(baseado em fatos reais)
Quando era pequena, ela gostava de
imitar a mãe enquanto esta fazia o serviço de casa. A mãe reclamava o
estorvo, argumentando o adiantado da hora e o atraso no preparo do
almoço, o marido não tardaria a chegar. Mas, aí, lembrava as palavras da
sua avó: – Deixa Lelé, tu não tás vendo? Quando crescer, essa menina
vai ser muito trabalhadeira!
A mãe da menina
era caprichosa, a casa era um brinco, trazia os filhos bem cuidados,
asseados, bem alimentados. Usava um avental imaculadamente branco, fazia
o serviço de casa cantando, tinha uma belíssima voz. Ensinava aos filhos
o valor do trabalho, falava dos períodos difíceis vividos na infância,
da necessidade de evitar desperdícios e de trabalhar duro para vencer na
vida. Para ilustrar esses ensinamentos, contava as histórias da família.
Contava que a bisavó da menina era
muito trabalhadeira, e que teve uma vida de privações. O bisavô era um
homem bom, mas era orgulhoso, não aturava cara feia de patrão; a
qualquer contrariedade, pedia as contas. Andava sempre
engomado, de terno, não aceitava
qualquer serviço, afinal era filho de um Juiz de Paz, num tempo em que
isso significava quase um título nobiliárquico e, sobretudo, poder.
Por conta do orgulho do marido, era
ela, ao final, quem sustentava a casa, limpando as vísceras dos animais
abatidos no matadouro do irmão João Júlio, para depois fazer
murcilhia de sangue de boi e de porco, que ele venderia no açougue
de sua propriedade. Ela acordava na madrugada, limpava
toda a nojeira das tripas, soprava para
deixá-las infladas, colocava-as para secar ao Sol, depois lavava a
roupa, limpava a casa, cuidava dos filhos, preparava o almoço e a janta
com o que tinha. Nunca reclamou da vida dura.
Tinha uma irmã chamada Florípedes,
nome difícil que todos pronunciavam Florípsss, o que a deixava muito
contrariada. Talvez por isso vivesse sempre corrigindo quem falava
errado, o que lhe conferira a fama de esnobe. Quando alguém chamava o
irmão: – Toninhoooo..., a tia Florípedes corrigia: – O nome
dele não é Toninho, é Antônio Carlos!. Era magra, elegante,
vestia-se invariavelmente de preto – ficou viúva aos dezoito anos, nunca
mais casou –, usava vestido comprido e botas até o joelho para esconder
um defeito na perna. Essa vivia corrigindo as pessoas, mas era
trabalhadeira.
Já a tia Adelina, a cunhada, era
mandriona, metida a chique; deixava tudo para depois. A tudo dizia: –
Depois eu faço..., depois eu tiro..., depois eu limpo...,
só que esse depois não tinha hora para chegar. As roupas
ficavam de molho por dias a fio – ia trocando a água para a roupa não
apodrecer –, a louça ficava na bacia, as panelas no molho para
desencrostar a banha. Estacionava a vassoura na parede da sala ao menor
motivo de distração, e ali ela ficava, como um adorno, um objeto de
decoração, por horas, às vezes dias seguidos.
Quando estava indisposta para as
lidas domésticas, o que era comum, chegava na beira da cerca e
perguntava à cunhada: – Queres esse resto de comida pra ti?
Olha, pode ficar co’a panela também. A bisavó da menina aceitava,
tanto pela necessidade quanto pelo constrangimento diante de tanta
mandriagem.
Cansada só de
pensar em ter que lavar uma panela, e por causa da falta de espaço em
cima do fogão a lenha, Adelina a oferecia à cunhada necessitada - quem
mandou ser trabalhadeira? -, assim resolvia o seu problema e ainda fazia
uma caridade. Passava os dias deitada, lendo romance, vestida com uma
camisola de cambraia de linho entremeada de rendas e bordados da Ilha da
Madeira, que a cunhada trabalhadeira engomava com capricho.
