma pelagem ainda que sutil, bastando apenas que acorde memórias ancestrais de fogueiras, florestas e luas cheias. Conta pontos ter alguma vivência tribal. De grande serventia será algum conhecimento de bruxaria, poções mágicas, quiromancia, massagem para o ciático e primeiros socorros, nunca se sabe. Obviamente tudo condicionado a uma ampla, total e irrestrita compatibilidade energética e astrológica. 

Que ao observá-lo se tenha a nítida impressão de que está ocupado com as grandes causas da Humanidade. Que seja capaz de tornar-se feroz e ameaçador ao menor sinal de indignidade e, no entanto, possa subitamente ameninar-se e me enterneça com sua fragilidade. Que, vez por outra, o namorado peça colo, mas torne-se repentinamente forte e saiba consolar com generosidade. Que seja valente, misericordioso, solidário, coerente e fiel. Aliás, fundamental é a fidelidade.

Só estará apto à função aquele que tenha compreendido que sem verdade não há felicidade possível. Como disse o Mestre: “... primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro... para viver um grande amor...”. Sendo assim, espera-se do cavalheiro que ele seja de uma dama de cada vez e, se porventura, sentir vontade de aventurar-se em outros lençóis, que seja sincero consigo mesmo, sele o seu cavalo e seja gentil na despedida.

Observação: se o candidato ainda estiver cursando a pré-escola das artes cavalheirescas, peço que nem se inscreva, porque nesse assunto é bom não arriscar o coração.

Que o namorado seja de muitíssima seriedade, mas que na intimidade seja capaz de “muito riso e pouco siso”, como dizem os antigos. Que seja competente para fazer cócegas e contar histórias e goste de rituais, luz de velas e conversas pela madrugada.

Que conserve a esperança de que é possível, sim, mudar o mundo, e creia, fervorosamente, que não há nada mais forte, mais fundamental, mais virtuoso e inevitável do que o amor. Se o namorado estiver disposto a correr riscos e for capaz de levar o amor até as últimas conseqüências, então é bom avisar que, de uma hora para outra, pode se ver transformado em grande amor da minha vida.

Quando ausente, que ele saiba entrar em sintonia e mande mensagens pelo vento. Por medida de segurança, aconselha-se, vez por outra, comunicar-se por meios mais convencionais. Mortal é não responder aos e-mails; a ausência de resposta será interpretada como descuido com o afeto, fazendo com que o namorado caia 800 pontos ao olhar da amada. A reincidência o deixará exposto à exclusão sumária sem aviso prévio, por justíssima causa. Por outro lado, que o namorado não seja viciado em namoro virtual, que isso é coisa de preguiçoso. É preciso que ele seja chegado num “acoplamento estrutural mútuo” de vez em quando.

Reduzidíssimas chances tem o namorado que sonhe em juntar as escovas de dente, contas telefônicas, listas de supermercado, essas materialidades. Somente serão estudadas as propostas de juntar os sonhos, as alegrias e os corpos na dança. Aceitar-se-á, de bom grado, dividir o prato de espaguete, a casquinha do sorvete e a água do chuveiro, mas não todo dia, pois perde a graça.

É grande a expectativa de que esse homem assuma atitudes muito suspeitas nas noites de lua cheia. Espera-se que ele seja um aplicado aprendiz da Dança dos Espíritos e que, vibrando em uníssono, docemente murmure o nome da mulher amada.

Que esse homem seja, mais que tudo, um buscador, um peregrino. Que tenha algo de pirata e de menino, algo de cigano, algo de profeta. Que em certos momentos lembre, ainda que vagamente, um deus, mas que seja, sobretudo, humano, essencialmente humano. Que saiba transcender a sua humanidade e surpreenda com a leveza do seu espírito.

Que ele compartilhe comigo as lições que aprendeu pelo caminho e queira que eu lhe conte o que aprendi, e, a despeito de toda espiritualidade e ternura, que esse homem absolutamente singular seja capaz de me enlaçar pela cintura e me diga, com um estranhíssimo brilho no olhar:

“– Vem cá, mulher...”. 

(Este item vale o meu coração)   



 
(21 de outubro/2006)
CooJornal no 499


Norma Bruno
licenciada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com