Era uma
pessoa simples, o Manoel da Bia. Pode-se dizer que era analfabeto, pois
se de um lado era bom no cálculo e no manuseio de números, no domínio
das letras sabia apenas assinar o próprio nome. Trabalhador, tido como
um artista na arte de entalhar a madeira, ficou famoso pela facilidade
em solucionar os dificultosos pedidos da freguesia que a cada dia ficava
mais exigente, as novidades tiradas das revistas ou do que se via nas
viagens ao Rio de Janeiro, a sofisticada Capital da República.
Durante
muitos anos trabalhou na Funerária do velho Ortiga, fazendo caixão para
os novos residentes do Cemitério das Três Pontes, até que foi convidado
a trabalhar na Oficina do Heinich, localizada na confluência da João
Pinto com a avenida Hercílio Luz, antigamente conhecida como Ponte do
Vinagre. Por falar no Hercílio, esse foi o principal responsável pela
boa fama do marceneiro.
Ocorre
que o Governador estava construindo uma casa nova, cheia dos requintes
que, entre outras coisas, possuía uma complexa escada de madeira
entalhada e, junto, adornando a parede, um belo vitral. Tudo ia bem, não
fosse um erro no projeto que acabou por comprometer o sistema de
sustentação da escada. A solução apresentada pelo engenheiro responsável
foi apoiá-la na parede, o que implicaria em sacrificar o vitral. Diante
da negativa peremptória do Governador, a sugestão era substituir a
madeira pelo ferro, ele que se conformasse.
Como
numa cidade pequena as novidades correm, alguém comentou o fato na
oficina do Heinich. O Manoel, que estava por perto, disse que sabia como
resolver o ingriguilho. A notícia chegou até o Governador e o marceneiro
foi chamado ao Palácio. Encarregado do serviço cumpriu o que prometera:
salvaram-se ambos, vitral e escada. A partir daí, ele continuou a
trabalhar na Oficina do Heinich, mas à disposição do Hercílio, para quem
fez, inclusive, os móveis do casamento.
Apesar
da fama, continuava a sua rotina de homem simples. No cotidiano usava
manga de camisa e calçado de lona com solado de corda de cânhamo ou
tamancos de madeira, as ferramentas acondicionadas numa bolsa de palha
retangular, do tipo que ainda se encontra à venda no Mercado Público.
Nos finais de semana, porém, vestia terno tipo jaquetão e sapato
engraxado para ir ao Teatro e às reuniões da UBRO, a União Brasileira
Operária, da qual era um associado fiel.
Trabalhava de Sol a Sol, mas, todo dia, findado o expediente, passava na
casa da Emília, a vizinha, doceira de mão cheia, para comprar rosca de
polvilho, pequeno luxo que ele se concedia como recompensa pelo dia de
trabalho duro.
A casa
geminada - do tipo “porta e janela”-, como a maioria das casas da rua,
tinha um extenso corredor que levava direto aos fundos, onde se
localizava a grande cozinha de paredes enegrecidas pela fumaça do fogão
à lenha, localizado num canto. O corredor dava direto em uma grande
mesa, onde ela preparava as iguarias, enquanto controlava o movimento da
freguesia.
Sobre
um aparador, a tradicional gamela de madeira escavada servia de pia para
lavar a louça, após o que, se despejava a água suja pelo vão da janela,
conforme o costume. Sobre o fogão, os tabuleiros untados à espera da
próxima fornada e as panelas de barro de diversos tamanhos - a pequena
para fazer o arroz, a maior para fazer o feijão e o cozido, e a mediana
para o peixe ou a galinha ensopada.
Verdade
seja dita: ainda não se inventou panela melhor para dar sabor à comida,
com a vantagem de conservar a quentura por horas a fio. Por isso mesmo
não é coisa para quem está aprendendo, porque panela de barro é que nem
mulher. Demora pra esquentar, mas depois que pega a quentura, demora
mais ainda pra esfriar e, no caso da panela, pra queimar a comida é o
tempo de um cuspe (já a mulher pra queimar, o nego tem que sê muito
bom!).
Na
prateleira - que ela chamava de “partelera”- , ficavam os pratos de
comer, um alguidar e o boião usado para fazer o café colhido no quintal
da casa, onde, além da velha goiabeira, ficava também a casinha para as
necessidades da família.
A
cozinha tinha, como era costume nas casas pobres, o “chão batido”, piso
de terra que se usava varrer até que não restasse um único grão de areia
solto, apenas o solo compactado pelo uso, o que resultava no tal “chão
batido” que de tão varrido chegava a ter um certo brilho, o que atestava
o capricho da dona da casa. A cozinha da Vó Chica era assim.
Pois
muito bem. Freguês antigo, Manoel chegava na porta, invariavelmente
aberta para a rua, batia palmas e ia entrando, previamente autorizado
pela Emília. Trocava dois dedos de prosa e realizava a compra, a rosca
mais torradinha já embrulhada conforme era de sua preferência, e
devidamente anotada no caderno da quituteira, já que ali a freguesia
pagava por mês. Naquele dia, tudo aconteceu como de hábito. Ou quase,
por um trisco.
No
alguidar sobre a mesa, Emília preparava a deliciosa rosca para a próxima
fornada quando ele chegou. No lusco-fusco do entardecer, Manoel teve a
impressão de que ela teria olhado em sua direção, por isso não bateu
palmas, como de costume.
Atravessando o corredor, já ia falar _ Boas tardes, D. Emília!,
quando ela levantou a barra da blusa de algodão, expondo a pele alva do
abdome. Discreto, Manoel estacou junto à parede, pensando no que fazer,
quando observou que ela procurava algo no cós da saia. Ela mexeu,
remexeu e mexeu de novo até que, finalmente, encontrou o que procurava.
Esfregando com força o polegar contra o dedo indicador, a quituteira
depositou uma pulga na borda do alguidar e a esmagou com força. Ato
contínuo limpou a unha no avental e retornou com vigor a massa de
polvilho, que a freguesia não tardava a chegar.
Daquele
dia em diante, o Manoel da Bia, marceneiro talentoso, requisitado por
gente da alta, seguia direto do trabalho para casa e, ao estranhamento à
sua repentina aversão aos quitutes da Emília, ele respondia que fora
proibido pelo médico, depois que teve uma congestã de rosca de
polvilho.
A foto no texto é de Fátima B.Michels
Instalação compondo época, na exposição da Escola Jerônimo Coelho em
Laguna,
em homenagem ao Bicentenário do ilustre catarinense.
(04 de novembro/2006)
CooJornal
no 501