A avó da menina também era
caprichosa, trazia tudo no lustro e, apesar de lavar, passar e cozinhar
para uma família de dez filhos, ainda encontrava tempo para fazer
deliciosos pães de casa toda semana. E assim
foi desde sempre naquela família, com as tias, com as tias das
tias e as primas, e também com as primas das primas, com exceção da tia
Adelina, bem entendido, mas essa não era do mesmo sangue.
Pois a rapariga cresceu, mas a
profecia não se concretizou. Não que ela fosse avessa ao serviço, não é
isso; só que ela gostava mesmo era de ficar na janela matutando,
pensando na vida, arreparando no acontecido, proseando co’as
pessoas que passavam, dando informe do que sabia. Fazia o serviço, mas o
trabalho parece que minava! Então, sempre deixava alguma coisa para o
dia seguinte, que ela tinha uma filosofia de vida: ou fazia bem-feito ou
não fazia.
O jeito era
deixar os panos de molho no cocho – assim já vai clareando, dizia –, as
panelas de molho para desencrostar a gordura, a louça para lavar de
noite, quando todo mundo já estava dormindo e parecia que nada acontecia
na vizinhança.
Não era muito chegada em televisão,
gostava de ver tudo ao vivo e em cores, por isso preferia a sua janela.
Tinha quem lhe chamasse de fofoquera, alcovitera,
zolhuda e ispiculadera, mas quando alguém queria saber de
alguma novidade do lugar, adivinha pra quem é que ia perguntar?
Para não perder
nada do que se passava na rua, já tinha colocado a almofada da renda bem
perto da janela, porque se ela ouvia um barulho diferente, bastava
ajoelhar no chão e esticar o pescoço para ver se o sucedido valia a
interrupção do trabalho.
Um certo dia, ela
já se sentindo aborrecida, pois desde que a vizinha se apartô do marido
_ Coitado, um homem tão bom, ia da casa pro trabalho e do trabalho
pra casa –, nada mais tinha acontecido, pensou: – Ô pasmacera de
vida! Foi então que o telefone tocou. Era uma comadre muito querida
que tinha se mudado e ela não via fazia tempo, dizendo que estava de
passagem pela localidade e que se dirigia à sua casa para dar-lhe um
abraço; em dez minutos chegava.
Ela ficou
contente de rever a amiga, mas aí se deu conta da desarrumação da casa,
a pia cheia de louça, as panelas de molho, os móveis cobertos de pó, o
assoalho sem um resquício de cera, o banheiro... Não contou tempo:
muniu-se de vassoura, balde, panos de chão, espanador e escovão, cera de
assoalho, desinfetante para banheiro, sapólho e lustra-móvis
– como ela dizia -, e principiou o trabalho.
Distribuiu os
produtos pelo ambiente, aspergiu um pouco de Q-Boa pelo chão para
espraiar o cheiro de limpeza, encostou a vassoura e o escovão na parede,
colocando o balde bem no meio da sala. O espanador, após um criterioso
estudo, foi depositado estrategicamente sobre uma cadeira, na cozinha.
Foi só o tempo de colocar o avental e amarrar um pano na cabeça e a
comadre bater palmas no portão da casa. Ela gritou: –
Vai entrando
comadre! Cuidado com o balde...
As duas se
abraçaram saudosas, a comadre se desculpando: – Desculpa eu vir assim
sem avisar, eu não quero te atrapalhar... E ela: – Que me
atrapalhá qui nada, é até bom, só assim eu descanso um pouco... vamo pra
cozinha... só não arrepara na bagunça, que hoje é dia de faxina. Eu vô
botá uma água pra fazê um cafezinho, que a minha avó ensinava que visita
quando chega na casa da gente a gente arrecebe, manda entrá e vai direto
pra cozinha botá água pra fervê pra fazê o café. Senta aqui,
disse tirando o espanador de cima da cadeira. _ E aí, me
conta, quais são as novidade?
E lá ficaram as
duas proseando, pondo em dia as novidades, ela fazendo o relato de tudo
o que tinha acontecido na localidade desde a partida da amiga. Pena que
o tempo era pouco.
O nome dela?
Adivinha...
(28 de outubro/2006)
CooJornal
no 500