04/11/2006
Ano 10 - Número 501

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 


ACEPIPES

(uma história gastronômica realmente acontecida.
Ainda que não exatamente assim...)

 

Era uma pessoa simples, o Manoel da Bia. Pode-se dizer que era analfabeto, pois se de um lado era bom no cálculo e no manuseio de números, no domínio das letras sabia apenas assinar o próprio nome. Trabalhador, tido como um artista na arte de entalhar a madeira, ficou famoso pela facilidade em solucionar os dificultosos pedidos da freguesia que a cada dia ficava mais exigente, as novidades tiradas das revistas ou do que se via nas viagens ao Rio de Janeiro, a sofisticada Capital da República.

Durante muitos anos trabalhou na Funerária do velho Ortiga, fazendo caixão para os novos residentes do Cemitério das Três Pontes, até que foi convidado a trabalhar na Oficina do Heinich, localizada na confluência da João Pinto com a avenida Hercílio Luz, antigamente conhecida como Ponte do Vinagre. Por falar no Hercílio, esse foi o principal responsável pela boa fama do marceneiro.

Ocorre que o Governador estava construindo uma casa nova, cheia dos requintes que, entre outras coisas, possuía uma complexa escada de madeira entalhada e, junto, adornando a parede, um belo vitral. Tudo ia bem, não fosse um erro no projeto que acabou por comprometer o sistema de sustentação da escada. A solução apresentada pelo engenheiro responsável foi apoiá-la na parede, o que implicaria em sacrificar o vitral. Diante da negativa peremptória do Governador, a sugestão era substituir a madeira pelo ferro, ele que se conformasse.

Como numa cidade pequena as novidades correm, alguém comentou o fato na oficina do Heinich. O Manoel, que estava por perto, disse que sabia como resolver o ingriguilho. A notícia chegou até o Governador e o marceneiro foi chamado ao Palácio. Encarregado do serviço cumpriu o que prometera: salvaram-se ambos, vitral e escada.  A partir daí, ele continuou a trabalhar na Oficina do Heinich, mas à disposição do Hercílio, para quem fez, inclusive, os móveis do casamento.

Apesar da fama, continuava a sua rotina de homem simples. No cotidiano usava manga de camisa e calçado de lona com solado de corda de cânhamo ou tamancos de madeira, as ferramentas acondicionadas numa bolsa de palha retangular, do tipo que ainda se encontra à venda no Mercado Público. Nos finais de semana, porém, vestia terno tipo jaquetão e sapato engraxado para ir ao Teatro e às reuniões da UBRO, a União Brasileira Operária, da qual era um associado fiel.

Trabalhava de Sol a Sol, mas, todo dia, findado o expediente, passava na casa da Emília, a vizinha, doceira de mão cheia, para comprar rosca de polvilho, pequeno luxo que ele se concedia como recompensa pelo dia de trabalho duro.

A casa geminada - do tipo “porta e janela”-, como a maioria das casas da rua, tinha um extenso corredor que levava direto aos fundos, onde se localizava a grande cozinha de paredes enegrecidas pela fumaça do fogão à lenha, localizado num canto. O corredor dava direto em uma grande mesa, onde ela preparava as iguarias, enquanto controlava o movimento da freguesia.

Sobre um aparador, a tradicional gamela de madeira escavada servia de pia para lavar a louça, após o que, se despejava a água suja pelo vão da janela, conforme o costume. Sobre o fogão, os tabuleiros untados à espera da próxima fornada e as panelas de barro de diversos tamanhos - a pequena para fazer o arroz, a maior para fazer o feijão e o cozido, e a mediana para o peixe ou a galinha ensopada.

Verdade seja dita: ainda não se inventou panela melhor para dar sabor à comida, com a vantagem de conservar a quentura por horas a fio. Por isso mesmo não é coisa para quem está aprendendo, porque panela de barro é que nem mulher. Demora pra esquentar, mas depois que pega a quentura, demora mais ainda pra esfriar e, no caso da panela, pra queimar a comida é o tempo de um cuspe (já a mulher pra queimar, o nego tem que sê muito bom!).

Na prateleira - que ela chamava de “partelera”- , ficavam os pratos de comer, um alguidar e o boião usado para fazer o café colhido no quintal da casa, onde, além da velha goiabeira, ficava também a casinha para as necessidades da família.

A cozinha tinha, como era costume nas casas pobres, o “chão batido”, piso de terra que se usava varrer até que não restasse um único grão de areia solto, apenas o solo compactado pelo uso, o que resultava no tal “chão batido” que de tão varrido chegava a ter um certo brilho, o que atestava o capricho da dona da casa. A cozinha da Vó Chica era assim.

Pois muito bem. Freguês antigo, Manoel chegava na porta, invariavelmente aberta para a rua, batia palmas e ia entrando, previamente autorizado pela Emília. Trocava dois dedos de prosa e realizava a compra, a rosca mais torradinha já embrulhada conforme era de sua preferência, e devidamente anotada no caderno da quituteira, já que ali a freguesia pagava por mês. Naquele dia, tudo aconteceu como de hábito. Ou quase, por um trisco.

No alguidar sobre a mesa, Emília preparava a deliciosa rosca para a próxima fornada quando ele chegou. No lusco-fusco do entardecer, Manoel teve a impressão de que ela teria olhado em sua direção, por isso não bateu palmas, como de costume.

Foto de Fátima B.Michels

Atravessando o corredor, já ia falar _ Boas tardes, D. Emília!, quando ela levantou a barra da blusa de algodão, expondo a pele alva do abdome. Discreto, Manoel estacou junto à parede, pensando no que fazer, quando observou que ela procurava algo no cós da saia. Ela mexeu, remexeu e mexeu de novo até que, finalmente, encontrou o que procurava.

Esfregando com força o polegar contra o dedo indicador, a quituteira depositou uma pulga na borda do alguidar e a esmagou com força. Ato contínuo limpou a unha no avental e retornou com vigor a massa de polvilho, que a freguesia não tardava a chegar.

Daquele dia em diante, o Manoel da Bia, marceneiro talentoso, requisitado por gente da alta, seguia direto do trabalho para casa e, ao estranhamento à sua repentina aversão aos quitutes da Emília, ele respondia que fora proibido pelo médico, depois que teve uma congestã de rosca de polvilho.

 


A foto no texto é de Fátima B.Michels
Instalação compondo época, na exposição da Escola Jerônimo Coelho em Laguna,
em  homenagem ao Bicentenário do ilustre catarinense.


(04 de novembro/2006)
CooJornal no 501


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com